Aqui o ‘mister’ é ‘miss’. Pinta as unhas. E chegou a arranjar o cabelo para vir treinar. Mónica Jorge, 30 anos, “provavelmente a única” portuguesa a viver exclusivamente do futebol, é a seleccionadora nacional de futebol feminino. A antiga “maria-rapaz” prefere formar as ‘suas’ meninas a treinar homens. Mas não se importava de liderar o Manchester United. E de ter Figo, eterno “senhor”, na equipa
Costumam tratar os treinadores por ‘mister’. Ouvi que a tratam por ‘professora’.
Também me tratam por ‘miss’. Foi uma brincadeira que começou há dois anos. Eu normalmente produzia-me e gosto de andar toda ‘pipi’. Muitas vezes arranjava o cabelo para vir treinar. Elas diziam que eu era vaidosa e tal, e começaram a chamar-me ‘miss’. Também me chamam Mónica, mas ‘mister’ é muito raro.
O estereótipo da jogadora com ar másculo faz algum sentido?
Não, não. Cada um é como cada qual. O que refiro é que a imagem é importante. O estilo deve ser apresentável quando se é jogador de selecção, seja feminino ou masculino. Há cuidado. Este é o primeiro estágio ainda, mas as miúdas mais novas já são muito femininas. Há meninas de cabelos compridos, unhas pintadas...
A preocupação com a imagem é cada vez mais visível?
Sim, começa a ser habitual. No futebol isso não acontecia, mas cada vez mais as jogadoras, talvez por influência de imagens lá de fora, como as selecções dos EUA e Suécia, que são miúdas engraçadas e fazem penteados para jogar à bola, começam a copiar.
Houve até uma equipa feminina que posou nua...
Foi, mas isso já é muito à frente (risos). Mas elas conseguem ser coquetes sem deixarem de ser boas atletas e duras no relvado. Uma mulher pode gostar da bola sem deixar de ser o que é.
Também há excessos?
Antigamente não tínhamos essa preocupação. Agora não queremos brincos, nem anéis, porque elas andam sempre com essas coisinhas. Só eu é que posso usar, costumo dizer! É a nova geração ‘Morangos com Açúcar’, que também se nota aqui.
Algumas delas são muito novas.
Sim, apesar de ser sub-19 temos miúdas desde os 15 anos. Muitas vezes dão logo nas vistas aos 15, portanto tentamos apanha-las logo.
Como se apanham os talentos?
Temos um Inter Associações todos os anos de sub-17 de futebol de sete nesta zona do Jamor. As associações distritais trazem as suas melhores jogadoras. Depois, neste torneio, são referenciadas 30 jogadoras. Aqui estão 35 no primeiro estágio. Depois vamos diminuindo até chegarmos às 18 para participar na primeira fase do campeonato da Europa.
Em Setembro jogam com a Ucrânia. Quem são as adversárias mais difíceis?
A Ucrânia é pela selecção A. Mas é um jogo a feijões, porque já não nos apuramos. As sub-19 todos os anos participam nos apuramentos para o campeonato da Europa. Passamos sempre da primeira à segunda fase, mas até agora ainda não conseguimos atingir o mais difícil. Costumamos apanhar uma Noruega ou Suécia e só passa uma para a fase final do grupo. Às vezes apanhamos selecções com campeonatos muito competitivos. Temos mil e tal jogadoras no País, enquanto as outras selecções têm vinte mil federadas!
Com estas mil e tal já se conseguem bons resultados?
Já ganhámos com estas miúdas e encontramos sempre talento. Há cada vez mais meninas a quererem jogar à bola e muito por influência do futebol masculino. Ganharam uma adoração. É fácil encontrar numa escola várias miúdas que querem jogar com os rapazes.
Como é o seu trabalho na Federação?
Trabalho a tempo inteiro. Já cá estou há oito anos como assistente. É um desafio motivante porque há muito ainda por trabalhar. Gostaria, pelo menos, de deixar o futebol feminino melhor do que o encontrei. Claro que nem todo o trabalho é no campo. Há muito tempo ao computador, procura por jogadoras, observação. Mas é um trabalho que se faz muito bem. Tomara muita gente ser seleccionador.
Quando diz às pessoas que é seleccionadora como reagem?
Normalmente digo só que sou treinadora. Não me estico.
Porquê?
Não gosto muito. Mas depois lá digo que é de futebol. 'Ai é? Mas e um treinador vive só disso?', dizem-me. Depois lá tenho que explicar que tenho a sorte de ser seleccionadora nacional de futebol feminino. 'Mas não sabia que temos selecção de futebol feminino' (risos). Mas temos duas até, digo eu. Sou sortuda. Devo ser a única mulher que vive só de futebol no País, porque o futebol feminino não dá dinheiro. Quem cá está é porque gosta.
A Mónica também jogou.
Um bocadinho de amador. Jogava na minha aldeia em Coimbra, em São Martinho do Bispo. Só havia futsal num pavilhão. Era o meu desporto preferido. Jogava na rua. Além disso pratiquei outras modalidades. Passei pelo atletismo, pelo lançamento do disco, pelo halterofilismo. Joguei râguebi, que adorava. Experimentava e depois gostava. Qualquer coisa que fosse diferente, metia-me!
Era maria-rapaz?
