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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

A ‘GUERRA’ ALGARVIA

Loiras, nórdicas, jovens, com propostas indecentes na ponta da língua, à procura de namorado temporário na noite do Algarve. Do outro lado da barricada estão os ‘portugas’ dispostos à ofensiva. O Domingo Magazine foi descobrir os novos caminhos do engate a Sul do País

10 de agosto de 2003 às 18:00

Passam poucos minutos da meia- -noite. Da cabina apertada e iluminada do ‘disc-jockey’ do bar da Katedral, na praia da Rocha, avista-se toda a pista de dança. Holandeses, ingleses, suecos e alguns portugueses mexem o corpo em mais uma noite quente de Verão. As luzes psicadélicas e dos ‘strobes’ dão a sensação de estarem a dançar em movimentos robóticos. A ilusão desvanece-se quando o DJ, Marco Rocha, de 27 anos, mexe na mesa de misturas de luz e altera o efeito visual na sala ampla, decorada com bolas de cristal e espelhos a toda a volta. Uma rapariga de cabelos loiros e tez excessivamente queimada aproxima--se do rapaz dos discos e pede-lhe uma música ao ouvido. Ele não ouve bem e ela aproxima-se mais, gritando-lhe: “I wanna ear house music!” (Eu quero ouvir música ‘house’!). O DJ sorri e passados poucos minutos faz-lhe a vontade. As batidas electrónicas ecoam no ar denso de fumo e as dezenas de ‘teenagers’ gritam, eufóricos. “Já tive algumas propostas indecentes, principalmente de inglesas”, confessa Marco que, no alto da sua cabina de som, é um dos alvos preferidos de turistas estrangeiras, que vêm sazonalmente para o Algarve divertirem-se. “As ‘camones’ são muito atiradiças. Houve uma noite em que uma me segredou ao ouvido que fazia os melhores ‘felatios’ de Liverpool”, recorda o DJ, que resistiu à proposta indecente. “No ano passado, tivemos de expulsar uma outra inglesa, que completamente embriagada, desapertou a breguilha a um português, no meio da pista de dança, fazendo-lhe sexo oral”, conta. No meio de um grupo mais entusiasta de dançarinos, Wilmy, de 21 anos, e Geesje, um ano mais nova, agitam-se freneticamente, de braços no ar e um sorriso estampado na cara. As duas holandesas estão há três semanas a passar férias em Portimão. “Não gosto por aí além dos rapazes portugueses. São baixotes e muito convencidos”, declara Wilmy que apesar de não ser o protótipo de beleza nórdica, considera-se uma verdadeira predadora. “Além disso, eles beijam muito mal. Dão dentadas. Pensam que são muito homens mas acho-os simplesmente ridículos”, desabafa, com a concordância da amiga. “Foi por isso que pedi ao meu namorado, que estava em Amsterdão, para vir ter connosco ao Algarve”, corrobora a loira Geesje. “Agora, sim estamos a divertir-nos à grande!”

CANTIGA DO BANDIDO

Os índices de popularidade dos ‘machos latinos’ parecem um pouco mais elevados no ‘Voxx’, um dos bares mais recentes do Sul do País. Não tem a movida da ‘Katedral’ mas as mesas estão cheias de jovens nórdicas, que bebem o seu primeiro gin tónico da noite. Logo à entrada, deparamos com um trio ‘sui generis’. Uma sueca e uma finlandesa de ar imberbe mas com mais de 1,80m de altura, conversam com o último dos engatatões algarvios: Zezé Camarinha, ‘him self’. Aos 50 anos, o homem que se gaba de ter ido para a cama com mais de mil ‘bifas’, ainda demonstra ter as garras afiadas. Hoje, diz-se “empresário de turismo e imobiliário”, mas nos tempos livres dá “um saltinho” até aos bares dos amigos, onde tenta manter-se em forma. “Com a minha idade é mais difícil conquistá-las. Mas ainda faço umas brincadeiras que fazem inveja aos mais novos”, confessa. Sanna e Magdalenna, de 22 anos, acompanham os gestos confiantes de Zezé, que veste uma camisola vermelha berrante, embora não percebam a nossa conversa, em português. “Conheci-as ontem, aqui na Rocha, mas elas estão desgostosas porque dos machos que tanto lhes falam lá no país delas, ainda não viram nada”, confidencia. As nórdicas corroboram: “Assumimos sem complexos que viemos para Portugal à procura de rapazes portugueses. Mas até agora não tivemos sorte”. Sanna, a mais faladora, gosta que lhe “assobiem na rua”, algo que os seus compatriotas não tem coragem de o fazer. “São uns atados. Olham para nós e não avançam”. Zezé ri-se e esfrega as mãos. “We are machos, very machos!” (Nós somos machos. Muito machos), regozija-se. Para Magdalenna, o grande ‘handicap’ dos portugueses é serem “pequenos”, mas isso é algo que não a incomoda. E acrescenta. “O único ponto em comum entre portugueses e suecos é que todos eles querem ir para a cama logo no primeiro encontro.”

