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Na escola estão os desenhos. No quarto onde dormia, os peluches. Florinda não esquece, nem esquecerá, o dia em que a sua menina de olhos azuis lhe chamou mãe.
Os olhos estão cansados de chorar. Florinda envelheceu anos em duas semanas sem Alexandra, a menina a quem chamava filha.
‘Xana’ está na Rússia. A reportagem da televisão do país que mostra as palmadas da mãe biológica à menina partem o coração de Florinda. As imagens perpetuam a sua angústia. O que será feito de Alexandra? Que vida é que a obrigaram a aceitar?
A mãe afectiva não percebe a Justiça portuguesa. Não entende como se pode dizer que ela deveria ter preparado a filha para o regresso às origens. Como é que juristas defendem que ‘Xana’ não devia ter estado mais do que 18 meses em sua casa. Que eles não tinham direitos de adopção.
A família lembra o drama. Desde bebé, Alexandra dormia ao relento nas ruas de Braga, alimentavam-na dos restos dos restaurantes, da generosidade das pessoas. A mãe biológica, Natália, nunca pareceu que se importava. Nem recentemente, já depois da Justiça determinar que a filha era sua. Recusou as ofertas de ajuda, manteve-se afastada da menina sem criar laços de afecto. Reclamou apenas a sua posse, como um objecto. E os tribunais deram-lhe razão.
A dor de Florinda e João é partilhada por amigos de longa data. Como Francisco, dono de uma mercearia e amigo do casal, que conhecia ‘Xana’ desde bebé. Casado com Laryssa, cidadã russa, o merceeiro ajudava no que podia. 'A menina aparecia muitas vezes arranhada, tinha hematomas no corpo. Dava pena olhar para ela. A Natália deixava a menina a dormir sozinha em cabinas telefónicas durante toda a noite', recorda.
Os problemas de alcoolismo da cidadã russa eram cada vez mais evidentes. Moradores do centro de Braga dizem que passava o dia nos cafés, e a menina era abandonada numa rua qualquer. 'A Natália já bebia muito antes da menina nascer. Vinha para aqui e passava a tarde toda a beber cervejas. Tive que a expulsar várias vezes do café porque chegou a insultar e a agredir clientes. Nunca a ouvi falar da filha, nem percebi que se preocupava com ela', conta Nádia, proprietária de um café que Natália costumava frequentar.
Cansado de ver Alexandra sofrer, Francisco propôs a Natália que deixasse um casal seu amigo tomar conta da menina. Perante a proposta, Natália não disse nada. Primeiro ficou calada, depois foi embora. Ao fim de duas semanas entrou na mercearia de Francisco, deixou lá a filha e durante meses não a procurou. Com Alexandra deixou Lúcia, a cadela que também viajou para a Rússia.
FILHA DO CORAÇÃO
Florinda não esquece o dia em que viu Alexandra pela primeira vez. Com 17 meses, a menina pesava 5,700 kg. Estava suja, maltratada, gritava de cada vez que alguém lhe tocava. Florinda teve receio em pegar naquela criança tão frágil e pequena que quase lhe cabia nas mãos. Foi Rosa, a irmã de Florinda, que lhe deu banho pela primeira vez. 'Quando a vi achei que ela me ia morrer nos braços. Estava muito fraquinha, era tão magra que se notavam as costelas. A minha irmã estava com medo de a magoar de tão pequenina que era', conta.
Passaram quatro anos. João e Florinda deram a Alexandra todo o amor e o carinho que a menina conhece. Cuidaram dela, trataram-na como uma 'princesa'. Todos os dias, Alexandra retribuía-lhes o amor com o sorriso da criança feliz. 'Fecho os olhos e vejo-a rir-se para mim'.
Acolher Alexandra na sua casa não foi um capricho, nem a vontade de ter a menina que nunca tiveram. Aos cinquenta anos, Florinda e João têm dois filhos e netos. Uma família que amavam e que agora também chora a sorte de Alexandra.
'A nossa família estava constituída, não pensávamos ter mais filhos. Não foi o desejo de ter a filha que nunca tive. No primeiro dia em que vi aquela menina soube que não a podia abandonar. Se o fizesse, ela morria', explica Florinda.
SITUAÇÃO FINANCEIRA DIFÍCIL
A família passou por uma situação financeira muito complicada. A fábrica de que eram proprietários abriu falência. Tiveram que despedir empregados, pagar as dívidas e arranjar outro emprego enquanto carregavam uma menina de um ano e meio nos braços. Alexandra não dormia, comia pouco, chorava a noite toda.
