Laurence Debray: "Victoria Eugenia foi a mulher da vida dele"
Viveu dois anos em Abu Dhabi para ajudar o rei emérito espanhol a escrever a sua biografia. O resultado foi 'Reconciliação', editado pela Planeta
Exilado nos Emirados Árabes Unidos, o chefe de Estado espanhol (1975-2014) resolveu escrever a sua biografia e para isso contratou uma escritora e historiadora francesa. Laurence Debray, 49 anos, esteve em Portugal.
Como conheceu Juan Carlos ?
Já tinha escrito uma biografia sobre ele e estado com ele para um documentário logo antes da abdicação. Tive a sorte de ele me dar a sua última grande entrevista em 2014.
Para este livro como foi feito o contacto?
Ele chamou-me. Eu estava em Paris, durante o Covid, e ele pediu-me para ir a Abu Dhabi. Fiz a viagem e foi aí que ele me falou do projeto das memórias. Contou-me que Mohammed bin Rashid Al Maktoum, o líder dos Emirados Árabes Unidos, o tinha encorajado a escrever e que depois de pensar, achou que teria coisas a dizer.
Para si foi uma surpresa?
Sim. Disse imediatamente que não era capaz. Sou francesa, achei que não podia colocar-me no lugar do rei. Eu acho que ele já tinha tentado com outras pessoas, mas não tinham chegado a acordo. Acabei por instalar-me durante dois anos em Abu Dhabi com a minha família. Chegava às 11 horas e meia. Discutíamos. Eu não registava nada, tomávamos um café e discutíamos de maneira cordial, amigável. Às vezes ele tinha temas em mente, outras eu tinha perguntas. Depois escrevia, ele corrigia porque tinha que ser escrito no seu tom, na sua voz.
Sabe dizer quais foram, para o rei emérito, os episódios mais difíceis de contar?
Eu diria a morte do irmão [Juan Carlos disparou a pistola, acidentalmente]. Foi a primeira vez que ele falou disso. O rei é um militar. Não se foca muito nos seus sentimentos. Teve de se abrir e foi doloroso. Percebi que, na verdade, a presença do seu irmão mais novo ainda o acompanha. Tem fotos dele. Pede por ele quando reza.
Juan Carlos tinha 18 anos…
Ele tinha 18 e o seu irmão tinha 14 anos de idade.
Quanto tempo demorou a contar essa história?
Não me lembro. Algumas vezes, eu diria. Ele falava sobre isso, escrevia, ele corrigia e falava de novo sobre o assunto.
Foi um trabalho de paciência?
Sim, é uma boa definição.
Outro grande momento da biografia terá sido a transição democrática e a aposta pessoal de Juan Carlos em Adolfo Suárez…
Sim... Como vocês dizem… a transição para a democracia.
Teve a impressão de que Juan carlos já sabia exatamente o que queria dizer-lhe?
Não, mas posso dizer que ele não teve dúvidas sobre o que fazer nesse período. Não teve hesitações. Ele não queria a revolução de Portugal. Não queria a revolução, queria uma transição. Sobre a escolha de Suárez, na altura toda a imprensa espanhola e internacional pensava que era errada. Mas ele nunca duvidou. Ele é uma pessoa que tem uma enorme força interior, mesmo quando todo o mundo o critica, ele vai até o fim.
Juan Carlos teve medo de uma ‘contaminação portuguesa’?
Sim. Queria igualmente manter tranquilas as forças armadas e a oposição de esquerda. Outra diferença grande em relação a Portugal é que Espanha tinha tido uma guerra civil que ninguém queria repetir. Na verdade, o que ele fez foi justamente evitar a possibilidade de guerra civil.
Em Espanha, há pessoas que criticam o modelo do “esquecimento” ou da reconciliação que, na época, protegeu os franquistas e deixou vítimas sem justiça...
A questão é... A direita espanhola foi integrada no sistema como também os comunistas foram integrados no sistema. Não houve grandes processos, é verdade, mas na época ninguém pediu isso. Pediam amnistia para aqueles na prisão, pediram reintegração de posto, o que foi feito, mas ninguém pediu julgamentos. Não era uma prioridade. Na época, a prioridade era construir um futuro melhor, esquecer o passado. É claro que há feridas que ressurgiram, entretanto.
Juan Carlos tem o perfil de um diplomata?
Sim. Ele é um ótimo mediador. Ele fez, em 1991, em Madrid, a primeira cimeira de paz para o Médio Oriente.
Em sua opinião, os assuntos do amor e do dinheiro são os piores episódios da vida dele?
Sim. É o ponto mais baixo do seu reinado. As questões polémicas com o dinheiro começaram com o genro, Iñaki Urdangarin. Foi aí que a imagem da coroa espanhola começou a entrar em desgaste. No meio de uma crise económica mundial, saber-se de coisas como o episódio da caça ao elefante… entendo que tenha dececionado muitos espanhóis.
Combinaram previamente o tratamento a dar a assuntos polémicos?
Para ele foi claro desde o início que tinha de falar de tudo no livro. Embora este seja um livro que não é dirigido somente aos espanhóis, mas a outros públicos – foi lançado em França, aqui em Portugal, em árabe, em inglês, etc. Eu pensava que não era útil entrar em demasiados detalhes, porque algumas coisas que são hoje escândalo não ficarão na história.
Está a referir-se a quê?
Por exemplo, ao nome de todas as mulheres que dizem que foram suas amantes. Isso não me parecia útil. Um francês acha normal que um rei ou um presidente tenha amantes que, tirando disso, não são pessoas notáveis que ficam para a história.
François Mitterrand é disso exemplo…
E ele ainda é o presidente mais importante de França. No fim de contas até foi emocionante que no funeral tenham aparecido duas famílias... Os franceses não se perturbam muito com essas coisas...
Se eu perguntar qual é a mulher da vida de Juan Carlos, sabe a resposta?
A sua avó. Victoria Eugenia, que era filha da rainha do Reino Unido, Victoria. Ela casou muito jovem com Alfonso XIII, o último rei de Espanha, exilado em Roma. Durante a guerra estiveram todos em Lausanne (Suíça). Juan Carlos nasceu em Roma e depois foi para a Suíça durante a guerra, antes de vir para Portugal. Ele criou uma relação muito íntima com a avó. Ele estava num internato e ela ia visitá-lo, ele ia passar os fins de semana com ela. Há uma relação muito bonita entre os dois.
Pode descrever a vida de Juan Carlos em Abu Dhabi?
O rei emérito é um militar. Tem uma vida muito organizada. Mesmo com 88 anos, levanta-se cedo e todos os dias faz exercício para lutar contra os problemas de mobilidade e para continuar a fazer regatas, que adora. Depois lê a imprensa espanhola. Desce dos aposentos pessoais às horas espanholas, ou seja, tarde, às 14 horas. Em geral costuma ter uma visita por dia. Vive sozinho.
Ele demonstra preocupação com o filho?
Não, disse-me que ele está muito bem preparado, embora a situação atual, interna e internacional, seja difícil.
Como é que Juan Carlos desenvolveu relações particulares com os Emirados Árabes Unidos?
Nos anos 60, ele conheceu muito bem o pai do atual príncipe herdeiro de Abu Dhabi e atual presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed Al Nahyan. Na verdade, Juan Carlos foi um dos poucos chefes de Estado europeus a recebê-lo, a abrir-lhe as portas da Europa. E isso criou uma grande amizade entre as duas famílias reais. Quando ele saiu de Espanha, na época da Covid, muitos países estavam fechados, a escolha também teve que ver com a necessidade de ter atenção médica permanente. Há muito bons hospitais nos Emirados.
Ainda fala com Juan Carlos?
Sim, o tempo todo. Ele poderia ter sido um ótimo médico. Preocupa-se muito com as pessoas. Eu tive uma gripe, recentemente, e ele enviava-me vitaminas, e queria saber como estava. Quando tenho algum problema com os meus filhos, preocupa-se. É muito carinhoso.
O rei emérito é um homem charmoso?
Sim. Super-charmoso e também não é egocêntrico. Juan Carlos I viveu parte da sua vida fora do palácio. Antes de se tornar rei, sabia como era a vida cá fora. Ele diz que é um camaleão, que se adapta a tudo. É verdade, também nunca se lamenta, nem é amargo.
BI
Laurence Debray escritora francesa, hoje com 49 anos, que já publicara sobre a sua figura. Filha do filósofo Régis Debray e da antropóloga venezuelana Elizabeth Burgos, viveu em Cuba na infância. Formou-se em História e Literatura na Sorbonne e em Economia na London School of Economics e na HEC Paris, trabalhou no sector financeiro. É autora de vários livros, entre os quais 'Juan Carlos d'Espagne' e 'Fille de révolutionnaires', a biografia dos próprios pais, obra premiada em França. É casada com o investigador e escritor Émile Servan-Schreiber, de quem tem dois filhos.
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