Os nossos fuzileiros na guerra de África
O primeiro destacamento partiu em 1961 para o Ultramar. Regressaram em 1974 com o orgulho do dever cumprido e muitas estórias paralelas que agora são desvendadas. Ficheiros secretos.
A Guerra de África foi impulsionada quando, a 4 de Fevereiro de 1961, uma revolta na cidade de Luanda, liderada pela União dos Povos de Angola (UPA), incluiu ataques à Casa de Reclusão, ao quartel da Polícia de Segurança Pública (PSP), e à Emissora Oficial de Angola. Foi o início da luta armada em Angola e o princípio de um conflito que se estendeu à Guiné e a Moçambique e que durou 13 longos anos. A História desta guerra foi escrita e contada várias vezes e sob perspectivas diferentes mas, até agora, não existia bibliografia que narrasse a visão dos fuzileiros neste cenário difícil. Ou pelo menos, de um fuzileiro.
Esta é a proposta do Capitão-de-Fragata Fuzileiro Luís Sanches Baena, que na passada sexta-feira, lançou – no âmbito do 45.º aniversário da primeira unidade de Fuzileiros (que originou a escola) e simultaneamente a partida do primeiro destacamento para o Ultramar – ‘Factos e Feitos na Guerra de África’ (edições Inapa), uma colecção dividida em quatro volumes e onde desfilam controversos documentos oficiais que estiveram selados até 2004.
Durante dois anos, Sanches Baena dedicou-se exclusivamente ao livro e, na recolha e análise de documentos, acabou por ser surpreendido: “Tive algumas surpresas porque para nós, jovens tenentes e segundos tenentes que estivemos naquele teatro de operações, a realidade limitava-se a umas milhas para jusante e outras para montante do rio ou aos palcos de acção pelo que, o que se passava nos bastidores era desconhecido”, confessa.
O teatro de operações dos Fuzileiros no Ultramar era, por excelência, a Guiné-Bissau: “Estamos a falar de um país sulcado de rios e os fuzileiros integram a Marinha que trabalha habitualmente com água”, explica Sanches Baena. No entanto, os nossos fuzileiros também desempenharam missões em Angola e em Moçambique, apesar dos fracos recursos orgânicos e logísticos. “Em Angola, por exemplo, os grandes transportes de pessoal a longas distâncias não podiam ser feitos de bote, tinham que se socorrer de outros meios de transporte, às vezes com o apoio do pessoal civil”, diz.
REVELAÇÃO
A maior revelação para este fuzileiro centra-se na antiga colónia da Guiné, cenário onde viveu nos anos quentes, entre 1972 e 1974 e prende-se com as tensas e complexas relações entre o Comando Chefe das Forças Armadas e o Governador Geral – António Spínola – e o Comando da Marinha. Recorde-se que Spínola assumiu a liderança na Guiné entre 1968 e 1973: “Na realidade, apesar de ter sido surpreendido, não posso afirmar que esta tensão me cause estranheza, uma vez que nós sentíamos estas complexidades e o comando chefe da Marinha foi difícil, ou seja, em certos períodos existiram conflitos graves”, acrescenta Sanches Baena.
O percurso dos fuzileiros no Ultramar poderia, possivelmente, ser definido com um ‘Antes de’ e um ‘Depois de’ Spínola. Mas não é, nem os fuzileiros gostam de manifestar – dez anos decorridos sobre a morte do brigadeiro – livremente a sua opinião. “Muitas vezes nos cenários longínquos como Angola e Moçambique havia dificuldades crescentes dos comandos da Marinha com os comandos dos fuzileiros. Penso que houve dificuldade em digerir tensões, mas na Guiné, onde eu estive, acho que estas questões foram rapidamente ultrapassadas”, recorda o Capitão-de-Fragata.
Sobre a sua experiência pessoal sentida no Ultramar, Sanches Baena, revive com ênfase o aparecimento, em Março de 1973, dos mísseis terra-ar ‘Strella’ que retiraram supremacia aérea às forças portuguesas. Enquanto se estudavam novas tácticas e se buscava um antídoto para o míssil, a Força Aérea ficou sem meios, o que dificultou a actividade operacional dos homens que em terra necessitavam de apoio: “Os mísseis abateram num curto espaço de tempo várias aeronaves nossas o que obrigou a repensar toda a estratégia e empenhamento do pessoal. Nós íamos para o mato e tínhamos o controlo e o domínio do ar e estávamos seguros mas, a partir daí, as coisas complicaram-se. Confrontamo--nos com uma dificuldade grande, que, tal como as outras, debatemos”. Só em Dezembro, volvidos 9 meses, se restabeleceu por completo a confiança nos meios aéreos uma vez que era conhecida a táctica para minimizar o efeito dos mísseis ‘Strella’.