Florinda não desistiu. Mudou-se com a menina para casa da irmã Rosa. Era necessário que Alexandra recuperasse a confiança nos adultos. Era imprescindível que percebesse que também ela tinha direito a ser amada.
Aos poucos, Alexandra tornou-se a alegria da casa. As brincadeiras com a prima Ana e o sobrinho Bruno, as horas passadas no quarto a brincar com a mãe e os serões a ver televisão com o pai são agora, apenas, recordações. 'Cheguei a passar horas deitada aqui no quarto com ela. Brincávamos, ríamos, pintávamos. Quando estava com a minha princesa não dava pelo tempo passar', conta Florinda.
Quem conhecia Alexandra diz que bastava olhar para os seus olhos para ver que era feliz. E essa foi sempre a preocupação do casal: fazer com que Alexandra fosse uma menina igual às outras.
'A nossa preocupação sempre foi fazer com que vivesse feliz. Nunca quisemos dinheiro. Ver o sorriso dela, poder abraçá-la não tem preço. Só queríamos que ela tivesse uma oportunidade na vida. Agora tiraram-lhe tudo', desabafa João, revoltado com uma justiça que ignora os afectos.
ERAM ‘PAIS EMPRESTADOS’
O casal sempre fez questão de explicar a Alexandra que ela tinha duas famílias: a família biológica e a família do coração. Nunca lhe esconderam que não eram os seus verdadeiros pais. João e Florinda sempre tentaram que Alexandra tivesse uma relação de proximidade com mãe verdadeira. A russa chegou a dormir na casa da família portuguesa.
'Chegámos a trazer a Natália para aqui. Dissemos-lhe que lhe dávamos um quarto para morar e lhe arranjávamos trabalho. Ela nunca quis. Ficava dois, três dias e desaparecia', diz Florinda, que guarda – e guardará – na memória o dia em que a criança lhe chamou mãe.
'A Xaninha perguntou-me por que é que não tinha nascido da minha barriga como os irmãos. Disse-lhe que isso não era importante porque a amava como aos meus outros filhos. Foi quando a minha menina me disse que eu podia não ser a sua mãe de barriga mas que era mãe do coração', diz Florinda. As lágrimas correm-lhe pela face.
Tudo correu bem até 2007. Natália não queria a filha, Alexandra já não reconhecia a mãe, Florinda e João amavam a criança como sua. A reviravolta aconteceu quando roubaram o telemóvel de Natália. A mulher fez queixa à polícia, que imediatamente percebeu que esta se encontrava ilegal no País, pelo que teria que ser extraditada para o país de origem, a Rússia.
Natália contou que tinha uma filha entregue a uma ama e que a queria levar consigo. A informação deu início a uma batalha judicial. Alexandra chegou a estar onze dias no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de Braga com a mãe, à espera da extradição. A 11 de Maio, o Tribunal de Barcelos determinou que Alexandra deveria ser entregue à mãe biológica. Decisão polémica que foi concretizada no dia 18. ‘Xana’ foi entregue à Segurança Social. Chorava compulsivamente. n
COMUNIDADE RUSSA REVOLTADA
Laryssa e o marido Francisco são amigos do casal há já mais de 25 anos. Foram eles que pediram a Natália que entregasse Alexandra, na altura com 17 meses, a João e Florinda. As declarações da mãe biológica sobre a má educação da menina em Portugal revoltaram a comunidade russa. 'Somos muito bem tratados aqui, nunca tivemos queixa', explica.
"A ANA ERA UMA IRMÃ PARA A MENINA"
Quem sofre muito com a separação é a prima Ana, de 9 anos. Era para Alexandra "como uma irmã". A menina chora noite e dia com saudades da ‘Xaninha’. "A Ana não come e dorme muito pouco. Ela e a Alexandra eram muito ligadas, está a sofrer muito", explica Florinda. Ana e Alexandra já estiveram ao telefone mas a dor que sentem por estarem longe uma da outra não pode ser expressa em muitas palavras. "A Ana tinha tanto para lhe dizer, mas não conseguiu. Desataram as duas a chorar", conta Florinda.
TRISTEZA NA HORA DA PARTIDA
Amanhã faz duas semanas que, de coração partido, João e Florinda entregaram a menina na Segurança Social de Braga. O sorriso contagiante de Alexandra apagou-se naquele dia. Os gritos da menina ouviram-se por todo O lado. Três dias depois, a menina partiu para a Rússia com a mãe biológica, Natália.
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