A história de Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis faz mais sentido quando se acredita em amor e destino com a mesma intensidade. Senão, que dizer das palavras que Natália Correia dirigiu ao histórico líder do PSD, quando um dia lhe tentava descrever Ebba Merete Seindanfaden (conhecida por Snu Abecassis), fundadora da D. Quixote e editora de ambos os políticos – “É uma princesa nórdica num esquife de gelo às espera que venha o príncipe encantado dar-lhe o beijo de fogo”.
“E esse príncipe é você. Porque ela é a mulher da sua vida”, terá rematado (segundo relatos de Maria João Avillez no livro Sá Carneiro: Solidão e Poder), quando viu o olhar perplexo do seu interlocutor. Visão profética ou estranha coincidência, a verdade é que a poetisa acertou em cheio.
Depois de um almoço “simpático” num restaurante de Alfama (marcado pela secretária do líder social-democrata), o casal não mais deixou de se ver. E depressa as conversas sobre literatura ou política (acompanhadas por um chá, ao fim da tarde, nas instalações da D. Quixote) deram lugar a outras, que se adivinham apenas nas palavras dos que garantem que o homem convicto e político inabalável foi capaz de proferir em nome de um grande amor.
CONTRA TODOS
Sá Carneiro e Snu Abecassis eram ambos casados quando se conheceram. Ele com Isabel Maria – a única namorada que se lhe conhece a caminho da idade adulta; a mulher que nunca acedeu dar-lhe o divórcio e que acreditou, até ao último dia, que o homem da sua vida havia de voltar para “casa”.
Snu casara com Vasco Abecassis, antigo colega de escola e faculdade, um homem que esteve sempre próximo, mesmo depois da separação. No seio do PSD, Snu foi também, e sempre, personna non grata.
E se alguns comentários desagradáveis lhe foram poupados, tal deve-se apenas ao facto Sá Carneiro ter deixado bem claro junto dos sociaisdemocratas que se o obrigassem a decidir entre o partido da sua eleição e Snu, obviamente, e segundo palavras suas: “escolherei a mulhere que amo”.
Porque o PPD/PSD tinha sido capaz de o desviar de uma carreira regular como advogado e de o afastar definitivamente da casa e da família nuclear (sobretudo da mulher) mas não podia nada diante dos olhos doces de Snu.Ela, a mulher distante, travou sempre uma guerra surda – onde aparentemente era a única vencedora – contra as manifestações múltiplas de censura àquele caso que escandalizava o país.
Conta-se que não raras vezes as paredes da D. Quixote apareceram pintadas com expressões menos “agradáveis” sobre a sua vida privada, e que essa afronta a fez apenas adquirir um novo hábito: guardar um balde de tinta na cave e quando era preciso restitui ir ela própria o branco às paredes da editora.
As histórias sobre as manifestações públicas de desconforto e de crítica à relação de ambos multiplicaram-se e varreram os vários quadrantes políticos da época. Não é, aliás, por acaso que o único político da AD a ir ao seu funeral foi Freitas do Amaral. Flores, essas vieram de outras mãos. Como uma linda coroa enviada por Manuela Eanes, na altura primeira-dama.
A mesma que, segundo reza a história (e uma reportagem sobre Snu Abecassis, publicada na Focus) ter-se-á recusado a comparecer à recepção oficial, em Lisboa, de Jimmy Carter, em 1980, caso o primeiro-ministro fosse acompanhado pela mulher com quem vivia.
A todas estas intrigas e folclores de costumes Snu e Sá Carneiro foram resistindo, como se caminhassem acima desse solo que os outros conspurcavam. Uma serenidade que só as grandes cumplicidades permitem, como se de repente a linguagem do amor fosse um imenso silêncio.
No dia 4 de Dezembro de 1980 esse silêncio foi interrompido pelo barulho ensurdecedor de um avião a cair. Sá Carneiro, primeiro-ministro de Portugal e chefe do VI Governo Constitucional da República estava a bordo desse avião. Com ele, e como sempre, viajava Snu Abecassis. A vida juntou-os. A morte não foi capaz de os separar.
Escreva-nos a contar uma história de amor, a sua ou a de alguém que conhece. Vamos publicar as mais belas narrativas numa rubrica feita por si e para si. Mande-nos a histórias para correio da manhã, Magazine de Domingo – Av. joão crisóstomo nº 72, 30, 1069-043 Lisboa
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