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Ah fadistas!

Nas casas de Fado de Lisboa desponta um grupo de jovens onde se destacam nomes como Raquel Tavares, Carmo Rebelo de Andrade ou Duarte.

01 de outubro de 2006 às 00:00

Parece que é desta! O Fado está definitivamente na moda. Demorou décadas, tempo demais para um estilo musical que nos distingue no mundo. A sua história tem sido escrita por muita gente, desde cantadores e cantadeiras, guitarristas, poetas mais ou menos empenhados, severas e aspirantes a tal. Fidalgos e plebeus têm sabido mantê-lo, com mais ou menos dificuldade, fiel aos atributos que fazem de si, como hoje outros lhe chamam, uma “Música do Mundo”.

Mas há quem a trate por “urbana”, e ainda como “fatalista”, ou “triste”, ou outra coisa qualquer, com mais ou menos nexo. Epítetos que a tornam polémica também. E ainda bem, dizemos nós. É que num tempo de incongruências e constante discussão, o Fado – esse – parece rir de tanta dúvida, de tanto dramatismo em torno de si e, desculpem-nos o termo, de tanta parvoíce. E é no meio de tudo isto que emergem, quase diariamente, novas e novos fadistas. São muitos os que querem entrar para um mundo a que alguém já chamou “fechado e exclusivista”.

Enfim… mediocridades mentais que, na verdade, não entram nos sonhos e nas vontades de quem vai sentindo e cantando Fado, libertando-o, noite após noite, pelos poros, pela garganta, pela alma. E Fado é, no fim de contas, isto mesmo. E pronto! Escolhemos seis nomes de uma geração emergente de fadistas e, acreditem, há muito para aprender com eles. Haja Fado!

Idade: 25 anos

Local de actuação: Marquês da Sé (Alfama)

Quem já ouviu diz…: “É uma menina que aturamos sem sacrifícios e que tem talento.” Fernando Neves (Gerente do Marquês da Sé)

Ali tudo se insinua ao Fado. O Marquês da Sé é um dos mais belos espaços de Lisboa, onde o bom gosto brindou cada canto da casa e quando as luzes são reduzidas e os músicos ocupam posições, surge, em passo lento e seguro, uma jovem mulher de cabelos louros e olhos cativantes casando-se com o xaile negro enquanto ecoam os primeiros acordes de guitarra e viola. “Amor de mel, amor de fel”, de Amália Rodrigues e Carlos Gonçalves, é o seu primeiro fado (o preferido). Canta mais dois temas antes de terminar com o emblemático “Tudo isto é Fado”. Rute Soares? Nunca a tínhamos ouvido, mas a surpresa é, no mínimo, aliciante.

Canta há apenas sete anos e, ao contrário do que é normal nestas estórias, não tem ninguém na família ligada ao Fado. Amália marcou-a por ter sido a primeira pessoa que ouviu cantar, mas aponta como referências nomes como Fernanda Maria, Fernando Farinha ou Kátia Guerreiro. Aos 25 anos, Rute é uma licenciada em História, no activo, que tem descoberto no Fado aquele que poderá ser o seu principal caminho: “O meu objectivo é evoluir calmamente. É muito complicado porque infelizmente o que vende, muitas vezes, não é o que tem valor, mas sim o que é mais fácil de assimilar. Ainda assim, julgo que o caminho está a ser aberto”.

Não tem os vícios do estrelato nem a presunção de muitas estrelas, tem antes a consciência dos passos que dá e que tem para dar. Se Portugal lhe for justo, terá o seu lugar ao sol… ou melhor, à lua, porque é de Fado que se trata.

