Memórias da I Guerra
Cerca de três dezenas de pessoas percorreram Paris e a Flandres, onde o Corpo Expedicionário Português combateu na I Grande Guerra. A ideia era conhecer os locais que serviram de cenário ao romance ‘A Filha do Capitão’ de José Rodrigues dos Santos. A ‘Domingo’ acompanhou grupo desde o primeiro minuto.
O encontro estava marcado para as 06h10 da manhã, no hall do aeroporto da Portela. Mas antes, muito antes da hora marcada iam surgindo os primeiros participantes de uma viagem literária organizada pela Liga dos Combatentes e pelo Centro Nacional de Cultura. Às 06h30 as passagens estavam todas entregues e grande parte do grupo havia já despachado as bagagens.
Perto das 07h00 chegou aquele que deu origem a uma semana intensa em terras francesas: José Rodrigues dos Santos, jornalista e pivô da RTP.
Corria o ano 2000 quando Rui Nobre, um dos sócios da Moments In Portugal – uma empresa dedicada ao turismo cultural – palmilhou a Flandres onde o Corpo Expedicionário Português combateu entre 1917 e 1918, e decidiu que tinha que fazer “algo”. A oportunidade surgiu mais tarde com ‘A Filha do Capitão’, um romance histórico, escrito por José Rodrigues dos Santos, publicado nos finais de 2004 e com mais de 50 mil exemplares vendidos.
A Moments teve como parceiros fiéis a Liga dos Combatentes e o Centro Nacional de Cultura. E assim nasceu uma peregrinação que durou uma semana e agregou um grupo que não se conhecia entre si, composto por pessoas muito diferentes umas das outras mas que em comum partilhavam o desejo de conhecer Paris do início do século XX e a Flandres.
VIAGEM COMEÇA COM ATRASO
A viagem começou com um atraso devido a uma greve dos controladores aéreos em Paris. O avião acabou por levantar voo duas horas depois do previsto, rumo a Paris-Orly. Chegados a Paris e arrumados no Hotel Mercure, em Bercy, os participantes tiveram a tarde livre para actividades de carácter pessoal. Muitos almoçaram pela zona e à noite passearam pelo célebre bairro dos artistas, onde está situado o Moulin Rouge, Montmarte.
No dia seguinte, antes das 09h00 da manhã começava o passeio na cidade Luz. Um passeio que durou dois dias e que levou o grupo a locais distintos relacionados com o pano de fundo do romance ‘A Filha do Capitão’.
A saber: Bastille, Le Marais, Notre Dame, Ilha de Saint Louis, Panthéon, Torre Eiffel, Ponte de Iena, Champs de Mars, Trocadéro, Invalides, Grand Palais, Opera...
“Nós já conhecemos isto tudo, mas é sempre bom ver com outros olhos e recordar a História”, diziam alguns dos participantes, uma vez que grande parte das visitas eram guiadas.
“Eu estudei em Paris, na Sorbonne e já cá voltei não sei quantas vezes mas Paris é sempre Paris”, comentou uma das senhoras do grupo.
VISITA À CINEMATECA
Uma das visitas foi à Cinemateca, que funciona, desde Setembro passado, em Bercy, num edifício gigantesco projectado inicialmente pelo arquitecto Frank Gehry uma vez que os espaços interiores são assinados por um arquitecto francês, Dominique Brad. Ali, houve oportunidade de ver demoradamente a exposição permanente intitulada ‘Passion Cinema’.
Curiosamente, nesse dia, inaugurava uma exposição temporária inteiramente dedicada ao cineasta espanhol Pedro Almodóvar que, segundo consta, é muito popular em França.
As refeições em grupo ocorreram em dois locais distintos: um jantar no ‘Le Procope’ (ver caixa), considerado o mais antigo café da Europa (há quem diga que é do Mundo...) e um almoço na simpática Brasserie Lipp onde trabalham cinco cozinheiros portugueses, (ver caixa). No dia do jantar, os convivas vestiram-se a rigor para um alegre repasto. Mas a frase mais ouvida era: “Que horas são?” Tudo porque nessa noite o Benfica confrontava-se com o Barcelona e várias pessoas queriam assistir ao jogo. Acabaram por fazê-lo num bar das redondezas, lado a lado com espanhóis...
