Uma carta dentro do baralho de Hollywood
O vilão Joker volta a ganhar peso no filme ‘Esquadrão Suicida’. Ator Jared Leto herdou legado de Jack Nicholson e Heath Ledger
De pele branca e tatuada, marcada ainda por sete cicatrizes num corpo depilado, cabelo verde curto fluorescente e dentes com uma armadura de prata, o ator Jared Leto quase não parece o mesmo. Habituado a embrenhar-se nas personagens que interpreta – venceu o Óscar de Ator Secundário ao dar vida a um travesti em ‘O Clube de Dallas’ (2013) –, o também vocalista da banda 30 Seconds to Mars levou muito a sério o desafio de modernizar a figura de Joker, no novo filme ‘Esquadrão Suicida’.
O vilão rouba todas as cenas em que aparece e ajudou a tornar esta grande produção, em exibição nas salas, já num dos êxitos globais deste verão. As más-línguas dizem mesmo que é o melhor que esta adaptação de uma BD da DC Comics tem para dar.
Com um ar ciberpunk e postura alucinada, Jared Leto revigorou o arqui-inimigo de Batman. Na rodagem deste novo filme da Warner, embrenhou-se de tal forma na personagem que evitou cruzar-se com o restante elenco sem estar já transformado na segunda pele. Pregou sustos aos colegas de ‘Esquadrão Suicida’ e terá mesmo ‘oferecido’ uma ratazana a Margot Robbie, que no filme é a sua ex-psiquiatra demente.
Para construir o vilão, o ator de 44 anos teve direito a um departamento de maquilhagem exclusivo e demorava no mínimo sempre três horas, em cada dia de rodagem, às ordens do caracterizador italiano Alessandro Bertolazi. A influência já assumida? O ‘camaleónico’ David Bowie. Não tanto na componente musical, mas enquanto ícone de moda, capaz de combinar classe e ousadia.
Jared Leto diz que se preparou para o papel também a ver cenas de violência de todo o tipo. Os críticos de ‘Esquadrão Suicida’ dizem que as opções do realizador David Ayer, que tem sido apupado por vários fãs da saga original, comprometeram o trabalho de Leto, relegado para um papel muito secundário na trama sobre figuras nada recomendáveis, que trabalham para o governo americano em troca de um perdão.
O próprio ator não terá gostado de ver o seu papel suprimido na mesa de montagem e já disse estar disponível para fazer um novo filme centrado em si. Mas foi mais longe. Ao portal IGN, Jared Leto referiu: "Se eu morrer, as cenas [eliminadas] vão provavelmente aparecer por aí." Uma alusão a Heath Ledger, que foi Joker há oito anos e que morreu pouco depois de rodar ‘O Cavaleiro das Trevas’, que lhe deu, a título póstumo, o Óscar de Ator Secundário.
As raízes do mal
Enquanto personagem de ficção, Joker tem já 76 anos. O também conhecido como ‘Palhaço’ ou ‘Ás de Valetes’ tornou-se famoso pelo sorriso vincado no rosto, o tom excessivo e pérfido, assim como por não possuir superpoderes, além de uma habilidade para misturar ácidos e demais substâncias tóxicas.
Apareceu pela primeira vez na revista de banda desenhada Batman, que foi lançada em abril de 1940 pela DC Comics, e era suposto morrer na primeira aventura. Não foi assim e ganhou peso dramático em muitas outras façanhas do homem-morcego.
Cruzou-se nos comics com outros vilões como Pinguim ou Duas Caras, além de entrar no ‘Esquadrão Suicida’. Chegou a causar dores de cabeça a super-heróis como Super-Homem. Pelo meio, nos anos de 1990, surgiu a relação amorosa com a psiquiatra Harley Quinn, que é explorada na obra agora em exibição.
O cinema tem sido, aliás, o campo que mais amplificou a fama perversa de Joker, figura que terá sido inspirada na personagem Gwynplaine, do romance ‘O Homem que Ri’ (1869), do francês Victor Hugo. Também já aqui um renegado que se torna atração de espetáculos bizarros, depois de abraçar o crime.
Em 1966, o nova-iorquino Cesar Romero deu primeiro corpo a Joker, criando a risada frenética logo no filme ‘Batman – O Invencível’ e replicando, a seguir, a personagem em vários dos 120 episódios da série ‘Batman’, da ABC, com um perfil mais ligeiro e para toda a família.
Já em 1989 coube a Tim Burton criar uma visão gótica do homem-morcego e convocou, nada mais, nada menos, do que Jack Nicholson. O ator recuperou alguns trejeitos já explorados no terror de ‘Shining’ e, com próteses de silicone para o sarcástico sorriso, apostou num tom espalhafatoso, que foi um êxito.
Se já parecia difícil ir mais longe, Heath Ledger assombrou tudo e todos, em 2008, em ‘O Cavaleiro das Trevas’, de Christopher Nolan. Até porque, além do papel assustador, a vida real deu um tom mais trágico a este Joker: o australiano, que sofria de depressão, morreu de overdose, aos 28 anos, poucas semanas após acabar a rodagem.
O seu Joker foi agora escolhido pela revista ‘Variety’ como o melhor de sempre. Por ser maníaco, torturador e terrorista ao mesmo tempo. E por imortalizar a frase: "Porque estás tão sério?" O próprio Jared Leto já disse que o papel de Ledger é imbatível.
Joker parece estar para durar, sem concorrência à altura. Até porque, como refere a personagem no filme ‘O Cavaleiro das Trevas’, é tudo uma questão de perspetiva: "Sabem, a loucura é como a gravidade. Só é preciso um pequeno empurrão."lD
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