Idade: 25 anos

Local de actuação: Marquês da Sé (Alfama)

Quem já ouviu diz…: “O Ricardo está no lote dos cinco melhores fadistas a cantarem actualmente.” Fernando Neves (Gerente do Marquês da Sé)

Tem 25 anos e é já, no meio fadista, uma referência. É uma das vozes mais honestas e genuínas que se ouvem por Lisboa. Ricardo Ribeiro é um misto de homem feito que aos 15 anos guardava ovelhas, e de menino que mantém um prazer ímpar enquanto canta. Os gestos, as expressões, o sentimento trespassante reúnem-se na voz e na alma de Ricardo. Algo que não nasceu por geração espontânea: “Conheci pessoas que me ajudaram a crescer e a enriquecer o meu espírito, entre elas os meus pais e uma tia muito amante de Fado”.

É acusado de purismo e de conservadorismo, mas o próprio desmistifica a ideia: “Bebi o que de mais puro tem o Fado e as pessoas estão a esquecer o que de melhor os velhos nos deixaram. Tenho pena porque o Fado é uma canção de estilo, pela linha melódica e pela maneira do fadista entoar”. Respeita quem escolhe outras roupagens para o Fado, mas personificando José Régio, afirma “Não vou por aí!”.

Idade: 25 anos

Local de actuação: Sr. Vinho (Lapa)

Quem já ouviu diz…: “Como ser humano e como fadista é maravilhoso”

Maria da Fé (Proprietária da casa)

Liberal. Esta é uma das palavras que melhor se enquadram no perfil de Duarte, ou não fosse ele um puro alentejano. Ainda hoje é difícil dissociar-se de uma vida académica na cidade onde nasceu, Évora, que o marcou e que lhe marcou muitos dos passos que hoje dá. Foi por essa altura que a música entrou a sério na sua vida, principalmente o Fado. Aos 19 anos, porque precisava de ganhar uns dinheiros, começou a cantar mais a sério, ainda que sempre numa toada descontraída que, felizmente, se tem perpetuado até hoje.

Duarte, a quem alguém chamou “um vadio com classe” formou-se em Psicologia e, quando confrontado com a teoria dos dois amores, prefere não escolher: “É possível aproveitar o Fado e a Psicologia e conciliá-las. É uma questão de vivência”. Carlos do Carmo, Camané e Amália são eleitos por si como proprietários certos da sua inspiração, todavia, de espírito aberto e mente sã, Duarte alarga as suas referências, quando se fala de música, a outras músicas: “Jorge Palma e Sérgio Godinho são apenas dois dos nomes que sempre admirei e que, na verdade, valem tanto como nomes do Fado. Faz a devida vénia ao chamado “rei dos fados”, o Menor, mas coloca a fasquia além do fado tradicional. Depois do primeiro disco, ‘Fados Meus’, prepara o segundo, aliando novas sonoridades ao Fado convencional: “O Fado é das mais bonitas formas de arte, mas os fadistas não são nem podem ser ilhas. Recebem informação e experiência de todos os lados”. O Fado merece-o.

CARMO REBELO DE ANDRADE (CARMINHO)

Idade: 22 anos

Local de actuação: Mesa de Frades (Alfama, às quartas-feiras)

Quem já ouviu diz…: “Indiscutivelmente uma voz fora de série. Agrada aos tradicionalistas e vanguardistas. É rara. Pedro Castro (proprietário do Mesa de Frades e guitarrista)

Não se sabe quem lhe deu esta voz, se foi o Altíssimo ou as noites longas no Embuçado, onde a mãe, Teresa Siqueira, incendiava os tabuados em meados dos anos 80. Dizem que o obstetra recomendava cantatas de Bach, mas a fadista preferia os LP de Amália, Maria Teresa de Noronha e Beatriz da Conceição. Quando começou a cantarolar, Carmo já trauteava os refrões de Fernando Farinha e Carlos Ramos no lugar do Atirei o Pau ao Gato. Pedro Castro, que a recebeu no Mesa de Frades por indicação de Camané e do irmão Hélder Moutinho, garante que “a Carminho tem aquilo que todos gostavam de ter: a humildade. Nasceu com ela. Oxalá não se perca quando for gravar”.

