Roger Waters recuperou ‘Pigs’ e outros êxitos em concertos contra o presidente. Não é caso único. Outros músicos seguem-lhe o exemplo.
Roger Waters fez da crítica a Donald Trump um espetáculo logo em setembro de 2016, quando a América do Tio Sam ainda estava em campanha para eleger o novo presidente. No concerto na Cidade do México, o ex- -Pink Floyd pôde contar com o público a quem Trump prometia apartheid. Na capital mexicana soltou um porco insuflável sobre a multidão, onde se lia no lombo do animal as palavras "ignorante, mentiroso, racista e sexista". Depois, em outubro, no concerto do Desert Trip, um festival que costuma juntar velhas glórias do rock - lá estiveram também em 2016 Paul McCartney ou Bob Dylan, por exemplo -, a atuação de Waters reservou a ‘Pigs (Three Different Ones)’, do álbum ‘Animals’ (1977), uma canção que critica os poderosos, uma apoteose que durou 11 minutos.
Mas foi a 22 de maio que divulgou imagens na internet do ensaio público na Meadowlands Arena, em New Jersey, e o resto do Mundo pôde finalmente ficar a saber do que trata os 55 concertos da ‘US+Them Tour’ , que termina em outubro em Vancouver. O enorme espetáculo multimédia ridiculariza o inquilino da Casa Branca, através até das palavras do próprio Trump: "This is more work than in my previous life. I thought it would be easier" (Isto é mais trabalho do que alguma vez sonhei. Pensava que seria mais fácil) ou "You know, it really doesn’t matter what the media write as long as you’ve got a young and beautiful piece of ass" (Não interessa realmente o que os media possam dizer, desde que se tenha um jovem e belo pedaço de rabo) são frases dele projetadas em palco. E, depois, intermitentemente "Fuck Trump", que dispensa tradução.
Se em Old Coachella, como é também conhecido o Desert Trip, Roger Waters pôde contar com um público que geralmente tem idade para ter ido ao Woodstock, e por isso nem precisa de muito para vibrar com um cheiro à contestação dos anos 60; se a icónica canção ‘Another brick in the wall’ (Outro tijolo no muro) passou a ter novo significado na cruzada contra o presidente republicano, que se propõe a construir um muro na fronteira com o México; no novo trabalho discográfico do músico basta a singela pergunta que dá título ao álbum, ‘Is This The Life We Really Want?’ (Esta é a vida que realmente queremos?), para dar o tom à contestação.
O ‘Nasty Man’ de Joan Baez
Em palco no Woodstock de 1969 esteve Joan Baez, que visitou o Vietname durante a guerra e esteve presa 11 dias por se manifestar contra o conflito. No último mês de abril utilizou a internet para publicar o vídeo da canção ‘Nasty Man’ (Homem malvado). Há 25 anos que Baez não compunha. Assim começa ‘Nasty Man’: "That’s my little song/about a man gone wrong./He’s nasty from his head to his feet" (Eis uma pequena canção/ sobre um homem que deu errado/ Ele é mau da cabeça aos pés). Baez explicou à ‘Rolling Stone’ que não sendo uma boa canção, faria certamente as pessoas rir.
Já em janeiro o Mundo tinha visto Trump e Melania dançarem no baile da tomada de posse ao som de ‘My Way’ - contra a vontade da filha de Frank, Nancy Sinatra. Nesse mês, Fiona Apple e os Gorillaz editaram a pensar no novo presidente, depois foi a vez de Carole King, Lily Allen e Billy Bragg, este último uma versão de um clássico de Dylan que se passou a chamar ‘The times they’re a-changing back’ (Os tempos estão a voltar para trás). Bruce Springsteen fez em abril um dueto com Joe Grushecky em ‘That’s what makes us great’ (É isto o que nos faz grandes outra vez, uma referência ao slogan de campanha de Trump "Make America great again" - Façamos a América grande outra vez). "Don’t you brag to me that you never read a book / I never put my faith in a conman and his crooks" (Não seja gabarolas, pois nunca leu sequer um livro / Nunca confiei num vigarista, nem nos comparsas), cantaram Springsteen e Grushecky.
Por essa altura, Eminem aproveita a participação especial no álbum de Big Sean para bisar na crítica - já tinha feito um rap de oito minutos em novembro, mês em que os Arcade Fire adivinhavam os tempos de incerteza que vinham a caminho em ‘I Give You Power’.
Fiona Apple saiu com ‘Tiny Hands’ (Mãos pequenas), que começa com um sample da voz de Trump extraído do vídeo do programa ‘Acess Hollywood’, aquele da tirada do presidente sobre as mulheres: "Grab them by the pussy" (Agarra-se pela....).
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