Mudança antes do colapso
Manuel Braga da Cruz apresenta propostas concretas de reformas no livro ‘O Sistema Político Português’.
Sazonalmente, alguém proclama a necessidade de reformar o sistema político português. Mas essas proclamações são rapidamente esquecidas. Pior: quando as vozes reformistas se fazem ouvir, os caminhos apontados são parciais, incompletos e insuficientes. Há quem queira reformar o sistema eleitoral sem mexer no sistema parlamentar; há quem queira mexer no sistema partidário sem acautelar o sistema eleitoral. As combinações são infinitas e mutuamente excludentes.
Pois bem: Manuel Braga da Cruz publicou o pequeno grande livro ‘O Sistema Político Português’. Não é só uma obra descritiva. Após diagnosticar os males, as propostas terapêuticas do autor merecem atenção e discussão.
Os problemas decorrem de duas causas: o sistema está geneticamente marcado pela transição da ditadura para a democracia, e alguns dos seus elementos conjunturais – como o sistema eleitoral de representação proporcional – ‘ossificaram-se’ em 40 anos, com problemas agravados pelo tempo. Que problemas? Os clássicos: afastamento entre eleitores e eleitos; partidarização parlamentar; ingovernabilidade recorrente; e até coexistência pouco pacífica entre Belém e S. Bento.
O autor apresenta uma proposta global que procura "antecipar o colapso". Entre as soluções, parece urgente a reforma do sistema eleitoral (combinando elementos proporcionais e uninominais); reforma do sistema partidário (pela abertura dos partidos à sociedade civil, libertando-os da excessiva dependência financeira do Estado); reforma do sistema parlamentar (revitalizando um bicameralismo historicamente sancionado); e reforma do sistema de governo (não seria de ponderar a eleição indirecta do Presidente da República por um colégio eleitoral composto por duas câmaras?).
O ensaio de Manuel Braga da Cruz é o melhor ponto de partida para qualquer debate sobre o sistema político que temos – e aquele que devíamos ter. Não é possível participar nesse debate sem passar por este livro.
Título: ‘O Sistema Político Português’
Autor: Manuel Braga da Cruz
Editora: Fundação Francisco Manuel dos Santos
LIVRO
A obra que traz livrarias para as estantes de casa
Nas viagens procuro livrarias locais. E depois compro, na língua nativa, um escritor do país. Daí as estantes em húngaro, hebraico ou árabe, idiomas que não leio – ainda. Esse "ainda" é parte do encanto e da esperança.Como ensina esta belíssima peregrinação, o que seria de nós sem o espaço físico e espiritual das livrarias?
Título: ‘Livrarias’
Autor: Jorge Carrión
Editora: Quetzal
DVD
Polícias e ladrões da melhor colheita
Sinal dos tempos: só um cineasta escocês seria capaz de relembrar aos americanos como se fazem filmes de polícias e ladrões. Servido por um argumento notável e por actores sem mácula (Jeff Bridges e Ben Foster à cabeça), ‘Custe o que Custar!’ é a melhor colheita dos Óscares de 2016. Sem surpresas, foi recebido com indiferença.
Título: ‘Custe o que Custar!’
Realizador: David Mackenzie
Elenco: Ben Foster, Chris Pine, Jeff Bridges e Gil Birmingham
CONCERTO
Adivinhem quem volta para tocar jazz?
Conheço pessoas que vão de propósito a Nova Iorque, ao Café Carlyle, para assistirem às exibições musicais de Woody Allen e sua banda. Não é preciso uma decisão tão drástica: o homem estará entre nós a 4 de Julho, no Coliseu dos Recreios. Até lá, e como aperitivo, aconselha-se o documentário ‘Wild Man Blues’.
Artistas: Woody Allen and his New Orleans Jazz Band
Local: Coliseu dos Recreios de Lisboa
Data: 4 de julho, às 21h30
FUGIR DE
O novo 'Piratas'
Entendo que filmes de sucesso convidem a multiplicações infinitas. "É a economia, estúpido!,", como dizia o outro. Mas há mais vida para lá da economia, como também alguém dizia. Os primeiros ‘Piratas das Caraíbas’ eram um exercício hilariante pela natureza absurda da história. Hoje, este ‘Homens Mortos não Contam Histórias’ é um pastelão sem sentido (e sem piada), servido por foguetório visual, e com actores estimáveis – Johnny Depp, Geoffrey Rush ou Javier Bardem – manifestamente a bocejar. Afundem-se estes ‘Piratas’, já!
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