“Negociámos com soldados do MPLA”
Numa emboscada, o inimigo fez vários mortos e levou um rádio que, depois, conseguimos trocar por brandy. Negociámos diamantes.
Fui incorporado em Abril de 1973. Fiz o curso de sargentos nas Caldas da Rainha e passei por Tavira, Tancos e Chaves, onde soube que iria para Angola. Fomos depois para Espinho fazer os treinos da praxe e escolher o pessoal para formar as secções e os pelotões.
Estava a dormir no quartel de Espinho, em Abril de 1974, a 15 dias de ir para Angola, quando alguém me sacudiu e me retirou o cobertor, dizendo para meter balas reais nas cartucheiras. Íamos alinhar num golpe de Estado. Olhei para o relógio e era uma hora da manhã. Era cabo miliciano e já tinha as divisas de Furriel mas só as podia usar em Angola. Estavam escolhidos os homens que fariam parte da minha secção de combate e treinávamos com fogo real.
Fomos ao centro de Espinho e assaltámos à coronhada a sede da Legião Portuguesa. Pela manhã, já com o sol a levantar, passámos de uma tropa macaca e desprezada a heróis, até as raparigas que até ali fugiam da tropa verde nos davam beijos e traziam flores e cerveja. Horas mais tarde, começaram os encontros entre os nossos superiores e alguns civis, quase sempre de barba grande.
A festa do 25 de Abril durou pouco tempo. Dias depois, já em Maio, ficámos quatro horas dentro de um avião civil que a tropa alugou, prontos para viajar para Angola. Só tive uma semana a seguir ao golpe de estado para me despedir da família e comprar uma mala e algumas roupas com o dinheiro que o exercito me deu, à volta de sete mil escudos. Lá fora, centenas de populares à volta do avião gritavam "nem mais um soldado para fora". Nem a polícia militar nem a polícia civil os conseguia tirar dali, mas lá acabámos por partir para Luanda.
Viagem para Leste
Quando o avião pousou em Angola e saímos, parecia que estava noutro mundo, aquele cheiro quente a terra vermelha, o calor que quase sufoca, aquelas mulheres feias na cara mas bonitas no corpo, fiquei logo apaixonado por aquele país.
Poucos dias estive em Luanda. Estava sempre fechado no quartel RI20, porque não nos deixavam sair. Meteram-nos nuns camiões e começámos a longa viagem até perto de Nova Lisboa, que foi concluída de comboio até Vila Teixeira de Sousa. A jornada só acabou em Caianda, que fica a 500 metros do Zaire, e Jimbe que faz fronteira com a Zâmbia para lá do Cazombo. Percebi logo que era uma zona de frente de combate, nós éramos uma companhia independente de caçadores (C. Caç. 5044/73), tínhamos quatro pelotões de combate e iríamos receber lá grupos especiais africanos e ajuda de um DGS (ex pide) que já estava na zona com alguns Flechas (ex-turras do MPLA). Caianda era uma aldeia formada por kimbos, bonita e às vezes com festas da Mukanda (circuncisão dos putos), batucadas durante dias com as negras de peitos à mostra a dançarem e a beberem cachipenda (bebida alcoólica feita de milho). No quinto dia, já uma emissora de nome Maria Turra sabia que tinham vindo tropas novas e aliciavam-nos a deixar as armas. Era proibido ouvir esta emissora, que sabia muito de nós, o que nos fazia crer que na aldeia estavam infiltrados elementos do MPLA.
Emboscada sangrenta
No sétimo dia, fomos acordados às quatro da manhã. O 2º pelotão, que tinha ido levar uns mantimentos ao destacamento no Jimbe - que dista à volta de 70 km - foi emboscado. Eu era o único da companhia com o curso de Minas e Armadilhas, tirado em Tancos, e tivemos que ir. Quando chegámos ao local da emboscada, depois de feito o envolvimento de segurança, começámos a procurar o pessoal. Alguns eram socorridos ali pelo único enfermeiro que tínhamos, mas este nada podia fazer perante os buracos das balas.
