Em Vieira de Leiria todos conhecem histórias de Lúcio Feteira, reavivadas agora com o homicídio da sua secretaria e amante
As histórias de Vieira de Leiria nunca foram tão pesadas como o aço, ásperas como as limas e cortantes como o vidro, as três indústrias que em tempos marcaram os destinos da freguesia do concelho da Marinha Grande. A herança maldita de Lúcio Tomé Feteira, que leva dez anos de luta judicial, amores reencontrados, descendências reaparecidas e um homicídio, é o resultado da vida de um homem que foi um génio industrial, com alguns pés de barro.
Por estes dias, as conversas adivinham-se entre os reformados da Empresa União de Limas Tomé Feteira, da Fábrica de Aços João Tomé Feteira e da Fábrica de Vidros Dâmaso, sentados nos bancos de jardim, escondidos da canícula pelas árvores. Recordam os tempos difíceis de muito trabalho por pouca jorna, a vida e obra de Lúcio Feteira (1902-2000) e a herança que levou ao assassínio a tiro no Brasil de Rosalina Cardoso Ribeiro, 74 anos, secretária e amante do empresário durante 32, que por esta ligação amorosa reclamava uma parte da fortuna.
"Aquilo era uma escravatura. Era muito trabalho manual e ganhava-se pouco, entre 16 e 40 escudos à semana", diz José Lopes, 59 anos de vida e 40 passados na fábrica de limas. Era ele e mais mil operários, muitos vindos de fora, que a mão-de-obra local era escassa para as encomendas. "Vivíamos na pobreza. No Verão muitos iam para a pesca e no Inverno regressavam à empresa".
FILHOS INDUSTRIAIS
A fábrica existia desde 1856, fundada por Joaquim Feteira (1847-1918). Um ano antes de morrer doou-a aos quatro filhos mais velhos dos 12 que teve: Raul, Francisco, Albano e João, e respectivas mulheres. Eles eram todos industriais e elas de "ocupação doméstica". Lúcio também teve uma quota, por dez anos, a partir de 1931.
"Agora esta história da herança e da morte é uma confusão do camandro". José Lopes está à mesa de um café no centro de Vieira de Leiria, rodeado de ex-colegas, todos a comentar no mesmo sentido: "eu não sou herdeiro, mas se me calhasse algum também lá ia buscá-lo". Um deles, António Francisco, 62 anos, 36 dos quais na empresa, salienta, sobre Olímpia Feteira, a filha ilegítima do empresário que disputava a herança, de pelo menos 500 milhões de euros, com Rosalina Ribeiro: "aqui quase ninguém sabia da existência dela. Isto tudo é um problema".
"Lúcio era um gajo bem composto, que sabia muito, era esperto. E quando cá vinha dava sempre dinheiro à gente, a mim chegou a dar-me cinco tostões", interrompe Nelson Correia, que já garantiu 79 anos de vida e passou pelas limas por volta dos 18.
IMENSA FORTUNA
Todos tinham a ideia de que a sua fortuna era grande, mas não imaginavam que fosse tanto. O empresário chegou a ser considerado na década de 1960 um dos 10 homens mais ricos do Mundo e espalhou projectos industriais desde Vieira de Leiria até ao Brasil. O seu património é tal que poderá ainda não estar completamente apurado. A Fábrica de Vidros Dâmaso, fundada em 1913, também marcou a vida de Lúcio, embora fugazmente, porque procurava sempre voos mais altos.
Casou-se com Adelaide, filha do patriarca Dâmaso, mas as relações com o sogro azedaram quando decidiu fundar uma empresa concorrente, a Covina, em Santa Iria de Azóia. José Fragata, 85 anos, vidreiro durante 45, descreve-o assim: "era muito esperto, tinha outros pontos de vista, mais ambiciosos, e tratava toda a gente, carinhosamente, por ‘hei!, rapazotes!"’.
O operário lembra-se de ganhar entre dois e 18 escudos por dia, em tempos muito difíceis. "Alguns morreram na miséria, outros trabalharam e nunca receberam. Os patrões eram muito rigorosos, queriam muita produção por pouco dinheiro… foi no auge do Salazar. O Lúcio era um financeiro de marca. Os Feteira eram muito espertos, mas muito manhosos".
