Mia Rose ‘nasceu' em 2006 nas redes sociais. Agora vai ser estrela de uma nova série juvenil. O que aconteceu nestes sete anos?
As estrelas não têm sítio nem hora para nascer, tão-pouco avisam da chegada. Maria Antónia Rosa veio ao mundo num janeiro londrino, há 25 anos, mas foi no YouTube, a 29 de dezembro de 2006, que Mia Rose se tornou um fenómeno nas redes sociais. O motivo? A voz, uma guitarra e um certo ar de ‘girl next door' (a rapariga da porta ao lado) que conquistou em dois dias 30 mil subscrições.
Em três anos os seus vídeos - gravados em casa - tiveram mais de 100 milhões de espectadores e o seu canal foi subscrito por mais de 230 mil pessoas, um número comparável a artistas como Beyoncé ou Black Eyed Peas. Foi há sete anos que a estrela Mia começou a brilhar na internet. Agora, vai fazê-lo na televisão, como protagonista da nova série juvenil da TVI, ‘I Love it', no papel de ‘Beatriz', com quem não partilha "os pés assentes na terra", mas sim "uma paixão enorme pela música". Vamos por partes. Que caminho fez Mia - ou Maria Antónia, como lhe chamam os pais e amigos - até aqui? Filha de pai inglês e mãe portuguesa viveu em Wimbledon, Inglaterra, até aos nove anos. "Chorei muito quando vim para Portugal. Londres era a minha referência: era lá que estavam os meus amigos, as minhas bases. Viemos porque o meu pai queria passar mais tempo connosco, ele trabalhava imenso, era um homem de negócios, era o próximo Steve Jobs. Mas ele estava tantas horas fora de casa que eu tinha de acordar às seis da manhã para lhe dizer adeus, era a única altura em que o via", recorda sobre essa época. Aí, já Mia - que com 12 anos leu a biografia da Rainha Vitória - reunia a família nos jantares de Natal para cantar e admirava Audrey Hepburn, que ainda hoje ‘tem no pedestal'. "Nessa altura eu queria mais ser atriz do que cantora mas apesar de representar nas festas da escola, onde eu sobressaía mesmo era a cantar".
Já em Portugal, numa escola inglesa - criou várias bandas. Uma delas com Ana Free, outro fenómeno do YouTube, a Audacity. "Fazíamos vários concertos, escrevíamos juntas as músicas, era uma forma de nos libertarmos e ver como éramos artisticamente". Terminado o Secundário, Mia - que aprendeu na internet a tocar guitarra - volta a Londres, desta vez para estudar Jornalismo e Literatura Inglesa, sem nunca largar a música de vista.
"Dava concertos na universidade e em vários bares em Londres até que fui convidada para cantar para um grande compositor de jazz e fazer com ele uma tournée pela Europa". Foi o primeiro de muitos convites que se seguiriam - e o único que surgiu antes do fenómeno YouTube lhe bater à porta. Nesse ano, durante as férias de Natal em Portugal, decide, incentivada por dois amigos, pôr as músicas na rede social que a tornaria conhecida além-fronteiras. "O sucesso foi uma coisa que não esperava, não foi nada pensado, não fazia ideia que passado poucos dias ia ter tantas pessoas a seguir-me." Entre essas pessoas contavam-se dois gigantes da música. "Duas semanas depois fui contactada por duas editoras: a Atlantic Warner e a Universal Music, que me convidaram para ir aos Estados Unidos para ver se queriam assinar mesmo contrato comigo." Reuniu-se com ambas no dia em que fazia 19 anos e escolheu a Universal.
"Foi uma altura muito especial da minha vida porque trabalhei com o Tommy Mottola [que foi diretor da Sony durante muitos anos e marido de Mariah Carey] e essa experiência fez-me crescer enquanto artista e compositora. Cheguei a gravar sete temas mas houve uma crise económica muito grande (já em 2008), que afetou os dinossauros da música e disseram-me que o álbum ia demorar mais tempo", recorda a cantora. Mia não quis esperar. "Não queria mesmo gastar tempo porque eu gosto de aproveitar todos os momentos da minha vida e o tempo para mim é o meu obstáculo. É tudo ‘carpe diem' e não queria ficar lá à espera e deixar os meus fãs à espera também. Pensei: Vou continuar o meu percurso sozinha, sem animosidades, tanto que ainda hoje falo com eles".
Regressou a Portugal e à família. "Quis focar-me no aspeto ‘do it yourself'." As expressões inglesas são uma constante no vocabulário de Mia Rose. O inglês ainda é a sua primeira língua, embora o português que aprendeu na infância com a avó não deixe desconfiar do sítio onde nasceu.
ÁLBUM PARA 2014
Em Portugal, trabalhou com Alexandre Manaia, "um grande produtor português que já trabalhou com o Rui Veloso", recolheu inspirações várias ("amigos, amores") e fez o primeiro álbum. "Acabou por não sair - embora esteja disponível no YouTube - porque foquei-me em ter produto, singles que as pessoas possam cantar comigo em concerto". Espera em 2014 pôr nos escaparates "um álbum meu, para as pessoas comprarem". Se já está surpreendido com tanta agitação, poupe os cartuchos. "Depois de ter rescindido com a Universal ligaram-me da editora da Lady Gaga - também depois de verem os vídeos no YouTube - a dizer que estavam interessados em mim".
Mia pôs mais uma vez a mala às costas e seguiu viagem para os EUA, onde a esperavam várias reuniões. "Estava quase a dizer ‘vamos lá', à espera do vestido para levar aos Grammys quando eles me disseram: ‘agora o que tens de fazer é não ter vida própria, não vais poder ver os teus pais durante sei lá quanto tempo, vamos mudar o teu cabelo, vais fazer o tipo de música que quisermos'. Queriam transformar-me na nova Rihanna e eu não quis. Agradeci por acreditarem em mim mas disse que sentia que era mais importante fazê-lo à minha maneira. Ia de certeza receber mais dinheiro do que recebo hoje, sem dúvida, mas isso não é o mais importante. Não me esqueço de um ditado que me disseram: ‘quando uma pessoa sabe que vai morrer nunca pensa: epá, eu podia ter feito mais dinheiro. Pensa antes nas viagens que deixou por fazer, nos momentos que não aproveitou, nas palavras que não disse'. Os meus pais um dia não vão estar cá e e prefiro passar mais tempo com eles do que propriamente ter mais dinheiro no banco."
As experiências seguintes não saíram penalizadas pelo ‘não' à editora de Gaga. "A Rainha [Rania] da Jordânia enviou-me um convite real para ir até à Jordânia para me conhecer. Ela ‘descobriu-me' através dos filhos, que eram meus fãs no YouTube. A reunião com ela foi um bocado intimidante - até aprendi a fazer a vénia e tudo - não por causa dela, simples e simpática, mas porque eram muitas câmaras. Eu falei da minha mãe, ela falou dos filhos e depois perguntou-me se estava interessada num projeto que ela tinha no YouTube para acabar com os estereótipos das mulheres do Médio Oriente". Mia aceitou e acabou a dividir o palco com um cantor local, uma atuação que passou na BBC. Também partilhou o palco com os Ace of Base em 2008, numa altura em que a banda se reuniu em Estocolmo numa cerimónia de prémios. Lá fora conheceu Scarlett Johansson e ficou "contente por ela ser mais baixa", brinca.
Pouco depois, outro convite. "A Tv Globo precisava de uma portuguesa para entrar numa série e lá fui eu morar para o Brasil; no início deste ano foi a Redbull que me convidou para entrar num piloto de uma minissérie de oito episódios, em que fazia de uma cantora inglesa já com vários álbuns editados. Quando acabei de filmar, nos Estados Unidos, vim para Portugal para retomar a minha carreira musical." Entretanto já tinha participado num programa da RTP, a ‘Voz de Portugal' (2010) como mentora de novos cantores. "Ao chegar recebo um telefonema da minha agente (a nacional, porque Mia tem outra internacional) a dizer que a TVI queria que eu fosse protagonista de uma nova série e eu disse que sim, ‘bora lá. Tem sido uma aventura." Na realidade, desde 2006 que tem sido.
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