Fez tudo o que quis. Disse coisas que não são canja de serem ditas. Luiz Pacheco. Figura, grande, escreveu, traduziu, criticou literatura e literatos com uma linguagem libertina, contagiante, ousada. Teve oito filhos de três amores distintos. Viveu igual à sua personalidade. Sem limites.
Não queria morrer durante o sono. Queria estar acordado para a encarar cara-a-cara. A gaja. Essa grande galdéria. A morte. E deve ter sido assim. Às dez da noite e dezassete minutos de 5 de Janeiro, o “mestre querido”, como o mimou o escritor Pedro Paixão, fitou-a no olhar míope. Espreitou-lhe as coxas. Disse-lhe a rir está bem, rapariga. A morte não era propriamente uma estranha. Luiz Pacheco escreveu-a. Viveu-a vivo. Só faltava vê-la. Ir com ela. E foi. Aos 82 anos. Nos braços da filha mais velha, Maria Luísa, e quiçá a fazer troça de algum soldado de Deus que, em piedade, apareceu em carro-vassoura.
Ele sabia da chatice; os defuntos têm rituais. São vestidos. Velados. Vão em caixões. O seu sobrava para o físico esquelético. É provável que Luiz Pacheco tenha respingado por estar vestido com algo que, a maioria da gente julga banal, menos ele; um par de calças que lhe tapavam os sapatos. Pacheco sempre gostou de exibir as peúgas.
É provável que durante a missa de corpo presente tenha dado bitaites. Em vão. A garantia do sacerdote não fere os desconfiados: o escritor, editor, ensaísta, crítico literário, continua no quintal terrestre. Em pensamento, sem contar com os ares bajoujos de última hora. Ou ainda melhor. Bastante. Que é estar com ele relendo os livros que escreveu, os textos que publicou, as entrevistas cheias de graça e atrevimento.
O pensador livre, alma de inteligência severa, não quis só enfrentar olhos-nos-olhos a criatura que traz o fim da linha. Também desejou que a bandeira do Partido Comunista Português cobrisse a sua urna. A ideia de se filiar no PCP surgiu quando viu o enterro de Ary dos Santos a subir a Morais Soares, e uma multidão a gritar “Ary, amigo, o partido está contigo”. Não sejamos hipócritas. Não o seguia uma esperança revolucionária. A sua sinceridade, interdita a cardíacos, expressou-a publicamente, sem pejo, para não variar: “Isto é que me convém, porra! Pagam-me o funeral, pagam-me o caixão e levo a bandeira que me aconchega. É que eu sou um gajo friorento!”.
O estandarte vermelho, com a foice e o martelo e a estrela de cinco faria de manta. Se os mortos sentem o mesmo frio que aparentam, Pacheco saiu da Basílica da Estrela agasalhado. Mas superior à sensibilidade ao frio e à hipocondria aguda, o libertino tinha a língua e a caneta afiada. Uma espécie de facas com serra eléctrica ininterruptas que se atreviam a dizer o inesperado. Eis um décimo do cardápio: chamou estúpida a escritoras reputadas. Pateta alegre a romancistas. Fascista aos janotas. Lambe-botas a figuras inquestionáveis.
Inês Pedrosa preferiu não falar “de este senhor”. João Pereira Coutinho considera-o “a aberração da feira”. Apesar de as relações nunca terem sido amistosas, Urbano Tavares Rodrigues, que foi seu colega na Faculdade de Letras de Lisboa no curso de Filologia Românica, reconhece-lhe “algum talento” e realça que Luiz Pacheco, “por ser uma espécie de provocador, acabou por se tornar numa figura muito importante nas letras portuguesas”.
AS LETRAS
Foi exactamente devido às letras que o caos económico invadiu a sua inigualável existência, arrastando nesse vendaval oito descendentes, frutos dos seus três relacionamentos amorosos. Luiz Pacheco deu nome aos filhos, mas porque eram tantos para decorar, também lhes deu números. Maria Luísa, nº 1, João Miguel, nº 2, e Fernando nº 3, nº são as boas consequências do seu único casamento oficial que contraiu com a então empregada que trabalhava na residência dos seus pais, na Rua de Dona Estefânia, em Lisboa.