Era muito escuro, tivemos que ligar os faróis das carrinhas berliets e unimogs, e só através de alguns gemidos é que conseguíamos encontrar os soldados que estavam dispersos pela selva. Ficamos ali até amanhecer. A maior parte dos feridos não aguentou a chegada da DO (avioneta que só aterra até às seis da tarde e com autorização da secreta militar) e morreram. Entre os feridos havia um em especial, era tido como um herói, era flecha, já tinha sido do MPLA. Ainda tentei apanhar alguma veia no peito do pé, mas a perda de sangue foi muita e durante muito tempo ele, ainda consciente, e pediu a minha mão e apertou-a com força. Acabou por falecer. Chamava-se Tadeu.
Nessa emboscada, o inimigo queimou-nos a berliet, mas o mais grave foi ter levado um rádio Racal que os guerrilheiros podiam utilizar para ouvir os nossos canais. Então o capitão falou ao Pisoeiro (agente da PIDE), para ver se havia uma hipótese de um encontro secreto com o MPLA para a recuperação do rádio. O encontro foi marcado de manhã cedo. Caminhámos para a fronteira. A uma distância de cerca 100 metros dos marcos que marcavam a fronteira, enviámos alguns soldados flanquearem a zona. Eu, o capitão e mais dois alferes seguimos em progressão lenta pela picada, de arma em punho e dedo no gatilho. Parámos, alguém falou em francês do outro lado, o meu capitão Pinto respondeu em francês, fez-se silêncio. Começámos a ver soldados do MPLA vindo devagar na nossa direção. Baixaram as armas, nós também baixámos as nossas, avançámos ambos mais uns metros, então eles pousaram devagar as armas no chão, nós fizemos o mesmo. Aproximámo-nos mais até que parámos a uns dez metros e olhámo-nos durante uns longos minutos. O comandante deles vinha à frente e disse chamar-se Tigre, fizeram-nos continência e nós respondemos. Após as apresentações, disse que foi ele que fez a emboscada ao nosso pelotão e que estaria disposto a trocar o rádio por garrafas de brandy e grades de cerveja, mas que tinha trazido entretanto pedras preciosas para negociar. O capitão e nós aceitámos. Comprámos pedras grandes de malaquite, ágatas e alguns feijões (diamantes). Despedimo-nos com continência, recuando sem ambas as partes virarem costas, com um próximo encontro para marcar através do PIDE.
Caçada infeliz
Em Cainda, a avioneta de abastecimento conhecida por DO, já não vinha abastecer-nos há mais de 20 dias por motivos de segurança - era o que nos diziam os do Comando de Sector no Cazombo que ficava a 400 quilómetros. Umas vezes ouvíamos os motores do avião, mas davam duas ou três voltas e regressavam sem nos deixarem nada, nem correio, nem mantimentos, nem as garrafas de uisque, embora corrêssemos logo a fazer a segurança à pista.
A fome apertava, só tínhamos arroz e esparguete com pedaços de chouriça, além das rações de combate que nos enjoavam. Então naquela noite pedimos ao capitão para irmos à caça. Foi precisa muita insistência da nossa parte para o convencer, visto ele considerar essa missão um suicídio. Penetrámos numa chana de capim que entrava pelo Zaire dentro, uma zona boa de caça. Era uma hora da manhã, seguiam dois camiões Unimog, no primeiro ia eu, um alferes e alguns homens bem armados. O segundo Unimog, desviado de nós aí uns cem metros, estava cheio de homens também bem armados para nos proteger. Pesquisávamos o escuro da noite com um projetor muito potente, com as viaturas sempre em andamento e a varrer o capim com a luz, até que por volta das três da manhã avistamos uns olhos cintilantes. Era uma palanca, fixámos a luz, aproximámo-nos devagar e, com uma G3, abatemos o animal com vários tiros. Tínhamos penetrado no Zaire aí uns quinze quilómetros. Conseguíamos ver a auréola das luzes de alguma vila ou cidade zairense.
Ao regressarmos, perdemos de vista a viatura de apoio. Parámos o Unimog, tentámos comunicar com o rádio banana e eles não respondiam. O Sol já estava a nascer e viemos para trás com alguns soldados a baterem os flancos a pé, quando começámos a ouvir gritos. O camião estava de rodas para o ar com alguns homens debaixo dele, o condutor tinha adormecido e bateu contra um tronco de árvore. Pusémos talas improvisadas de bocados de árvore nos braços e pernas partidas, todos estavam conscientes embora cheios de dores, menos um soldado que não tinha um arranhão. Este soldado era da minha secção e era um bom rapaz. Estava deitado e de vez em quando, só revirava os olhos, alguém ainda pensou que ele estivesse no gozo e deu-se-lhe umas estaladas para acabar com a brincadeira, despejamos um cantil de água em cima da cara e cabeça e nada. Pedimos outra viatura para vir fazer-nos segurança e ajudar a virar o Unimog porque estávamos em território do Zaire.A DO só veio ao fim da tarde buscar os feridos e levou o corpo já morto daquele rapaz, que não tinha um arranhão e que morreu porque tínhamos fome. No relatório disseram à família que morreu em combate.
