<b>Quinta-feira, 27 de Março</b><BR>Quando Dimitri me diz “Não é medo”, eu percebo logo que é exactamente disso que se trata: de medo. Previdente, a sua estação de televisão, sediada no Chipre, pediu há meses vistos iraquianos (e koweitianos e iranianos e sírios) para ele e vários outros companheiros de redacção. Agora pretende que Dimitri tente atravessar a fronteira entre a Jordânia e o Iraque e deu-lhe ordens para abandonar Doha em direcção a Amã. E ele, que está já há três semanas no Médio Oriente, tem medo.
Às vezes imagino-me na pele dos jornalistas que integram as divisões de infantaria rumo a Bagdad e sei que teria medo. Imagino o dia-a-dia de Paulo Camacho e Carlos Fino em Bagdad, há semanas debaixo de fogo – imagino as coisas que têm de dizer todos os dias a si próprios, prometendo-se regressar a casa –, e suponho que tenham medo. Volto todos os dias aos balcões das companhias e das embaixadas, à procura de voos e vistos para locais mais próximo dos cenários do conflito, e um arrepio de medo percorre-me o corpo. Amo a vida mais do que tudo, e o medo – nunca é de mais dizê-lo – é o nosso maior aliado quando queremos manter-nos vivos.
O problema de Dimitri, penso eu, não é porém o medo: é a solidão. É este ambiente de Doha – este ambiente de estás-na-guerra-mas-não-estás, esta limitação geográfica, este conformismo jornalístico que nos amolece, que nos deixa com saudades de casa. Podemos ver televisão, podemos ler, podemos ouvir música e tentar convencer-nos de que estamos num qualquer lugar do Planeta – mas na verdade estamos no Golfo Pérsico, rodeados de palavras de guerra e de notícias de morte por todos os lados. E podemos falar com militares, discutir trajectos para chegar a Bagdad, telefonar aos amigos que se encontram no Iraque, engendrar planos para mudar o Mundo – mas a verdade é que estamos no Qatar, a centenas de quilómetros das bombas.
Escrevi um longo e-mail a um amigo, que agora reproduzo a todos aqueles que me perguntam por mim, e nele digo que, apesar de sempre ter sido um viciado em viagens (e sobretudo em viagens de trabalho), nunca lidei bem com a solidão dos hotéis – e que agora, finalmente, me sinto pela primeira vez bem comigo próprio, sozinho, no deserto. Não é verdade. Estou mole, estou carente e tenho saudades de casa – e a Ana da TV Galícia, que é uma mulher feia, está cada dia mais bonita. Se houvesse viajado directamente entre Lisboa e Bagdad, estou convencido, nada disto acontecia.
Valem-me os amigos que, apesar de tudo, vou construindo. Os jornalistas nem sempre têm paciência para mim – nem eu para eles – mas tenho uns músicos búlgaros, um activista palestiniano, o Carlos Alhinho e o Alberto, e quando me sinto doente olho para a mulher de Alhinho e sei que, se eu adoecesse, ela me faria um chá. Quando mais nada funciona telefono para casa e, depois, ligo o correio electrónico – e então sinto a companhia dos leitores do ‘Correio da Manhã’, que me enviam emails sobre como também já usaram toalhitas ‘Dodot’.
O ‘CM’ tem essa imensa vantagem sobre todos os outros jornais e revistas em que trabalhei: tem leitores, muitos leitores – e entre eles alguns leitores ávidos de histórias humanas, de histórias que os façam sentirem-
-se parte da História. E, quando recebo um e-mail deles, sinto-me em casa e desejo de novo viajar até ao Koweit e ao Iraque, apesar do medo que não me larga.
Sexta-feira, 28 de Março
Volto ao Sheraton, depois do momento de lazer. Não quero fazer mais amizades: quero trocar impressões – sobretudo recebê-las de quem tem mais conhecimentos e experiência do que eu. Sento-me no bar e vou tentando formar a minha própria visão dos acontecimentos – não tão antibélica como a dos meus amigos gregos e espanhóis e menos pró-intervenção militar do que a dos americanos que vão passando e, ocasionalmente, se sentam connosco. Bebemos todos ‘Budweiser’.
Quando se acendem as vaidades, refugio-me no jardim, junto à gaiola dos papagaios e das catatuas. E, ao olhar aqueles bichos, penso na minha mulher, na minha casa, na minha vida. Os papagaios, quando podem, andam sempre aos pares, com um sentido de família mais do que humano. E eu, quando posso, também.
