Confessou ter assassinado uma britânica mas acabou ilibada.
Meredith Kercher nasceu a 28 dezembro de 1985, em Southwark, Londres, Inglaterra, e morreu no dia 1 de novembro de 2007, com 21 anos de idade, vítima do crime de homicídio, crime esse que se acredita ter ocorrido na casa onde à data morava, na Via della Pergola, 7, Perugia, Úmbria, Itália. Meredith era uma inglesa que ao abrigo de um programa de intercâmbio de estudantes tinha trocado a Universidade de Leeds pela Universidade de Perugia.
Veio a ser assassinada em Perugia naquele dia 1 de novembro, tendo sido encontrada morta no chão do seu quarto. A autópsia apurou que a morte ocorreu por asfixia, mas no exame realizado ao cadáver pela polícia italiana foram identificados sinais de golpes produzidos por uma arma branca, uma faca.
O quarto estava remexido, parecendo que o móbil do crime teria sido o roubo, uma vez que faltavam alguns dos bens da vítima.
Foi uma colega de Meredith, a americana Amanda Knox, que vivia no mesmo apartamento, quem alertou a polícia, depois de ter encontrado a colega sem vida, no chão do seu quarto. Chegados ao local e logo nas primeiras investigações, mais concretamente no exame ao local do crime, os investigadores italianos concluíram que o cenário era uma encenação – era muito difícil ter ocorrido ali algum outro crime além do homicídio de Meredith Kercher.
PRIMEIRO AMANDA KNOX
No seguimento das investigações, a polícia italiana, conjuntamente com os magistrados do Ministério Público de Perugia, apontam as suas suspeitas para Amanda Knox, que, a partir desse momento, se tornou na principal suspeita. Detida para investigação e depois de ser interrogada várias vezes ao longo dos primeiros quatro dias, imediatamente a seguir ao crime, Amanda Knox assumiu a autoria do crime, tendo na sua confissão implicado duas outras pessoas – Patrick Lumumba, um congolês dono do bar onde ela trabalhava em regime de part-time, e o seu então namorado, o italiano Raffaele Sollecito, que foram imediatamente detidos.No fim da primeira semana, dá-se o primeiro volte-face na investigação, com Patrick Lumumba a ser libertado, devido ao facto de um exame forense o ter ilibado. Esse exame de um vestígio encontrado no local do
crime, e que segundo as indicações de Amanda Knox seria de Patrick Lumumba, veio a provar-se que pertencia a Rudy Guede, um costa-marfinense de nascimento, mas que havia crescido em Perugia. Rudy Guede foi então detido e acusado de ter cometido o homicídio de Meredith Kercher, em coautoria com Amanda Knox e Raffaele Sollecito.
O advogado de Rudy Guede pediu a separação de processos e este indivíduo foi julgado num processo autónomo, ainda que o crime fosse o mesmo. Aparentemente, Rudy Guede estava tão comprometido com a situação que nunca negou a presença no local do crime. Segundo o seu advogado, Walter Biscotti, Rudy e Meredith haviam-se conhecido na noite anterior, numa festa em Perugia. Passaram a noite juntos no quarto da vítima, tendo mantido relações sexuais.
No dia seguinte acordaram na mesma cama, sendo que, em determinado momento, Rudy foi à casa de banho, a qual era partilhada por todas as pessoas que ali viviam. No momento em que foi à casa de banho afirmou ter visto Amanda Knox a entrar em casa. Esta, ainda segundo Rudy Guede, dirigiu-se ao quarto de Meredith e começou a discutir com ela. Rudy pensou que era uma discussão entre duas colegas que partilhavam o mesmo apartamento, pelo que não deu muita atenção, tendo colocado phones nos ouvidos e fechado a porta da casa de banho. Cerca de dez minutos depois ouviu um grito que o fez sair da casa de banho. Nesse momento viu um homem a abandonar a casa.
Dirigiu-se ao quarto de Meredith, tendo-a encontrado prostrada no chão e verificou que ela havia sido degolada. Tomou a iniciativa de colocar uma toalha à volta do pescoço da rapariga. Foi nesse momento que viu Amanda Knox a fugir do local. Como Meredith estava morta, ficou cheio de medo e também ele abandonou o local.
O tribunal não acreditou na versão deste jovem de 20 anos e condenou-o em primeira instância a uma pena de 30 anos de prisão, tendo os juízes concluído que o crime da morte de Meredith Kercher tinha acontecido na sequência de um "jogo erótico" em que os participantes eram a vítima, Rudy Guede, Amanda Knox e Raffaele Sollecito, jogo esse fatal para a vítima. Ainda segundo o tribunal, Rudy e Raffaele teriam subjugado sexual e fisicamente Meredith, enquanto Amanda a degolava com uma faca.
Rudy Guede foi condenado pela participação em homicídio numa altura em que para os outros dois arguidos o processo estava ainda numa fase mais atrasada. Parecia haver pressa em condenar Rudy Guede. O seu advogado recorreu da sentença da 1ª instância que, recorde-se, era de 30 anos de prisão, tendo o tribunal superior reduzido a pena para dezasseis – cerca de metade da pena inicial.
VÁRIAS VERSÕES
Rudy iniciou o cumprimento dessa pena em outubro de 2008. Acontece que tanto ao longo do processo como ao longo do julgamento, Rudy Guede mudou várias vezes de versão, o mesmo tendo acontecido com os outros dois suspeitos. A título de exemplo, logo na primeira noite em que foi detida, Amanda Knox confessou que se havia encontrado na rua com Patrick Lumumba, que era o seu patrão, tendo este ido para o apartamento dela, onde estava Meredith.
Referiu que quando entraram no apartamento foi logo à cozinha, enquanto Lumumba foi ao quarto de Meredith. Disse ainda que ouviu um grito e depois viu Lumumba a fugir.
Foi no seguimento destas declarações de Amanda Knox que a polícia prendeu o congolês, tendo-o solto dias depois, já que os exames forenses e a restante prova recolhida mostraram que Amanda estava a mentir. Apanhada a mentir, Amanda mudou a sua versão várias vezes, até se ter fixado na seguinte – havia passado a noite na casa de Raffaele, tendo feito amor com ele várias vezes nessa noite. Às dez da manhã levantou-se e foi para sua casa.
Quando entrou em casa viu a porta do quarto de Meredith fechada, tendo ainda visto sangue no chão, junto à porta do quarto. Assustou-se e saiu de casa à pressa, tendo ido buscar Raffaele. Ao voltar, chamaram a polícia, tendo Raffaele ido embora porque não tinha razão para ali estar. Acresce a tudo isto o facto de Raffaele ter sido em tempos não muito distantes namorado de Meredith.
Em audiência de julgamento, Amanda Knox e Raffaele Sollecito foram consideradas culpados pela prática de um crime de homicídio, tendo sido sentenciados a penas de 26 e 25 anos de prisão. Não se conformaram com a sentença e recorreram para o tribunal superior. Em outubro de 2011, o tribunal de 2º nível decidiu a favor dos suspeitos e considerou-os inocentes. Na sequência desta decisão, Amanda Knox e Raffaele Sollecito foram libertados, depois de terem estado cerca de quatro anos detidos.
O tribunal de 2º nível considerou que a responsabilidade dos suspeitos no crime pelo qual haviam sido condenados não havia sido provada de forma inequívoca, pelo que deviam ser inocentados. O Ministério Público italiano não se conformou com esta decisão e recorreu para o tribunal de 3º nível, a suprema corte da Itália. Este tribunal anulou o acórdão do tribunal de 2º nível que havia absolvido Amanda Knox e Raffaele Sollecito, tendo ordenado a repetição do julgamento.
O julgamento foi repetido e no dia 30 de janeiro de 2014, Amanda Knox e Raffaele Sollecito foram novamente considerados culpados pelo homicídio de Meredith Kercher e condenados a 20 anos de prisão. Amanda e Raffaele voltaram a recorrer. Na sequência do recurso final e sem mais nenhuma hipótese de novo recurso, a 30 de março de 2015, a mais alta corte da Itália, o tribunal de cassação, considerou de forma definitiva que Amanda Knox e Raffaele Sollecito eram inocentes relativamente ao crime de que estavam acusados e pelo qual haviam sido julgados e condenados.
Recorde-se que quer a americana Amanda Knox quer o italiano Raffaele Sollecito tiveram sempre à sua disposição excelentes e bem preparadas equipas de defesa. Também o Ministério Público de Perugia teve a trabalhar no caso os procuradores Giovanni Galati (procurador-geral de Perugia), Giuliano Mignini, Manuela Comodi e Giancarlo Costagliola. Provavelmente, o erro foi não existir uma verdadeira investigação policial, que solidificasse de forma precisa todos os indícios recolhidos.
O elo mais fraco deste caso acabou por ser o costa-marfinense Rudy Guede, talvez o menos culpado em todo o caso e que continua a cumprir uma pena de 16 anos de prisão desde 2007, por comparticipação num homicídio, que teria praticado com Amanda Knox e Raffaele Sollecito. A mesma justiça que condenou Rudy Guede ilibou de forma definitiva os seus coarguidos.
A vítima Meredith Kercher não beneficiou do interesse do governo britânico, que não criou nenhuma equipa especial da polícia inglesa – sendo também verdade que as autoridades italianas nunca autorizariam os ingleses a trabalhar em Itália e a pedirem em sucessivas cartas rogatórias diligências cujo fim não se percebe. Também não escolheram advogados italianos prestigiados para acompanhar o crime que vitimou uma inglesa – Meredith.
Ficamos com a sensação de que existem cidadãos ingleses de primeira e de segunda classe. Este caso passou e não houve escândalo, nem emissões especiais de televisão. Agora imaginem se este caso se tivesse passado em Portugal e se quer a PJ, quer o MP, quer os juízes tivessem feito a mesma investigação, proferido as mesmas acusações e tivessem sido dadas sentenças tão contraditórias. O escândalo seria enorme e o país seria certamente acusado de ser do Terceiro Mundo.
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