Certa noite fui acordado de madrugada para irmos buscar um cabo condutor branco que tinha feito anos e bebido demais. Andava aos tiros na aldeia, ouviam-se gritos dos aldeões e o cabo sempre aos tiros para todos os lados, não adiantava chamá-lo. Até que houve ordem do capitão para o neutralizar. Envolvemos a aldeia a rastejar, visto ele atirar para tudo que o que se mexesse. Foi então que um nativo da aldeia, chefe da milícia o tentou neutralizar com uma pistola Mauser, mas o condutor disparou sobre o coração dele matando-o. Aí apanhámos o condutor, sendo levado sob prisão para o Luso.
Entretanto, o agente da PIDE marcou encontro com o comandante Tigre, só que desta vez seria no nosso destacamento, até porque o 25 de Abril já estava a penetrar nas matas de Angola, e eles lá vieram. Ficaram as armas todas guardadas por nós, tinham RPG7, Simonov, Kalachnikov, e Daktariev. Almoçámos juntos, o rádio foi-nos restituído e oferecemos garrafas de brandy Constantino. Voltámos a negociar diamantes.
Caos em Luanda
Passados dois ou três meses, recebemos ordem para entregar os nossos destacamentos com dois canhões sem recuo e uma Berliet a estes soldados do MPLA, e viemos para um outro destacamento de nome Dala e Chimbila, perto do Luso, onde também comprei alguns diamantes. Depois viemos para Luanda onde começou a desenhar-se a guerra civil, com os recolheres obrigatórios.
Os movimentos armados teriam que criar bases politicas, e implementarem sedes com pelo menos 5 mil associados, se não me engano. É claro que isto não aconteceu - eles mantiveram as bases militares na periferia de Luanda, e nós íamos buscar elementos do MPLA ou da Unita aos seus quartéis para integrarmos uma força de patrulha mista. Andávamos nos camiões Unimog a patrulhar a cidade, e a resolver as "macas" zaragatas.
Tivemos que cercar o bairro de Cazenga, onde se infiltraram elementos que mataram um sargento da UNITA que fazia uma dessas patrulhas. Passados uns dias, houve ordem para se abrir fogo. Houve muitas mortes. Depois já era a Vila Alice que tínhamos que cercar para se capturar o Lúcio Lara do MPLA, por se ter desconfiado que tivesse sido ele que tivesse provocado a morte e ataque à tal patrulha mista das FI (Forças Integradas). O céu era constantemente riscado por balas e RPGs, até as ambulâncias eles atacavam. Chegaram a penetrar no hospital civil, onde os do MPLA matarem os da UNITA e vice-versa. É claro que nas reuniões que tínhamos antes de operações, os superiores davam-nos sempre a entender para ajudarmos o movimento que diziam ser o mais legítimo, que era o MPLA, penso que por ordem do Rosa Coutinho.
Acidente de mota
Entretanto penetrámos nos dealers de diamantes e vendi-os para comprar uma moto Honda CB. Só que o azar desta vez bateu-me à porta. Quando ia comer um gelado num quiosque em frente ao restaurante Barracuda, em frente ao Hotel Chinês, perto da base naval, um senhor chamado Corte Real abre a porta do seu Mercedes e parti a perna. Aacabou a guerra para mim, tendo que ser operado duas vezes para pôr e tirar as platinas. A perna partida na tíbia e perónio retardou a minha passagem à disponibilidade, que aconteceu em fevereiro de 1977.
Ainda hoje sinto as mazelas de muitas noites mal dormidas no mato com o dólmen ao relento e à chuva. Estas linhas são um testemunho real e é um condensado de algumas partes que eu considero mais marcantes de toda a minha vida, e ainda hoje carrego este fardo de imagens pesadas como se de chumbo se tratasse.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt