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É um imitador crónico mas fora do palco tem voz própria. a sua carreira na TV está a começar, e logo à boleia de ‘os Contemporâneos’.
Quem é que te podia imitar?
A mim? Pois, a minha voz nunca ninguém fez. Já perguntei ao imitador António Machado se ele me conseguia imitar e ele disse-me que ainda não tinha reparado em nada. Mas talvez os meus amigos consigam imitar um ou outro tique. Por exemplo, a Maria João Cruz, das Produções Fictícias, reparou que eu tenho o hábito de pôr as mãos nos bolsos com o polegar de fora e de me balançar quando estou à espera de alguma coisa.
Isso era uma boa imitação?
Sim, mas desde que ela me disse eu deixei de fazer. Acho que é uma defesa e é muito frequente as personalidades começarem a conter os seus tiques depois de serem publicamente imitadas. O Paulo Bento deixou de dizer ‘tranquilidade’ quando o Ricardo Araújo Pereira o imitou.
Tens de estar sempre a actualizar...
É obrigatório, porque as pessoas que imitamos não são figuras estanques, vão mudando, e temos de estar atentos.
Tens 20 anos e já percebes e pertences ao humor nacional.
Tenho muita vontade de viver e ao mesmo tempo sinto que só está a começar.
Escreveste no teu blogue que te sentias como ‘um puto na Disneyland’
Escrevi isso quando fui a‘Os Contemporâneos pela primeira vez. É a mesma coisa que tu, desde pequena, veres o Pateta e o Pato Donald na televisão e de repente seres transportada para a história, veres o Donald e poderes tocar-lhe, e ele falar contigo e tu fazeres parte da história dele.
Quem era o teu ‘Donald’?
Talvez o Eduardo Madeira. Porque o Bruno Nogueira tem de ser o Pateta, por causa da altura [risos]. Via-os desde sempre. E quando era pequeno via sobretudo o Herman José. Quando o conheci tive a mesma sensação de puto na Disneyland.
Sentes-te um puto?
Sinto-me quase um embrião ao pé de gente que tem 10, 15 anos de experiência, quando eu tenho um ano apenas. E gosto de saber que eles reconhecem em mim um puto com algum valor. Mas já não me sinto tão puto ao pé de pessoas da minha idade porque já estou a viver experiências que eles ainda nem sonham fazer.
E para a parte da exposição pública, estavas preparado?
Preparei-me depressa, porque uma semana depois de ter feito o primeiro vídeo fui reconhecido. Tinha estado no Bairro Alto e estava a voltar para casa de autocarro com um amigo, às cinco da manhã, mais mortos do que vivos, e vejo um puto a aproximar-se. Achei que ele me ia perguntar se eu tinha horas mas ele vira-se e diz: ‘Eh pá, aquela cena que tu fizeste...’
Pedem-te para imitares alguém?
Cada pessoa ou cada grupo tem a sua imitação preferida. As pessoas têm desejos muito específicos. A coisa mais caricata que me aconteceu foi no Festival do Sudoeste. Vem um miúdo, que devia ter 15 anos, e diz-me: ‘Puto, imita-me a mim’. E eu tinha acabado de o conhecer, tinha ouvido três palavras da boca dele, se tanto.
Qual foi a primeira voz que imitaste?
O Diácono Remédios, do ‘Herman Enciclopédia’. Tinha sete, oito anos.
Não começaste por imitar a família?
Por acaso, às vezes penso nisso: como é que eu nunca os imitei? Procurei sempre alguém do mundo exterior.
Imitavas o Herman para os amigos?
Para a família e para os amigos. No 5º ano fui apresentador da festa de Natal da escola. Era uma peça sobre o Menino Jesus, os anjos e eu interrompia aquele universo bíblico vestido de Diácono Remédios a dizer que não havia necessidade.
Eras a estrela dos recreios?
Era bom a contar historias cómicas, era quem fazia rir as pessoas. Não era claramente o que jogava bem à bola, tinha uns quilos a mais. Acho que era uma forma de me defender. Se não era bom noutras coisas, tentava conquistar as pessoas com aquilo com que me sentia à vontade.
Continuaste a imitar?
Depois disso a imitação andou um bocado adormecida e só mais tarde, por volta dos 16, é que voltei a fazer imitações e a perceber que conseguia fazê-las com mais realismo do que quando era miúdo. Percebi que as pessoas não só achavam piada como ficavam impressionadas.
Estiveste parado na mudança de voz.
Acho que ainda não passei pela mudança de voz porque às vezes estou a falar e saem-me uns falsetes. Os meus amigos costumam dizer-me: para uma pessoa que faz tantas vozes diferentes, tu tens muito pouco controlo sobre a tua própria voz.
Nunca te enganaste?
Quando estava a treinar a voz do Cristiano Ronaldo, há mais de um ano e tal, estava mesmo empenhado, até porque tinham sido as Produções Fictícias que me tinham pedido. Então, passei uma semana a ver vídeos do Cristiano no YouTube, tinha cinco ou seis janelas de internet abertas, estava inclusive no ‘Planeta Ronaldo’ com todas as entrevistas a decorrer ao mesmo tempo e a certa altura a minha mãe perguntou-me o que é que eu queria para o jantar e eu respondi-lhe à Cristiano. Sem fazer de propósito.
O Cristiano Ronaldo que se chateou com um spot em que o imitavas...
Parece que ele não gostou muito. Mas apesar de fazer estas coisas todas respeito imenso a figura que ele é. Ainda no outro dia vi um golo que ele marcou ao Arsenal e fiquei de boca aberta. Não é embirração.
E feedback positivo?
Do Bruno Nogueira, que imediatamente disse que era assustador porque a voz era igual. O Eduardo Madeira só depois do pai dele ter dito que estava igual é que ele admitiu. O Rui Unas ainda está em negação [risos]. O Eduardo já disse ao Unas que mais tarde ou mais cedo vai ter de admitir, tal como ele acabou por fazer.
A tua vida mudou muito mas ainda vives com os teus pais.
Tenho ambição de num prazo de dois anos ter a minha independência, mas é importante não sair cedo demais para não ter de voltar. Prefiro sair quando puder viver o resto da minha vida por mim próprio.
Aprendeste essa responsabilidade no Colégio dos Salesianos?
Era uma escola talvez um pouco mais conservadora, mas se na altura podia não compreender certas exigências agora, que sou mais velho, percebo e sou grato. Acho que se sou bem-sucedido também o devo a eles e à bagagem que me deram. Em termos de responsabilidade, de tudo.
E de amizade?
Fiz lá alguns dos meus maiores amigos de sempre e foi lá que comecei a imitar. Mesmo alguns professores. Ainda em Janeiro houve um almoço de antigos alunos e eu tive oportunidade de fazer stand-up e foi giro voltar àquele sítio. Como o filho pródigo voltar a casa e mostrar que se está a dar bem no mundo exterior.
Não é estranho que um menino de um colégio ‘bem’ seja humorista?
É um colégio que não reflecte, o estrato social de onde eu venho, porque os meus pais fizeram sacrifícios para eu poder andar lá, apostaram na minha educação. E sinto que não os decepcionei, sempre fui bom aluno, entrei na faculdade que queria. Nessa escola convivia com muita gente que vinha de famílias muito mais abastadas.
Os teus pais, como vêem a tua arte?
Sempre me encorajaram. No fundo, sempre acharam que eu devia ter uma profissão com a qual pudesse falar em público. Durante anos achei que ia ser apresentador de telejornais.
Imitas em jantares de família?
Sou bastante requisitado e não me importo nada. O Alberto João Jardim e o Sócrates são os preferidos deles.
Quanto recebes actualmente para fazer publicidade?
Prefiro não falar de valores, mas posso dizer que tenho muita sorte.
Qual foi a campanha mais bem paga?
Na proporção valor/trabalho foi um spot de rádio em que tive de ler uma frase de 10 segundos com a voz do Cristiano Ronaldo. Recebi quase tanto por isso como pela peça do São Luiz, em que estive durante 5 noites a fazer um espectáculo de 1 hora.
Sentes que tens poder?
Muito, sobretudo quando as pessoas que imito estão presentes, porque consigo manipular um pouco as coisas fazendo com que o grupo fique sem saber se fui eu ou foi a própria pessoa que falou. E já me tentaram convencer a fazer uma chamada para a Madeira a dizer que me demitia, com a voz do Alberto João Jardim [risos].
'QUANDO A VOZ SAI PRIMEIRO FICA MELHOR'
Como é o processo de imitação?
É pôr muitos ingredientes juntos, tal como compor uma faixa de áudio. Tens várias faixas: a voz, a base instrumental, os instrumentos; quando sai tudo junto tem de sair música.
A voz surge antes da atitude?
Geralmente, quando a voz sai primeiro é quando fica melhor. E em stand-up, como só tenho a minha voz e o físico, a imitação tem de ficar mesmo parecida. Mas no Miguel Veloso, por exemplo, a minha voz não fica igual à dele, mas, falando na terceira pessoa, com ar triste e expressão monocórdica, funciona.
Além de imitador, és actor.
Descobri um certo potencial para a representação que não sabia se tinha e que agora vou desenvolvendo. Neste limbo entre a imitação e a representação quero ser uma alternativa ao que já existe, trazer coisas novas.
'O SÓCRATES ESTÁ HÁ QUATRO ANOS A TENTAR FAZER UM BOM SÓCRATES'
São '35, quase 40', as vozes que Luís consegue imitar. Um lote que inclui personalidades que vão da política ao futebol e passa pelos desenhos animados, como a Marge Simpson. O imitador crónico não hesita naquela que foi a mais difícil. 'O Sócrates nem imagina o trabalho que me deu. Mas não é de estranhar, porque o próprio Sócrates está há 4 anos a tentar fazer um bom Sócrates', brinca. Rui Costa foi mais fácil, mas quando começou a imitar o director desportivo surpreendeu as pessoas. 'Diziam-me que ele não tinha nada por onde pegar mas tem imenso: maneira específica de dizer a letra ‘l’, a voz rouca, as hesitações... Costumo dizer que não o imito, faço-lhe uma homenagem.' Ronaldo foi o ‘treino’ mais intensivo. 'Quatro dias sempre a vê-lo na internet.' Quanto a Alberto João, Luís começou a imitá-lo 'antes de ser profissional, foi quase instantâneo'. Fácil também, explica, foi a voz de Obama, embora com o acréscimo de dificuldade de 'manter a pronúncia correcta'. A que exige maior esforço vocal é a de Cavaco Silva, 'é preciso beber água a seguir.'
“CONTINUO A JANTAR NO MCDONALD’S”
Ganhas melhor do que a maioria dos jovens de 20 anos. Como geres o orçamento?
Acho que muito bem. Os meus amigos até me dizem: ‘Porque é que não gastas mais ou cometes mais excessos?’ Não sou forreta e se calhar gasto mais do que gastava antes, ou compro coisas que não compraria tão facilmente, pequenos luxos, como a Playstation3 que me iria levar mais tempo a juntar dinheiro. Mas continuo a ir imenso ao McDonald’s e continua a ser o meu restaurante preferido.
PERFIL
Aos 20 anos, Luís Franco-Bastos começa a tornar-se um nome incontornável no humor nacional. Venceu o ‘Cómicos de Garagem’, teve nos ‘Incorrigíveis’ o seu 1.º projecto profissional, seguiu para o ‘À Lei da Bola’, começou a participar n‘Os ‘Contemporâneos’ e chegou ao palco do São Luiz com ‘Papel Químico’, uma peça a solo que vai voltar a 20, 21, 22, 27, 28 e 29 de Julho.
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