No curso das várias tensões que durante anos subsistiram em Angola, e num dos embustes que ocorreram em Agosto de 1968 na curva do Rio Chifumage, o vice-almirante Roboredo e Silva, então Chefe do Estado Maior da Armada, envia uma mensagem para as forças especiais dos fuzileiros, onde se lê: “(...) Causou-me grande mágoa pois suponho ser a primeira vez que forças fuzileiras são emboscadas sofrendo baixas sem as causar ao inimigo. Ficam-me dúvidas sobre se o desembarque se efectuou durante o dia, o que será totalmente condenável e terá de ser proibido rigorosamente pois a vulnerabilidade do desembarque de botes só é praticável durante a noite...” Nas palavras do autor destes livros, “muitas vezes em Angola existiam dificuldades entre os comandos da Marinha e os comandos dos Fuzileiros.”
Estas complexidades não impediram, porém, os fuzileiros de seguir a sua missão. “Penso que todos os fuzileiros que estiveram no Ultramar sentem a satisfação do dever cumprido e nós éramos novos, tínhamos inclusivamente voluntários nas unidades com 17 ou 18 anos”, afirma Sanches Baena.
A propósito de Angola, nos seus documentos, o fuzileiro também recorda episódios pouco conhecidos sobre o transporte de lanchas e desembarque em largos quilómetros de picadas até aos rios do Leste de Angola, que, durante a maior parte do ano não tinham água.
A propósito do número de óbitos dos fuzileiros, Sanches Baena realça o código de honra destes oficiais: “Vivos ou mortos trouxêmo-los todos, nós não deixávamos camaradas para trás, embora, quando algum de nós sucumbia às correntes fortes dos rios, o trabalho fosse difícil porque só conseguimos recuperar os corpos que dois ou três dias depois vieram à tona, muitas vezes presos nas margens”. Apesar do orgulho do dever cumprido, no regresso a Portugal, Sanches Baena sentiu a segurança que lhe escapara durante dois anos da sua juventude: “Todos tínhamos medo, quem não tinha, era louco mas sabíamos controlar os receios e ir para a frente”, confessa. E prossegue: “É evidente que quando atravessávamos um campo que sabíamos que estava minado e que o nosso próximo passo podia ser o último, havia receio, mas não deixávamos de o atravessar por causa disso”.
TREZE ANOS
Ao compilar treze anos de Guerra, Sanches Baena confessa que “foi complicado decidir o que publicar porque a selecção teve que ser rigorosa. Ao mesmo tempo respeitei o facto de algumas pessoas estarem vivas, é preciso muito cuidado com os nomes de quem se fala” e explica assim o porquê da inclusão de certos documentos em vez de outros.
O perfil deste homem enquadra-se no de tantos outros: foi para a Marinha porque agarrou um desafio e ali cumpriu o serviço militar obrigatório. Rapidamente ingressou nos Fuzileiros, força de combate que considerava ser das melhores e mais apelativas. Chegou à Guiné por vontade própria, em 1972 e sente que ainda pode ser útil à Marinha Portuguesa e ao seu País.
Alheio à polémica e às vozes de discórdia que estes livros – que no fundo simbolizam a voz dos últimos fuzileiros no Ultramar – vão certamente levantar, Sanches Baena mostra-se confiante. E não deixa de ser peremptório: “Tudo o que diga respeito ao Ultramar vai sempre causar polémica; foi um assunto que tocou intimamente e de perto milhares de homens e não existem duas pessoas que vejam as coisas da mesma maneira. Esta é a visão de um fuzileiro e a maneira como os fuzileiros sentiram a guerra. Há aqui opiniões, como é evidente e sei que nem toda a gente concordará...”
VIDAS PERDIDAS NO ULTRAMAR
MORTOS EM CAMPANHA
Luís Sanches Baena fez um apanhado dos fuzileiros que perderam a vida em África entre 1962 e 1975, em Angola, na Guiné, Moçambique e também em Cabo Verde. Mais de metade morreu em combate mas outros factos como acidentes ou doença contribuíram para que a Marinha Portuguesa contabilizasse 154 mortos entre os seus fuzileiros, operacionais e voluntários. Quase todos foram enterrados em Portugal. “Só conheço um caso de um oficial que, não sei porquê, está sepultado na Guiné”, diz Sanches Baena. Outros não chegaram a ser enterrados porque não foi possível resgatar os seus corpos perdidos nas correntes fortes que agitavam os rios.
LISTAGENS EXAUSTIVAS: COMPANHIAS
Luís Sanches Baena procurou aproximar o mais possível da realidade as listagens dos fuzileiros que, durante 13 anos, partiram para o Ultramar uma vez que estes, ao serem substituídos tinham o seu nome riscado da folha original. “Penso que consegui chegar às listagens reais, mesmo com as substituições e os nomes escritos a lápis ou por cima”, diz. Entre estes nomes encontram-se pessoas que hoje ocupam lugares cimeiros na sociedade. “Muitos rapazes que foram para a Guerra, tinham os seus cursos e as suas vidas e no regresso, retomaram-nas, até porque dezenas de voluntários integravam as nossas unidades”. Um dos nomes que aparece é o de Medeiros Ferreira. Entre risos, o fuzileiro explica: “Por acaso é irmão do deputado do PS”.
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