RUMO AO NORTE DE FRANÇA
A segunda parte desta viagem concentrou-se a Norte de França, numa visita emocionante aos locais que fizeram a História da I Guerra Mundial, nomeadamente aos sítios por onde o Corpo Expedicionário Português (CEP) passou. Às 08h30 da manhã todos os participantes abandonaram Paris rumo a Compiègne onde o especialista em História Militar, Sérgio Veludo Coelho, os conduziu até à Clarière de Compiégne onde se encontra o modelo similar da carruagem onde foi assinado o armistício de 11 de Novembro de 1918.
O modelo original sobreviveu até 1940, ano em que os alemães a destruiram por completo. Seguiu-se um almoço da Picardia no restaurante Saint Vicent, em Péronne, e uma visita ao Memorial da Grande Guerra. Neste local mítico encontra-se de tudo um pouco, desde as armas, aos capacetes ou às fardas dos soldados de diversas nações. É também ali que estão presentes números assustadores: foram mobilizados um total de 70 156 000 homens para a guerra e 9 442 000 morreram.
Nessa noite e depois de instalados no Hotel Palácio La Chartreuse du Val St. Esprit – um antigo palacete do século XVII remodelado – os convivas puderam descansar e jantar livremente, mas o espírito de grupo por esta altura era tão acentuado que grande parte das pessoas fez questão de se juntar.
Ao amanhecer, nova peregrinação e um dia que se adivinhava intenso e extremamente emocionante para alguns participantes – sobretudo aqueles que haviam combatido no Ultramar ou tinham familiares directos envolvidos na I Guerra Mundial.
De autocarro mas com paragens que lhes permitiam respirar História, percorreram o antigo Sector Português do Corpo Expedicionário Português (CEP), visitando Essars, Festubert, Cemitério Português (ver caixa), Neuve Chapelle, Mauquissart e Fauquissart. “Esta é a parte que mais me interessa da visita”, ouvia-se constantemente.
NO PALCO DAS TRINCHEIRAS PORTUGUESAS
Em Neuve Chapelle, zona que em tempos serviu de palco para as trincheiras portuguesas, encontra-se uma igreja que foi reconstruída após a II Guerra Mundial. Tempos antes havia ali um lugar de culto cristão dedicado aos soldados portugueses mas, mais uma vez, foi destruído pelos alemães. É também naquela zona que se encontra uma cópia quase perfeita do ‘Cristo das Trincheiras’, uma imagem de Jesus Cristo na Cruz que acompanhou o CEP em 1917 e 1918. O original encontra-se no Mosteiro da Batalha, em Portugal.
O grupo estava feliz com aquilo que havia conhecido e foi com um sorriso rasgado que participou num almoço organizado pela Comunidade Portuguesa, cujo prato principal era bacalhau escondido. José Rodrigues dos Santos fez furor entre esta comunidade, quase todos o (re)conheciam através das emissões da RTP Internacional.
Após o almoço, novas emoções: os participantes seguiram para Saint Venant onde conheceram a antiga residência oficial do General que comandou o CEP, Fernando Abreu Tamagnini. Ainda em Saint Venant e num centro histórico que os habitantes estão a construir – com o objectivo de manter viva a memória e a tradição do conflito 1914-1918 – José Rodrigues dos Santos foi homenageado em virtude do seu livro, ‘A Filha do Capitão’ falar detalhadamente da Grande Guerra e das terras francesas.
“A homenagem foi uma grande surpresa e deixou-me mais sensibilizado do que possa parecer”, comentou o autor.
AJUDA DE AFONSO MAIA
Para conhecer os locais onde em 1917 e 1918 os portugueses lutaram, perderam a vida ou simplesmente desapareceram, foi fundamental o apoio e a ajuda de Afonso Maia, um nortenho que fixou residência em França há mais de 40 anos. “Comecei a interessar-me por este tema porque decidi procurar o meu avô e perceber onde é que ele tinha estado”, disse.
Afonso Maia acabou por descobrir legados históricos e conheceu muitos descendentes de soldados, praças ou cabos portugueses. Conduziu o grupo a locais-chave, não só à zona das trincheiras onde os portugueses residiram mas também outros pontos, entre os quais, o bunker onde, alegadamente, em 1917 um jovem alemão desempenhava o papel de cabo mensageiro. Esse jovem esteve apenas uns meses na Flandres porque acabou por ser ferido e foi transportado para o seu País natal. Chamava-se Adolf Hitler.
Quase no fim da viagem o tempo foi passado em Boulogne-sur-Mer, Cap Blanc-Nez e Lille, locais indissociáveis do romance entre o capitão português Afonso Brandão e a baronesa francesa Agnès de Chevallier, descrito em ‘A Filha do Capitão’.
No jantar de despedida – que antecedeu um dia de viagens: Gosnay-Paris e Paris-Lisboa – o cansaço era visível em todos mas a satisfação também. Por razões distintas, pessoas singulares e casais, haviam decidido embarcar nesta aventura onde foi possível redescobrir a magia de Paris e conhecer o solo onde há muitos anos os portugueses lutaram pela Paz.
SOLDADOS PORTUGUESES E SOLDADOS INDIANOS LADO A LADO
CEMITÉRIO PORTUGUÊS DE RICHEBOURG
No Cemitério Militar Português de Richebourg (foto ao lado) repousam centenas de jovens que perderam a vida durante a I Guerra Mundial. Muitas lápides dizem apenas ‘Soldado Português Desconhecido’. Mesmo em frente ao cemitério a capela de Nossa Senhora de Fátima, acarinhada pela comunidade portuguesa local. Ao lado dos portugueses repousam num monumento de arquitectura oriental os soldados indianos que também perderam a vida.
SONHO DE UM COZINHEIRO PORTUGUÊS
César Cerqueira tem 24 anos e é o mais velho de cinco irmãos. Nasceu em França mas é filho de portugueses naturais de Ponte de Lima. Há 3 anos, após acabar o curso de cozinheiro, ingressou na equipa de cozinha da popular Brasserie Lipp, em Paris.“Somos 20 cozinheiros mas 5 são portugueses”, diz. O futuro deste jovem passa por tirar uma especialização em Pastelaria e depois concretizar um sonho que acalenta desde a adolescência: “Quero abrir uma Pastelaria Francesa em Portugal. Nasci cá mas sinto-me muito português.”
O CAFÉ MAIS ANTIGO DA EUROPA FRENQUENTADO POR VOLTAIRE, ROUSSEAU, DIDEROT
Situado no número 13 da Rue de L’Ancienne Comédie, Paris, o Procope é considerado o café mais antigo da Europa. Nasceu em 1686 pela mão de Francesco Procope Dei Coltelli, um siciliano radicado em França.
Na sua lista de fiéis clientes, ao longo dos séculos, conta com nomes grandes da cultura francesa, como, por exemplo, Voltaire, Rosseau e Diderot. Reza a lenda que as tertúlias e discussões entre Voltaire e Piron faziam as delícias das noites ‘procopianas’ no século XVIII. Aliás, foi sob os lustres de cristal do Le Procope que nasceu a Enciclopédia. Durante a Revolução, este espaço célebre acolheu outros famosos como Danton, Marat e Robespierre. Foi também nas mesas deste restaurante que Benjamim Franklin preparou o projecto de Aliança com Luís XVI e esboçou a Constituição Americana.
COMENTÁRIOS FINAIS E NOVO LIVRO
José Rodrigues dos Santos, autor de ‘A Filha do Capitão’ fez-se acompanhar da mulher, Florbela Santos, que comentou, com humor: “É a primeira vez que estamos em grupo, geralmente viajamos ou com as nossas duas filhas, ou só nós dois.” O jornalista e escritor esteve sempre disponível para responder às solicitações dos participantes e antecipou que não está prevista uma “segunda parte” deste romance mas que, em Outubro, lançará mais um livro. “Tem cerca de 600 páginas e eu diria que é um livro de mistério”, afirmou. Sobre a viagem, frisou o seu contentamento: “A verdade é que esta viagem permitiu-me perceber melhor o impacto do meu romance junto dos leitores, em especial daqueles que tiveram familiares a combater na Grande Guerra. Foi como se esses familiares tivessem regressado à vida, mesmo que durante apenas o instante da leitura do livro, mas um instante suficiente para os resgatar do esquecimento a que, por alguma razão misteriosa, os historiadores e escritores portugueses os tinham remetido.”
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