No lugar dos xailes, dos vestidos de soirée e dos meneios dramáticos de algumas fadistas. Carmo não se envergonha do seu perfil de liceal, os All-Star de biqueira rota, as t-shirts largas, o aparelho nos dentes, a bejeca gelada depois de um ‘Mouraria’ cantado dos confins da alma. Quando lhe perguntamos quais as suas aspirações, Carmo limita-se a dizer: “Tenho um dom que agradeço, não tenho nenhum mérito. Acabei o curso e agora quero fazer o que fazem os da minha idade: divertir-me antes de começar a trabalhar”. Gravar um disco não está fora dos seus planos, mas garante que só o fará quando sentir o clique e com o propósito firme de “mostrar o que se faz por cá”. Serão fados tradicionais e a palavra terá o domínio.

Idade: 21 anos

Local de actuação: Bacalhau de Molho (Alfama)

Quem já ouviu diz…: “É uma mulher com muita raça, muita alma e uma capacidade vocal e uma entrega invulgares” Jorge Fernando (viola, compositor)

Raquel Tavares, 21 anos, anda nisto do fado desde a placenta. “Comecei a cantar aos 3 e aos 9 já sabia que não ia fazer outra coisa na vida”, diz entre um trio de fados, o último, uma sextilha apoteótica em tributo à sua musa Beatriz da Conceição. Podia estar num palco ou na casa de fados onde vai todos os dias e a entrega seria a mesma. “Tenho fome de palco, de bastidores, da encenação do espectáculo, mas não interessa se canto para uma plateia a abarrotar ou para as paredes do meu quarto. É a minha respiração, o meu sangue”, confessa com a fala a sair-lhe aos borbotões.

Nada e criada nas ruas de Alfama, Raquel lembra que no secundário, enquanto os miúdos ouviam os Backstreet Boys e as Spice Girls as suas músicas tinham a voz da Berta Cardoso ou Lucília do Carmo. “Chamavam-me velha”, recorda. A palavra é o seu mundo e a dicção rigorosa quando canta não a deixam mentir. “Parto da palavra para a música. Sou incapaz de me entregar a fundo ao que não me diz nada.”

Idade: 27 anos

Local de actuação: Café Alentejo (Évora)

e Hotel Tivoli (Lisboa)

Quem já ouviu diz…: “Tem um excelente timbre e uma franqueza desarmante como pessoa” Cristina Branco (cantora)

Não deve dar sopa por aí um jornalista de idade tenra mas já de créditos firmados e, em simultâneo, um fadista de voz pronta, além de letrista, compositor e grande viola. Um artista de mão-cheia, cujo momento alto foi vivido recentemente na mítica sala do Concertgebouw, de Amesterdão, ao lado de ilustres como Cristina Branco, Vitorino e Mário Laginha. Um artista de quem se pode dizer como cantava o actor Taborda: “Eu p’lo fado sou lamecha/Não está mais na minha mão/Quizera ouvi-lo cantar/A toda a lusa nação”. Resta dizer que esta incursão pela "fadistagem" é obra do Carlos. É um caso raro de artista que escreve, compõe, toca e interpreta.

Como refere: "A minha vontade passa por cantar, tocar, escrever e compor os meus fados. Gravar um disco passa-me pela cabeça, mas o mais importante é fazer as coisas de uma forma gradual, com consistência, coerência e, sobretudo, com humildade e responsabilidade". Sobre o facto de os portugueses precisarem da aprovação do estrangeiro para gostarem daquilo que é seu (Ana Moura dixit)” é peremptório: "Infelizmente acho que a Ana Moura tem razão, e os resultados estão à vista e têm nomes: Mariza, Ana Moura, Dulce Pontes, Cristina Branco... Mas eu não censuro o público, ou parte dele. Vivemos há 30 anos em democracia: é pouco tempo. Como diz o fado: “Dá tempo ao tempo...” “Cantar fado” é uma coisa diferente de “ser fadista”.

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