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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

A Coca-Cola caiu na ilha do Corvo

A insularidade inspirou a marca a gravar na ilha, com os seus habitantes, o principal anúncio da campanha alusiva à Copa.

10 de junho de 2014 às 16:33

A paixão pelo futebol na ilha mais pequena dos Açores

Fátima Alves é a senhora que vem de sorriso nos lábios com o bolo da Seleção nas mãos no anúncio que a Coca-Cola gravou na ilha do Corvo, Açores, para a campanha do Mundial de Futebol.

Naquele ponto mais longe do continente mas mais perto do Brasil - ideia que deu mote à campanha -, Fátima atende o telefone às gargalhadas. Tem todo o tempo do Mundo para conversar sobre os "dias em que a animação reinou" graças aos forasteiros que ali se lembraram de fazer um anúncio. Aos 62 anos, Fátima estava longe de estrear-se nos meandros da publicidade, e logo no papel de atriz.

Erik Lasschen é o diretor-geral da Grande Union, empresa de publicidade que idealizou o anúncio. Casado com uma açoriana da Terceira, o holandês era o único na equipa de 24 pessoas que já tinha estado no Corvo. "Nem o Pauleta", regozija-se. Mas nem tudo foram risos. Pôr a equipa e mais de uma tonelada de material apenas com o Dornier de sete lugares que viaja três vezes por semana para a ilha esteve longe de ser fácil. "Ainda por cima estava mau tempo. Quando já estávamos a ver a pista, o piloto avisou logo: ‘só faço uma tentativa de aterragem! Se não der volto para traz'".

A produção nem por isso encareceu: "Gastou-se em viagens, mas poupou-se em coisas que pudemos improvisar", afirma Erik. Já José Silva, presidente da Câmara do Corvo, dá o exemplo: "Se era preciso uma tábua, alguém cortava a tábua. Não temos grandes superfícies, portanto estamos habituados a desenrascar." O presidente, por seu turno, emprestou o pai, Tibério, o ‘timoneiro' do gado.

A rodagem demorou uma semana, tempo em que a produção teve de acomodar-se entre a residencial (que só tem sete quartos) e as casas particulares que lhes ofereceram abrigo.

Tânia Pipa estava a jogar futsal quando cativou a atenção da Grand Union. Bióloga ao serviço da Sociedade Portuguesa das Aves no Corvo, mas natural de Moura, no Alentejo, está ali desde 2011. "Ao início estranha-se, mas depois entranha-se. Aqui nunca me aborreço", diz. E assim acabou por divertir-se a fazer o anúncio: "Por acaso até nos pagaram, mas se fosse preciso também o tinha feito de graça."

Luís Pimentel, 23 anos, é técnico da Segurança Social mas também "o rapaz da cara pintada" do anúncio. Nunca pensou que, um dia, a televisão viesse ter com ele à ilha. No Corvo, "pode faltar o chá e o café, mas há sempre Coca-Cola". Agora, a lata vermelha é ainda mais familiar, sobretudo depois de Pauleta ter andado a distribuir porta a porta uma lata personalizada com o nome a cada um dos habitantes da ilha. Os que participaram no anúncio receberam ainda cachet, entre os 20 e os 300 euros. Luís quer saber ainda quando sai esta reportagem. Depressa se percebe que vai ser complicado, pois só no pico do verão chegam voos (e jornais) à ilha todos os dias. Mas irá ler pela internet, a janela de e para qualquer lugar do Mundo.

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