Fazer exames mesmo quando não há queixas pode fazer a diferença entre vida e morte. O diagnóstico precoce continua a ser a melhor forma de prevenir o que mais tarde pode não ser remediável.
Diabetes, hipertensão, cancro da próstata, da mama, intestino, colo do útero, osteoporose, asma, miopia... A lista de potenciais inimigos da saúde prossegue ameaçadora. O perigo espreita por entre um espirro ou uma simples dor no peito que, de inofensivos, se transformam em autênticos pesadelos.
Mas a batalha pela vida começa antes dos primeiros sintomas. Afinal, mais vale prevenir do que remediar. Torna-se pois obrigatório cumprir os conselhos médicos, deixar de lado o medo das picadelas de agulha, dos raio X, ecografias e afins e marcar no calendário o ‘check-up’ de rotina que permite avaliar a saúde. Desde a cabeça até aos pés.
Por dia morrem, em Portugal, 54 pessoas vítimas de um acidente vascular cerebral (AVC). Ao todo, por ano, são cerca de vinte mil. A estes, juntam-se outros números negros: 250 mil doentes com insuficiência cardíaca, quatro milhões de hipertensos, 500 mil diabéticos. Dados que tornam alguns exames obrigatórios.“Medir a tensão arterial, níveis de colesterol e glicémia, é a forma de se detectarem os principais factores de risco para as doenças cardiovasculares que são, muitas vezes, relativamente silenciosas”, explica Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia. Um silêncio que pode ser fatal.
Para um indivíduo aparentemente saudável, sem queixas, o especialista aconselha a medição, uma vez por ano, do colesterol, tensão arterial e açúcares no sangue, assim como a auscultação cardíaca. A vigilância aperta para quem sofre com problemas de diabetes, hipertensão ou colesterol elevado. “O número de vezes que deve realizar estes exames é acordado entre o doente e o médico”, refere o cardiologista. Isto porque não há dois casos iguais.
Mas há outros exames a juntar a esta lista. “O electrocardiograma deve ser feito de cinco em cinco anos para quem não tem problemas ou anualmente se houver alterações.” Para os que têm mais de 35 anos e pretendem começar a praticar desporto há ainda a prova de esforço, “um exame que vai medir qual a capacidade de esforço do indivíduo. E quanto maior ela for, maior a saúde. É ainda uma forma de despistar o risco de hipertensão e de avaliar o coração”.
Mais complexos são exames como o ecocardiograma, necessário quando há suspeita de problemas no músculo que comanda a vida e o electrocardiograma de Holter, “um aparelho portátil, que permite registar durante 24 horas o ritmo cardíaco e é usado quando se tem palpitações e arritmias”. Mas estes são apenas pedidos quando há suspeitas.
Apenas 23 por cento dos adultos portugueses apresentam dentes saudáveis, sem tártaro, gengivite ou sensibilidade dentária. São dados do estudo realizado na edição de 2004 do Mês da Saúde Oral, uma iniciativa da Colgate e da Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária (SPEMD), que disponibiliza ‘check-ups’ gratuitos à população. Números que espelham uma realidade que os especialistas conhecem há muito: o panorama das bocas nacionais não é dos melhores. “Os portugueses não fazem da ida ao dentista uma rotina”, afirma Américo Afonso, presidente da SPEMD. Porquê? “Uma das razões tem a ver com a dificuldade na acessibilidade aos cuidados de saúde oral. Os doentes têm que pagar para conseguir consultas, já que estes cuidados estão inseridos na medicina privada”, avança o médico.
Mas o dinheiro, ou falta dele, não explica tudo. Há ainda o terror. É que, durante anos, nada inspirou mais medo do que uma ida ao dentista. “Ele continua a existir e a inibir muitas pessoas”, concorda Américo Afonso. Um medo que se torna infundado quando a visita à cadeira temida adquire o estatuto de regularidade. “A consulta permite, por um lado, garantir que as medidas de higiene são as mais eficazes e, por outro, detectar os problemas precocemente. Recomendamos que um adulto saudável deve ir uma vez por ano a uma consulta de estomatologia.” Mas há excepções a esta regra. “Há fases de maior susceptibilidade. Por exemplo, os jovens ou aqueles que consomem mais açúcares devem ir duas vezes por ano.”