As relações entre os operários e os patrões eram de conflito latente, que a ditadura não deixava que fossem de protestos declarados. "Eles perseguiam as mulheres e filhas dos operários. Mesmo o Lúcio teve sempre amantes, seduziam-nas com dinheiro e roubavam-nas. Quando protestavam eram denunciados como comunistas, quando sabiam tanto de comunismo como eu de um lagar de azeite". Mas também é verdade que a família Feteira ajudou muitas pessoas, sobretudo as que viviam na miséria na Praia da Vieira. Mas isso parece não comover José Fragata: "não deram nada que fosse deles. Deram aquilo que os trabalhadores lhes deram a eles".
ROBALO OFERECIDO
Júlia Ponte Rabita, 80 anos, peixeira quase toda a vida, percorreu os casais da região todos os dias, "menos ao domingo", entre os 10 e os 67 anos, para entregar peixe aos fregueses. Enfrentou muitas dificuldades e passou fome. "Não me interessa nada isso da herança. Não estou por dentro. Não sei ler, nem escrever". Mas há uma história que gravou na memória: "vendi muito peixe ao Albano. Quando havia robalos, ele pagava-me e mandava-me ir entregá-los às amigas e aos filhos".
Os Feteira de então eram conhecidos por andarem atrás de rabos de saia. A sedução era um dos seus patrimónios, mas de longe o menos importante da família que durante 160 anos construiu uma obra invejável ao nível industrial, na aquisição de imóveis e outros bens em muitos cantos de Portugal e, por exemplo, na América do Sul.
Lúcio foi um dos que, apesar do Mundo percorrido, e de se ter chateado com a terra natal (onde agora só tem um sobrinho directo, Albano Feteira, e outros mais afastados como Vítor Tomé), a seguir ao 25 de Abril de 1974, nunca a esqueceu. Ajudou em obras sociais e deixou uma parte da sua fortuna para a constituição de uma fundação, que não avança enquanto não for desbloqueada a herança maldita. E ainda há muitas arestas por limar. "Está tudo parado, há dez anos que não acontece nada", diz João Pedrosa, 72 anos, um pescador que também deu 40 anos da sua vida à fábrica de limas.
Quando Lúcio – parente dos seus pais – faleceu, exercia as funções de vogal na Junta de Freguesia de Vieira de Leiria. "Conheci-o muito bem. Era muito tratável e amigo da sua terra, muito sociável. Dava algum dinheiro aos pobres e financiou a biblioteca, entre outras obras". Quanto à polémica herança, está convencido de que "a mulher que morreu se abotoou com algum dinheiro".
TRABALHO DURO
Um dos maiores patrimónios da família era a Fábrica de Aços João Tomé Feteira, fundada em 1950 para produzir o metal para as limas. Também aqui a vida não era fácil para os operários como Afonso Santos Laranjo, que lá trabalhou 29 dos seus 73 anos. "Aquilo era tirar a pele e ficar o osso. Safei alguns da morte". Sobre os irmãos Feteira, acrescenta: "o Lúcio não percebia nada de limas, mas o João sabia alguma coisa e até dormia na fábrica". A herança maldita desperta pouco interesse a este homem que não andou na escola, mesmo quando questionado sobre o que faria se fosse um dos pelo menos 20 herdeiros: "se estiver à espera disso morro à fome. O problema é deles. Já demos para a herança o que tínhamos a dar, com o corpo".
Joaquim Maurício Pinto, 73 anos, comerciante, geriu os últimos 30 dos 90 anos da história da Loja da Ti Lameira. "Eu dava-me bem com todos e a família ajudou bastante a terra. Ele não, mas os irmãos Albano e João faziam aqui compras. O Lúcio quando cá vinha, havia aí uns 60/70 pobres e dava 25 tostões a cada um". E um dia a vida deste comerciante esteve a um passo de mudar radicalmente. "Levou-me para casa dele, em Lisboa. Queria-me para seu guarda-costas no Brasil. Se fiz bem ou mal, não sei. Se calhar também já tinha levado dois tiros!".
O CASAMENTO DO FILHO LEGÍTIMO
Joaquim Maurício Pinto foi um dos convidados do casamento de ‘Lucito’, o filho legítimo de Lúcio Feteira. Foi há 40 anos no Riomar (que chegou a ser discoteca), na Praia da Vieira. Foi animado pelo maestro Shegundo Galarza e a sua orquestra. Foi um casamento memorável, lembram os vieirenses. ‘Lucito’ morreu em 1975 no Brasil, aos 30 anos.
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