"Sempre estivemos muito unidas mas hoje estamos mais unidas do que nunca. No fundo, só nos temos umas às outras". A frase de Fátima Roque, sobre a sua relação com as filhas, Teresa e Cristina, numa entrevista concedida pouco depois da morte do ex-marido – em Maio de 2010 –, nunca pareceu tão contraditória. Mãe e filhas estão em pé de guerra por causa da herança do banqueiro Horácio Roque.
Fátima sempre reclamou metade da herança, que ficou indivisa quando se divorciou do fundador do Banif. As filhas discordam: "Tendo por base o acordo de partilhas comummente aceite já em 1999 entre a minha mãe e o meu pai, que à data de falecimento do comendador Horácio Roque, só existem duas suas herdeiras universais, as suas duas únicas filhas (eu e a minha irmã)", esclareceu à Domingo Teresa Roque.
Perante esta tomada de posição, a mãe vai avançar para tribunal cível e criminalmente, representada pelo advogado Rogério Alves, como confirmou o próprio, sem tecer mais comentários. Já as filhas dizem-se "tranquilas sobre quaisquer decisões que venham a ser tomadas em sede de tribunal e pelas quais todos teremos de aguardar".
Conta uma fonte próxima do processo que "assim que o ex-marido morreu, Fátima fez logo saber que tinha direito a metade do património – e aos frutos dele – que era de ambos quando se divorciaram. Disse-o às filhas. E notificaram as sociedades detentoras das participações sociais". Acontece que este património é difícil de dividir, uma vez que são activos financeiros.
ACORDOS FALHARAM
"Como Fátima tinha direito a metade do património, às duas filhas cabia a outra metade. Isso causou transtornos nas relações familiares", acrescenta. "Fátima ficou mais próxima da filha mais nova, Cristina, que por sua vez ficou encarregue de combinar um acordo de partilhas com a irmã, que não falava com a mãe – os feitios delas chocam muito." Assim terá acontecido.
Cristina terá servido de intermediária, já que defendia a necessidade de um acordo. Em vez de ficar a mãe com metade da fortuna, iriam dividir em três partes iguais. Este seria o "acordo global" a que chegaram, com a ajuda de um amigo da família – e que fora também amigo de Horácio Roque. O acordo foi assinado, em Setembro último. As três reconheciam que Fátima Roque tinha direito à meação, mas que esta aceitava que os bens fossem repartidos, pelas três, em partes iguais. Era um acordo em termos gerais – ficaram por determinar os termos desta operação.
Entre avanços e recuos, o acordo nunca chegou a ter um texto final. "A Teresa acabou por conseguir que a Cristina ficasse do seu lado. O que mudou a geografia do conflito." Se os bens eram difíceis de dividir, perante o impasse, só havia duas hipóteses, avança a mesma fonte: "O grupo era vendido para dividir o dinheiro pelas três – e tentaram vender ao Banco do Brasil e ao Bradesco; ou as filhas compravam a parte da mãe, ou vice-versa."
Fátima Roque nunca tinha equacionado a compra, já que não possui fortuna a não ser a que reclama. Só que esse dia chegou. Pediu financiamento a um banco suíço. E, perante a avaliação da parte financeira do grupo – de 247,5 milhões de euros – ofereceu, em Fevereiro deste ano, 82,5 milhões a cada filha para assumir ela o Banif. Com esta proposta, Fátima prescindia da parte não financeira da herança.
A proposta agradou a Teresa e Cristina numa primeira instância. Depois, pediram que a mãe pagasse também os suprimentos (empréstimos obtidos pela empresa junto dos accionistas) feitos no passado. E quando a negociação estava prestes a ser concluída, as irmãs anunciaram os nomes para a nova administração, liderada por Jorge Tomé.
Teresa, 41 anos, nasceu em Angola; Cristina, 33, na África do Sul. As duas filhas de Horácio Roque viveram com a mãe em Joanesburgo, de 1973 até 1985, numa altura em que o empresário passava a maior parte do tempo em ponte aérea entre Luanda e a cidade sul-africana. Vieram depois para Lisboa.
"Estudaram nas melhores escolas; as duas fizeram o St. Julian’s [School] em Carcavelos. A mais velha [Teresa] foi para Oxford, Itália, Washington. A mais nova fez Antropologia Social em Lisboa e depois uma pós-graduação na London School of Economics. Enfim, dei-lhes todas as armas", disse o patriarca em 2007 numa entrevista ao ‘Jornal de Negócios’. No seguimento da conversa, considerou um dos seus "falhanços" como pai o facto de não ter ensinado as filhas a gerir o dinheiro e a dar-lhe valor. "Não lhes controlo as contas. Mas não são perdulárias. Não gosto de pessoas perdulárias."