Nunca é cedo demais para começar a dar atenção aos dentes. “A prevenção deve começar quase dentro da barriga da mãe, com aconselhamento”, afirma Américo Afonso. “O aparecimento dos primeiros dentes é razão para começar a ir ao médico com regularidade. Não só para incutir os cuidados de prevenção eficazes, mas também para desmistificar a ideia negativa por detrás de uma ida ao dentista.”
O início da actividade sexual marca para a mulher, o começo de uma relação com o ginecologista. Um ano depois da iniciação, é aconselhável marcar uma consulta. “E o primeiro grande exame a fazer é a citologia ao colo do útero”, explica Daniel Pereira da Silva, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. “Antes disso, o médico considera importante a visita ao especialista apenas quando é feita a decisão de iniciar a vida sexual. “É mais uma consulta com o objectivo de esclarecer a jovem.”
Ao longo da vida reprodutiva, se não existirem motivos de queixa, a mulher deve fazer a citologia para despistar o cancro do colo do útero de três em três anos, até aos 65. Quanto à mamografia, determinante para o rastreio do carcinoma da mama, deve ser feita a partir dos 45 anos, de dois em dois anos. “Deve antecipar-se esta data quando existem factores de risco, como um caso de cancro da mama na família. A primeira mamografia deve ser feita dez anos antes da idade em que foi diagnosticado o caso à familiar”, refere o médico. As indicações mudam quando o relógio biológico começa a dar sinal. Antes de chamar a cegonha, a mulher deve fazer o ‘check-up’ pré-natal. “Verificar qual o seu grupo de sangue e o do companheiro, se há tendência para a diabetes, despistar doenças como hepatite, VIH, rubéola, toxoplasmose, cífilis.” A estes, juntam-se exames normais, como medir a tensão arterial, os níveis de colesterol...
Com a chegada da menopausa, aumenta o risco de doenças cardiovasculares, o que obriga a uma maior vigilância. E começa ainda a ser necessário um exame à massa óssea, a densitometria, para despistar a osteoporose.
Há quem diga que os olhos são o espelho da alma. Um espelho que pode reflectir vários problemas de saúde. ”Quando uma pessoa começa a ver mal, é uma óptima oportunidade para ir a um especialista e fazer a despistagem de várias doenças”, afirma o oftalmologista João Lisboa. Mas nem todas as batas brancas são sinónimo de conhecimento médico. “Os únicos habilitados a ver os problemas dos olhos são os oftalmologistas.”, refere.
Nunca é cedo demais para começar a procurar potenciais perigos para os olhos. De acordo com João Lisboa, todas as crianças devem ser examinadas durante o primeiro ano de vida. A visita deve repetir-se antes do ingresso na escola e, com alguma frequência, no decorrer da vida adulta. No caso da manifestação de problemas, a periodicidade deve ser intensificada. “Se o doente sofrer de patologias como a diabetes ou a hipertensão, deve ser visto pelo menos uma vez por ano. Para os que não sofrem de problemas de visão, a visita deve ser de dois em dois anos.”
É uma glândula do aparelho reprodutor masculino que quase passa despercebida e poucos são os homens que, antes dos 50 anos, perdem tempo a pensar nela. Tudo muda depois de celebrado o meio século de vida. A próstata torna-se palavra a reter no vocabulário, tantas vezes temida quando acompanhada de uma outra – cancro. E há razões para isso.
É que o tumor maligno da próstata é a quarta causa de morte por cancro nos homens.“A única forma de o curar é o diagnóstico precoce”, afirma Manuel Mendes Silva, presidente da Associação Portuguesa de Urologia.
Por isso, acrescenta o especialista, recomenda-se a todos os homens, a partir dos 50 e até aos 75 anos, um exame anual da próstata. “Ele é feito através de uma análise ao sangue, o chamado PSA. Isto se não houver história familiar da doença. Caso exista, o exame deve começar por volta dos 40, 45 anos.” A ida ao urologista é obrigatória quando surgem queixas do foro urinário ou sexual. “E sempre que seja detectado sangue na urina. Acima dos 50 anos, isso pode indicar a presença de um tumor ou pólipo na bexiga ou no rim. Com uma ida ao médico elimina suspeitas.”