Era, porque andava sempre com os meus primos. Gostava de vestidinhos mas não era tão coquete. Depois, quando comecei a ter namorados, na idade dos 12, 13, comecei a produzir-me, a olhar mais para o espelho. Mas nunca deixei de jogar à bola. Achava que aquilo que os rapazes faziam eu também tinha que fazer. O futebol era aquela paixão porque o meu pai era sócio da Académica e levava-me a ver os jogos.
Hoje ainda dá uns toques?
Ainda joguei há dois ou três anos no distrital de Coimbra. Ainda marquei um golo. Mas já estava como assistente. Agora não tenho tempo. Nem tinha qualidade para jogar na selecção.
Costuma acompanhar os jogos pela televisão e ir aos estádios?
Sim, claro. É normal, como muitas mulheres já o fazem. Com os amigos ouvimos em casa e comentamos os jogos.
Os rapazes não mandam bocas?
Não. A nova geração está habituada a falar de desporto com as mulheres. A antiga geração é mais resistente em aceitar que também somos capazes de olhar para a bola e perceber. Somos um pouco um país machista, não só nisto. Mas isso está a ser ultrapassado em todas as áreas, até na política. Não é nada que me aflija.
Para além da selecção torce por que clube?
Não posso dizer (risos). Pela Académica, porque sou de Coimbra. É o meu clube do coração.
E que plantel acha que irá dar mais que falar esta temporada?
Acho que o Benfica vai dar que falar. Felizmente, depois de alguns anos, parece mais organizado! (risos). O Porto é sempre um candidato ao título, o Sporting também. Acho que este ano o campeonato vais ser mais disputado, pelo menos entre os 3 ou 4 grandes. E ainda bem, porque o nosso campeonato de competitivo tem muito pouco. No ano passado, acho que o Porto foi campeão mais por demérito dos outros do que por mérito próprio.
Treinou camadas jovens de rapazes. Gostava de treinar equipas masculinas seniores?
Não... Estou mesmo empenhada no futebol feminino. Apesar de achar que o futebol masculino também precisa de um empurrãozinho na formação. Mas homens, neste momento, não. Não é que não me sinta capaz, mas só começaram a aparecer treinadoras há pouco tempo. É difícil aceitarem uma mulher no balneário.
Mas se tivesse que escolher uma equipa nacional ou estrangeira?
Por um dia, se a selecção me deixasse, alinhava! Escolhia o Manchester United. Era a mais aliciante.
Gostava de treinar o Ronaldo?
Não era por ele. Tem tudo para ser um bom jogador, mas os meus jogadores preferidos sempre foram o Figo e o Jorge Costa. O Figo para mim continua a ser um senhor e vai ser sempre. Nunca o considero velho. Por mim jogava sempre. E o Jorge Costa pela liderança. Sempre gostei da sua forma de estar como capitão de equipa.
É uma preferência só pelos atributos futebolísticos?
Também físicos (risos). Há um olhar feminino. Têm uma boa imagem. São típicos jogadores latinos portugueses. Também gosto muito do João Moutinho pela forma de estar e como se entrega ao jogo.
Como seria o seu onze ideal?
Isso é complicado. Tinha que fazer umas três equipas! Dou cinco ou seis nomes. O Figo estava sempre. O Ronaldo e o Ronaldinho Gaúcho também. Depois, gosto muito do Ballack, do Ricardo Carvalho, do Bufon e do Deco. São jogadores de que não prescindia. Para ponta-de-lança, seria o Torres. Está numa forma incrível.
E treinadores de referência?
Gosto do trabalho do José Mourinho. Mas nem sempre aprecio a forma de estar dele. Gosta de ser bom actor mas de vez em quando é um actor orgânico de mais! Também tivemos o Scolari na selecção. Por muito que se discuta, gostava da forma psicológica de trabalhar.
Sabendo que uma selecção alimenta muitas expectativas, está preparada para lidar com os sucessos e fracassos futuros?
Quem me dera lidar com a pressão todos os dias! Era sinal de que se falava do futebol feminino e estava num patamar mais elevado. Estamos em 45.º. O objectivo é estar, pelo menos, entre as dez melhores da Europa.
Como tem visto os resultados e reacções nos Jogos Olímpicos?
Acho que houve atletas que acusaram a pressão. Uma grande campanha faz com que as expectativas se tornem elevadas, também porque já vinham com bons resultados. É preciso lidar com o insucesso e não acabar de cabeça caída. 'Se falho o que é que digo?' Essas coisas também se ensinam. Talvez daqui a quatro anos dêem outras respostas.
DESPORTO DE ALTO RENDIMENTO
Se há dez anos lhe dissessem que seria seleccionadora 'não acreditava'. 'Dei aulas de educação física, que era o que queria fazer em miúda, ou ser professora de dança jazz, porque via o ‘Fame’ e gostava', confessa. Natural de Coimbra, onde vive, licenciou-se em Desporto de Alto Rendimento pela Escola Superior de Desporto de Rio Maior e tem o IV Nível do Curso de treinadores UEFA Professional, tendo dirigido as Escolinhas e o escalão de Infantis ‘B’ do FOOTescola de Rio Maior. Fã incondicional de desporto, Mónica não dispensa o ginásio. Nem as roupas e acessórios ultrafemininos. A noite não é com ela. 'É para dormir. Sou mais de praia e ar livre.'
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