Um rapaz de bíceps salientes circula entre as mesas com o cartão de consumo nas mãos. A sua alcunha é a de ‘Panda’, tem 24 anos, e todos nos afiançam que se trata do “sucessor do Camarinha”. ‘Panda’ abana a cabeça e ri-se do que dizem de si, mas prefere não comentar, esquivando-se até a um grupo de três portuguesas. “Só ontem, fugiu com duas estrangeiras não se sabe bem para onde”, segreda José João, de 35 anos, o gerente do Voxx.

BABILÓNIA DO AMOR

Verdade ou mito, o certo é que mal entrámos na discoteca ‘Babilone’, duas horas mais tarde, ‘Panda’ lá andava a rondar a pista de dança pejada de estrangeiras. Ao balcão, um grupo de portugueses de olhos semi-serrados, sorriso maroto ao canto da boca, encostados à sua imperial, seguem atentamente o filme de menores de 17, onde as personagens são provenientes de todos os cantos da Europa. Vários pares de namorados beijam-se intensamente no meio da pista, e três ou quatro rapazes loiros tentam convencer as suas ‘amigas’ das suas virtudes. “Ele anda-se a fazer a mim há dois dias”, murmura Elaine Berry, uma escocesa de 17 anos, que prefere dançar o ‘techno’ comercial do que ouvir o que Evert Westerhuis, de 23 anos, tem para lhe dizer. Parece enfadada. Mas mal chegam as duas amigas com alguns copos de vodka laranja na mão, muda radicalmente de expressão. Bobbie Coady e Ide O’Connell, ambas irlandesas de 17 anos, vêm aceleradas e só querem “passar um bom momento”. E o que é isso? “É dançar até cair e talvez arranjar namorado”, respondem. “No dia seguinte, logo se vê.” Sobre os portugueses, só Bobbie tem uma história para contar: “Ele era muito simpático, mas não sabia falar inglês. Atrapalhou-se tanto que acabámos por desistir da conversa”. Cada um foi para seu lado, para pena da irlandesa que até o achava “engraçado”. Durante o resto da noite, apesar dos esforços insistentes de alguns “pintas” latinos de camisa aberta, os portugueses ficaram de um lado e as nórdicas do outro. “Fica para outra noite!”, desabafa alguém.

A alguns quilómetros da praia da Rocha, no ‘Libertos’, em Albufeira, a noite também não parece estar a correr bem para dois jovens portugueses, que já algo alcoolizados, tentam meter conversa com três estrangeiras. Elas parecem assustadas com a abordagem abrupta. O mais alto, de cabelo encaracolado, envereda pela linguagem gestual, para contornar o seu sotaque macarrónico, mas apenas consegue fazer entender que já está com alguns decilitros de álcool no estômago. Elas encolhem os ombros e olham para todos os lados, à procura de alguém que as salve da situação constrangedora. Então, algo desesperado com a falta de sucesso com o sexo oposto, o mais calado, começa a soletrar em voz alta, sem qualquer sentido: “Ca-ra-cóis! Ca-ra-cóis!”. Em poucos segundos, as raparigas fugiram em direcções diferentes e os pseudo-engatatões dirigiram-se, cabisbaixos, para o bar, talvez para afogar as mágoas.

Razão parece ter Tony, um ‘pintas’ algarvio “retirado das lides”, que desabafou ao fim da noite: “No meu tempo, havia charme durante a sedução. Trocavam-se olhares. Murmuravam-se palavras em meia voz. Pagava-se um copo. Não se tentava ter relações sexuais logo na primeira noite. Hoje vive-se numa sociedade de consumo rápido. E também de consumo sexual”.

No Verão, os melhores bares e discotecas para se conhecerem novas paixões estão sediados no Algarve. No Kiss, em Albufeira, e no Babilone, na Praia da Rocha, locais onde predominam as suecas, inglesas e irlandesas, os portugueses ainda conseguem treinar a sua retórica de macho latino. A Locomia, na praia de Santa Eulália, e o Liberto’s, em Albufeira, também são duas das casas nocturnas preferidas de turistas portugueses livres de compromissos. Num ‘segmento’ mais elitista, a Casa do Castelo, na Galé, e o Spicy, na Quinta do Lago, são dois sítios ideais para ‘betos’ arranjarem uma cara-metade. Em Lagos, o Horta 2 continua a ser uma via sacra para jovens disponíveis que procuram um amor de Verão. Em Lisboa, o Lux está menos lotado e com mais estrangeiros em busca de emoções fortes. No Porto, aconselhamos aos solteiros uma saltada ao Estado Novo e ao Novo Chic.

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