‘Aproveita o Dia’ é o livro a que regressei sempre. A cruzada de ‘Tommy Wilhelm’ para não ceder ao cinismo face às agruras da vida é exemplar
Nietzsche passou ao lado do essencial. O que não nos destrói torna-nos mais fortes? Quase. Melhor dizer que aquilo que não nos destrói torna-nos mais cínicos. Há quem diga que o cinismo é uma forma de força: uma máscara; uma armadura; uma protecção do ego para enfrentar a brutalidade do Mundo. Mas há quem discorde. ‘Tommy Wilhelm’, por exemplo, discorda: ele é o personagem central de ‘Aproveita o Dia’, novela de Saul Bellow de 1956 e – meço bem as palavras – um dos textos mais primorosos da literatura do século XX.
CONTRA O MUNDO
Não sei quantas vezes li ‘Aproveita o Dia’, em fases diferentes dos meus dias. Mas, de todas as vezes que regressei à fonte – e Bellow é sobretudo uma escola para quem escreve – é ‘Tommy Wilhelm’, e a sua cruzada para não ceder ao cinismo, que me move e comove. Mas como não ceder ao cinismo quando tudo em volta conspira para o humilhar?
Eis a história do pobre ‘Tommy’: abandonou os estudos, apesar da família letrada em que nascera (pai médico; mãe formada na exclusiva Bryn Mawr). Tentou a sorte como actor. Em Hollywood. Para descobrir que o cinema não era a sua praia. Pior: como lhe diz o agente relapso, ele, ‘Tommy’, é o típico actor que só serve para ser abandonado no ecrã pela donzela principal. Ainda tentou o casamento.
Tentou mal. Abandonou a mulher e os filhos – mas não foi abandonado por eles: em sentimentos de culpa e subsídios de todo o tipo. E, em plena meia-idade, vive num hotel residencial do Upper West Side para a terceira idade, onde partilha o espaço com o pai. Espaço físico, mas também emocional: não há dia em que o pai não descarregue sobre ‘Tommy’ a acidez dos seus últimos anos.
‘Tommy Wilhelm’ é um "punch bag"; ou, melhor dizendo, uma "punch line" que todos usam e abusam em críticas e conselhos. O pai não lhe perdoa – as oportunidades perdidas, a família abandonada, a condição presente. A mulher, idem idem, aspas aspas. E ainda existe um bizarro (e hilariante) ‘Dr. Tamkin’, psicólogo e sábio nas horas vagas – e apostador bolsista nas horas restantes, que oferece a ‘Wilhelm’ conselhos de vida ("aproveita o dia!") enquanto o encaminha para o matadouro financeiro.
Como resistir a tudo isto? ‘Wilhelm’ resiste como pode, até certo ponto – e ‘Aproveita o Dia’ é a história dessa resistência: a resistência de um homem que, apesar de tudo, conserva os traços de ingenuidade (e mesmo de infantilidade) que o desarmam perante a predação de terceiros. Se fosse um cínico, talvez o naufrágio não fosse tão evidente. Mas ‘Wilhelm’ teme e deplora o cinismo como quem teme e deplora a perdição da sua alma. Por isso procura ainda "o leite da ternura humana", mesmo em território seco e hostil.
E quando o vemos, no final do seu patético dia, a chorar como um animal acossado e exausto em pleno funeral de estranhos, sabemos que estamos na presença de um momento único na literatura americana. Não mais "grace under pressure" para a mesa dos literatos. Bellow primeiro, Roth depois, e as comportas da natureza humana abriam-se sobre as pradarias.
Editora: Texto Editores
LIVRO: ‘A TELEVISÃO E O SERVIÇO PÚBLICO’
Eduardo Cintra Torres revisita o papel da televisão nas sociedades modernas (e na nossa particular história doméstica) e avança com uma proposta que subscrevo: serviço público, sim, se entendermos pelo conceito um único canal generalista, promotor de conteúdos que os privados não oferecem. Para que fosse perfeito, não seria de excluir o encerramento dos seus serviços de informação.
Editora: Fundação Francisco Manuel dos Santos
FILME: ‘SUPER 8’
J. J. Abrams faz em ‘Super 8’ o que James Ivory consegue com clássicos da literatura britânica: reconstrói uma época. E, em termos cinematográficos, talvez seja mais difícil reconstruir os anos 80 do que a Inglaterra eduardiana de E.M. Forster. Ainda há sobreviventes dos anos 80. Eu sou um deles. E reencontrei aquela combinação de aventura adolescente, esmero narrativo e encontros imediatos de terceiro grau.
Realizador: J. J. Abrams
Em exibição nos cinemas
LIVRO: ‘AS VANTAGENS DO PESSIMISMO’
É interessante acompanhar a evolução ideológica de um pensador como Scruton: começou por ser um conservador continental, leia-se ‘hegeliano’, para quem Thatcher e os ‘neoliberais’ eram um insulto e uma traição ao conservadorismo. Nos últimos anos tem mudado o disco – e, mantendo ainda uma estimável costela elitista, permitiu que Hegel fosse destronado por Burke.
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FUGIR DE...
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