Um carro parou à frente da enfermaria com sete feridos. Estavam todos muito mal e foram morrendo um a um.
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Com apenas 11 anos fui ter com o meu pai a Angola. Ficámos a viver em Camabatela, uma linda vila que deixei no norte de Angola e que até hoje jamais esqueci. Foi ali que cresci e comecei a trabalhar a um balcão. Depois dos massacres de civis logo no início da guerra, em 1961, fiquei muito chocado e fui para França trabalhar.
Um dia, depois de ter passado no consulado e de me terem dito que se não cumprisse o serviço militar obrigatório não podia voltar a Portugal, disse que preferia ir para a tropa em vez de nunca mais poder pisar a minha terra. Além disso, também sentia que estava em falta para com o meu País e para com os meus compatriotas que lá estavam a lutar.
Pensei sempre que ia para a minha outra terra, Angola, mas afinal o destino trocou-me as voltas e acabei por ser mobilizado a 1 de maio de 1968, quando estava no BCAÇ 10, em Chaves, para me juntar ao Batalhão de Caçadores 2845 para a Guiné.
Foi a bordo do ‘Niassa’ que cheguei, dias depois, à Guiné e foi também este navio que, ao fim de 23 meses, nos trouxe de volta a Portugal.
Em Teixeira Pinto era maqueiro e passava muito tempo na enfermaria ou em missões junto das populações locais, prestando auxílio aos doentes. Também ajudei como auxiliar do doutor Fernando Maymone Martins, o médico do batalhão. E isto porque eu era dos poucos que conseguia perceber a letra dele, o que facilitava o trabalho na hora de a enfermaria dispensar os medicamentos que ele receitava!
Na enfermaria
Aprendi a fazer alguns trabalhos de enfermagem e com isso ajudava muitos colegas em dificuldades. Fazia pensos, suturava e era eu que administrava o tratamento para o paludismo. Mas por uma enfermaria em tempo de guerra passam também situações muito complicadas. Uma vez, de repente, pararam duas viaturas à frente da enfermaria com sete feridos muito graves. Tinham sofrido um acidente no aquartelamento vizinho, quando uma granada rebentou acidentalmente. Estavam todos muito mal e, sendo de noite, não havia visibilidade para fazer uma evacuação. Estavam em tal estado que tive de os carregar sozinho, pois os outros militares, assim que viam os membros decepados, não conseguiam levá-los para as macas. Foram morrendo um a um ao longo da noite, apesar dos nossos esforços e, sobretudo, do empenho do médico, que ali não tinha meios…
Só se salvou um, que resistiu até ao sol nascer e foi levado para Bissau. Não foi , infelizmente, situação inédita. Na Guiné morreu muita gente em combate, porque era uma das zonas de guerra mais difíceis, mas também morreu muita gente por via de acidentes de carro, disparos e explosões acidentais, etc.
Outra situação complicada aconteceu com um camarada do nosso batalhão que saiu para fazer uma escolta e acabou por passar por cima de uma mina. Ficou com o corpo cheio de estilhaços, que fomos tirando logo ali na enfermaria. Felizmente, teve sorte. Nesse dia passou o bombardeiro que distribuía o correio e então conseguimos levá-lo.
No mato e quando íamos às localidades visitar as tabancas também era preciso ter cuidado, porque embora fôssemos prestar apoio às populações, eles também aproveitavam para saber informações que depois usavam para nos fazer emboscadas. Queriam saber onde íamos de noite, por onde passávamos. Todo o cuidado era pouco. Tanto que sofri várias emboscadas no mato, felizmente sem quaisquer consequências.
Estive para voltar à Guiné no ano passado, na companhia de um antigo companheiro de batalhão que organiza missões de ajuda humanitária. Acabei por não seguir viagem com ele, mas um dia... volto lá.
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