A SAÚDE NACIONAL EM NÚMEROS
Apesar dos alertas para a manutenção de uma boa saúde se terem transformado num autêntico cavalo de batalha para os especialistas nacionais e apesar de estarem mais despertos para os problemas de saúde, os portugueses continuam a negligenciar a importância dos exames de rotina. A prová-lo estão os números. Segundo dados do primeiro inquérito europeu sobre saúde, realizado pelas Selecções do Reader’s Digest e que conta com participantes de 13 países da Europa, o ‘check-up’ médico é apenas referido como rotina por 26 por cento dos mil inquiridos nacionais. No entanto, a falta de responsabilidade dos cidadãos em relação à sua própria saúde preocupa 61,5 por cento dos portugueses.
Outros números do inquérito:
60% dos portugueses assume uma particular preocupação com a ingestão de alimentos saudáveis.
51% afirma manter os seus níveis de colesterol sob controlo.
48% procura adoptar uma atitude positiva perante a vida, evitando qualquer tipo de aborrecimentos.
36% revela preocupação com a linha, ou seja, em controlar o peso.
RASTREIO É ESSENCIAL
CANCRO DO CÓLON A SUBIR
O cancro do cólon é o segundo mais mortal entre nós, logo a seguir ao do pulmão. Realidade que dá conta da importância dos exames de rotina. “A colonoscopia é muito importante”, refere Rui Tato Marinho, secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia. “E deve ser feita a partir dos 50 anos, de dez em dez anos.” Um rastreio que pode salvar vidas e que, na opinião do especialista, acaba por ser, muitas vezes, deixado para segundo plano. “Ele é mais importante que o rastreio da próstata. No entanto, não tem ainda o estatuto de rotina.”
Aos portugueses é ainda aconselhada a realização anual de análises ao fígado, as chamadas transaminazes, a partir dos 40 anos. “Elas podem detectar problemas e lançar pistas para a presença de hepatites”, refere o médico. A terminar a lista, está ainda o teste da hepatite C. “Se a pessoa se tiver drogado, se tiver recebido transfusões de sangue, deve fazer, pelo menos uma vez, este exame.” A doença é subdiagnosticada no nosso País. De acordo com o especialista, apenas um terço dos cerca de 150 mil contaminados com hepatite C estão identificados.
REGRAS BÁSICAS PARA DENTES SAUDÁVEIS
A saúde dos dentes depende dos hábitos de cada um. E de acordo com o estudo realizado na edição de 2003 do Mês da Saúde Oral, apenas 53 por cento dos participantes adultos procuraram tratamento dentário adequado. O relatório mostra ainda que entre os jovens dos oito aos 16 anos, 65 por cento já revelaram sinais de cáries dentárias.
ESCOVAGEM Deve ser assumida como hábito diário e a escova de dentes tem que ser substituída de três em três meses.
FIO DENTAL Vai onde a escova não chega. Importante usar.
FLÚOR Protege os dentes contra as cáries e torna a sua superfície mais resistente.
ALIMENTAÇÃO Evitar o excesso de açúcar, sobretudo entre as refeições.
Olhar pela saúde deve ser um dever de todos. E muitas vezes não é preciso muito para prevenir problemas futuros. Eis alguns conselhos que podem fazer a diferença.
PARA ELES
A disfunção eréctil afecta mais de 400 mil portugueses. Para os que precisam de ajuda, existe uma linha telefónica de apoio, a SOS – Dificuldades Sexuais, que funciona desde Março de 1999, vocacionada para ouvir e encaminhar homens e mulheres com este tipo de problemas. O número é: 808 20 62 06.
PARA ELAS
A melhor forma de cuidar do peito é observá-lo periodicamente. Comece por inspeccionar à frente do espelho, procurando alterações na forma, na cor da pele. Coloque as mãos na cintura, pressionando de modo a contrair os músculos do peito. E apalpe os dois peitos com a ponta dos dedos.
PARA OS MAIS PEQUENOS
As vacinas podem prevenir problemas. Após o nascimento, o bebé deve ser inoculado contra a tuberculose e levar a primeira dose contra a Hepatite B, reforçada mais tarde. Há ainda a vacina contra poliomielite, o haemophilus, a difteria, tétano, sarampo, parotidite, rubéola.
PARA TODOS
Há cada vez mais hipertensos em Portugal. Medir os valores pode ajudar a evitar problemas. Saiba que os valores normais para a pressão sistólica (a mais alta) nos adultos, vão de 10 até 14, e para a diastolica (a mais baixa) de seis a nove. Nas crianças os valores são mais baixos.
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