Sábado, 29 de Março
Uma preta gorda, sargento da Força Aérea, avisa-nos que o ‘shuttle’ ficou retido alguns metros à frente e depois vira-se para Tom, jornalista da CNN: “Podes liderar, George? Hoje têm de ir a pé até ao autocarro e gostava que tu os liderasses.” E Tom, um homem baixo e loiro parecido com um tipo que entrava no McGyver, lidera-nos direitinhos, apesar de lhe terem chamado George. Baixa os olhos, alarga a passada e lidera-nos com decisão e orgulho. Gosta de nos liderar.
De vez em quando tenho de ir ao Centro de Imprensa da Coligação, abastecer-me de ‘Butterfingers’ (os melhores chocolates do Mundo) e ver como estão as respostas aos meus pedidos de entrevistas e à minha candidatura a visitar a Base. Saio invariavelmente desconcertado. Hoje um jornalista perguntou ao general, durante a conferência de Imprensa: “Quando vamos ter outro ‘show’ como o da noite de segunda-feira?”, e o general balbuciou uma resposta, meio atónito com a expressão ‘show’ – mas balbuciou-a, apesar de tudo.
É natural que muitas pessoas não saibam o que é verdade e o que é mentira, no meio de toda esta propaganda e de todos estes equívocos. Eu próprio, que sou jornalista e estou no Golfo, não faço ideia sobre o que é verdade. E só conto o que vejo – estava correcto o compromisso que estabelecera comigo próprio.
Domingo, 6 de Abril
Procura-se morto ou a jogar golfe. Darren Linton continua desaparecido algures no Qatar. O jornalista da estação australiana Channel Seven deixou de contactar a sua redacção na semana passada e, apesar de estar a centenas de quilómetros do conflito armado – mais propriamente no Qatar, onde está instalado o Comando Central da Coligação –, causa preocupações na Austrália, onde se teme que o repórter tenha sucumbido ao ‘stress’, à ansiedade ou à Síndroma da Guerra do Golfo.
As indicações sobre como encontrá-lo são mais um exemplo do circo mediático que reina na capital qatari: nas últimas vezes em que foi visto, diz o cartaz afixado na porta do Centro de Imprensa da Coligação, Linton estava a beber copos no bar do Ritz-Carlton, a jogar golfe no clube de Doha, a andar de moto no deserto e a fazer compras nos ‘souqs’ do centro da cidade... Se não tivesse duas páginas para escrever todos os dias, ia procurá-lo.
Terça-feira, 8 de Abril
Entro no avião. Muitos jornalistas entram comigo. Trazem quase todos pendurados ao pescoço os dísticos e as acreditações do governo do Qatar e do exército americano. São jornalistas!
Eu adormeço. Também fui ao Comando Central buscar a acreditação definitiva, para pendurar no meu quadro de cortiça. Não há grande diferença entre eles e eu. Só não trago os cartões ao pescoço.
***
Chove em Lisboa. Lembro-me de uma canção de Elton John, que a certa altura diz: “Whatever gets you through the night”. Sinto isso em relação ao Inverno: ‘Agarra-
-te ao que puderes para passar o Inverno o menos mal possível’.
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Os jornais portugueses falam de Carlos Cruz e de Isaltino Morais. A pedofilia e a corrupção são ainda mais mesquinhas e repugnantes perante a grandeza da guerra.
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Voltei do Golfo com um acesso de caspa. A última vez que isto me aconteceu foi há três anos, durante a viagem de lua-de-mel. Atravessava os Estados Unidos, guiando um automóvel entre Nova Iorque e Los Angeles, e era profundamente feliz.
Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Jornalista, é redactor principal do ‘Correio da Manhã’ e cronista da ‘Grande Reportagem’. Publicou o romance ‘O Terceiro Servo’ (Presença, 2000) e o volume de contos ‘O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas’ (Presença, 2002), este nomeado leitura obrigatória na Universidade dos Açores e incluído pelo jornal ‘Expresso’ no painel das dez melhores obras publicadas em Portugal no ano passado. “Joel Neto transforma-se numa das melhores vozes de nosso idioma comum”, escreveu o romancista brasileiro Luiz Antônio Assis Brasil, na sequência da publicação desse livro.
‘Al-Jazeera, Meu Amor – Da Cimeira dos Açores à Tomada de Bagdad’, escrito sob a forma de diário, é sobretudo uma visão irónica e amarga dos jornais e dos jornalistas que cobriram a segunda Guerra do Golfo. Dedicado aos repórteres que morreram no Hotel Palestina e nos campos de batalha do Iraque, tem prefácio de João Marcelino, director do ‘Correio da Manhã’, e será apresentado terça-feira por José Manuel Barata-Feyo (em substituição de Carlos Fino, retido no Brasil), no auditório da Feira do Livro de Lisboa.
TÍTULO: Al-Jazeera, meu amor
AUTOR: Joel Neto
EDITORA: Prefácio
PREÇO: € 16,00
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