Dia 22 de Março, ainda Fátima acreditava na compra da participação das filhas no Banif quando foi surpreendida pelo anúncio dos novos órgãos sociais do banco. Um dia depois, à margem da assembleia geral na Madeira, Teresa afasta a mãe de qualquer pretensão à frente dos destinos do Banif. O Banco de Portugal está preocupado com a disputa e Fátima Roque até já se encontrou, em vão, com Luís Amado, presidente do conselho de administração do Banif.
Contactados os advogados de Fátima Roque e das filhas Teresa e Cristina, estes não se pronunciaram sobre o caso.
O PAI PREZAVA A FAMÍLIA
Horácio Roque, tal como a ex-mulher e a filha mais velha, apareciam com frequência nas revistas sociais. No 58º aniversário de Fátima, em 2009, Teresa – considerada uma das mulheres mais elegantes do País pela ‘Caras’ – foi fotografada abraçada à mãe. "Temos juntas um percurso pela paz e democracia que cimenta uma amizade e cumplicidade muito grandes", disse Fátima Roque. "Além de mãe e filha somos grandes amigas", acrescentou Teresa.
Era conhecida a proximidade do banqueiro à família. "Brinco com eles e já me fazem correr um bocadinho na praia. Tomamos o pequeno-almoço, almoçamos e jantamos juntos", referiu em 2008 sobre a sua relação com Bianca e Lorenzo, filhos de Teresa com Pietro dal Fabro, italiano e CEO dos hotéis Dom Pedro.
Hoje, aos 61 anos, Fátima vive no Estoril – muito perto da casa da filha Cristina, que viaja frequentemente para o Sudão em missões das Nações Unidas. Segundo fonte próxima, a economista que em Angola se tornou uma figura de destaque da UNITA deixou de dar aulas no ensino superior. "Não tem vivido para mais nada a não ser para isto."
Entrevista à herdeira Teresa Roque, filha de Horácio Roque e Fátima Roque:
"NADA FERE OS LAÇOS FAMILIARES"
- Assinou um acordo conjunto com a sua irmã e a vossa mãe, em Setembro último, onde se estipulava que a herança do seu pai seria repartida em três partes diferentes. O que falhou para o caso ir agora para tribunal?
– Todos os acordos assinados entre mim e os restantes membros da minha família visam apenas a confirmação de tudo o que foi acordado e aceite por todas as partes em 1999, aquando do ato de divórcio entre o meu pai, Comendador Horácio Roque, e a minha mãe, Professora Doutora Fátima Roque. Sobre esse assunto, gostaria de esclarecê-lo de que o divórcio teve por base um mútuo consentimento, tendo sido celebrados acordos de partilha de bens em resultado dos quais o Comendador Horácio Roque ficou, então, accionista único da Rentipar. Até ao dia do seu falecimento, o meu pai foi o único legítimo proprietário das acções de controlo do grupo Banif, tal como, aliás, foi sempre reconhecido pelas diversas entidades de supervisão. Perante este esclarecimento, gostaria de lhe assegurar, tendo por base o acordo de partilhas comummente aceite já em 1999 entre a minha mãe e o meu pai, que à data de falecimento do Comendador Horácio Roque, só existem duas suas herdeiras universais, as suas duas únicas filhas (eu e a minha irmã). O envolvimento, neste momento, de instâncias judiciais neste assunto prende-se com o facto de a minha mãe, após a morte do meu pai, ter questionado todo o processo, sendo que em 2007 foi confirmado que nada mais havia a partilhar pelo Comendador Horácio Roque, o que em momento algum até agora foi questionado pela Professora Doutora Fátima Roque.
– Como é possível que vocês mantenham laços familiares as três e não se entendam na partilha dos bens?
– Como lhe refiro na resposta anterior, houve um acordo claro entre a minha mãe e o meu pai aquando do ato de divórcio, em 1999, devidamente acompanhado pelos mais prestigiados advogados e devidamente documentado e em nada este entendimento fere os laços familiares entre mim, a minha irmã e a minha mãe, pelo que os assuntos são perfeitamente distintos.
- Como vão resolver o diferendo?
– Neste momento todos os trâmites do acordo entre o Comendador Horácio Roque e a Professora Doutora Fátima Roque estão devidamente documentados. Tanto eu como a minha irmã estamos perfeitamente conscientes da objectividade desses documentos. Estamos, por isso, tranquilas sobre quaisquer decisões que venham a ser tomadas em sede de tribunal e pelas quais todos teremos de aguardar. Lamentamos, sinceramente, que quaisquer diferendos venham sendo trazidos a conta gotas para a comunicação social como forma de pressão, que só não tem consequências porque, sinceramente, não tem por onde ter.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.