Jurou que se fartou, que não tinha chegado a vias de facto com a donzela, mas os tios da moça quiseram lá saber até onde chegara o filho do patrão. Um beijo rente nos lábios representava o suficiente para participar à polícia. Pacheco foi preso. Só viu a liberdade quando colocou a aliança no dedo de Maria Helena. “Lá em casa havia um regime forte de educação”, não vigorava a ditadura, mas Maria Luísa não esquece as regras paternas: não podia sair da mesa sem pedir licença, devia limpar delicadamente a boca ao guardanapo, sentar-se com as costas direitas e pernas juntas. Ainda dias antes de morrer, repreendeu-a por ter os calcanhares mal posicionados no sofá: “Oh Maria Luísa, que propósitos são estes?!”.
Durante a década em que foram uma família, apesar das ausências, Luiz Pacheco compensava-a: “Levava-me ao cinema e a lanchar”. A miúda adorava a sua companhia. Deixou de adorar quando o pai abandonou, sem um ai nem um ui, o lar, na Rua Almirante Barroso. Maria Luísa assumiu um corte radical que levou tempo a ser suturado. “Só quando me casei é que me aproximei dele”. Tal como a irmã, João Miguel estudou no Liceu Francês.
“O nosso pai fazia gosto nisso”. Pacheco honrava que os seus rebentos falassem o idioma da revolução francesa. Após a separação, nunca esqueceu da única viagem que fizeram juntos ao Porto. Pacheco precisava ir à Livraria Divulgação, mas antes os dois pernoitaram no Grande Hotel das Caldas. Um amigo arranjara-lhes uma borla. Na manhã seguinte foram para o apartamento de uns poetas onde ficaram vários dias. Dormiu com quatro pessoas “mas nunca houve cegada!”.
Já adulto, a memória tende a tingir os mini-arroubos da puberdade. “Aparecia embriagado no meu emprego”. Não que tivesse bebido litros de absinto, bastavam três cervejas para o fígado azedar. Só muito raramente a sua presença não causava alarido.
Houve algumas ocasiões, não muitas, que Luiz Pacheco comportou-se ao metro de um pai babado: “Dizia à minha chefe para tratar bem do seu menino”. Um menino que se transformara, à força, em homem. A razão de Pacheco ter batido com a porta era uma: saias. Maria do Carmo. A mulher com quem teve dois filhos; Luís José, nº 4, e Adelina, nº 5, que desde há muito reside na Turquia, cujo rasto o escritor perdeu. Luís, que em pequeno foi entregue à Casa Pia, sobre a figura paterna repete o que continuamente tem dito: “Não faço declarações”.
EUGÉNIA
Eugénia fala. Gosta de falar. Nasceu em 1964, no mesmo ano em que “Comunidade”- a sua obra genial, esse hino à família, foi publicada pela Contraponto, a editora de Pacheco. Eugénia é a filha nº 7. A sua mãe, Irene, o terceiro amor de Luiz Pacheco, irmã da anterior relação, era uma miúda de 13 anos e Pacheco, um quarentão, no momento em que juntaram trapos e corpo. Mesmo após décadas e décadas, a perniciosa reminiscência é transmitida ao telemóvel. Ao ser contactada, enfureceu.
Desculpe. Pacheco? Não quer ouvir réstia de tal apelido. Desculpe. Nem sombra de maldito inferno. Mas a filha quer. Nasceu em Setúbal e ainda bebé foi viver para as Caldas da Rainha para um quarto com os pais. Com dois anos e meio ficou gigante: tomava conta de Jorge, o derradeiro dos oito filhos. Dormiu numa gaveta. Um casal adoptou-a. “Contudo, eu e o meu pai nunca perdemos o contacto”. Pacheco escrevia-lhe cartas, postais, e aos quinze anos a relação fortaleceu. Seria interrompida, pouco tempo depois, na altura em que a hipersensibilidade ao álcool denegria a sua consciência. Curado, até às seguintes recaídas, voltava.
Como se nada se tivesse passado. Novas idas ao cinema. Algumas passeatas. O lado estroina do pai era aliviado:” Apesar das suas graves dificuldades económicas, se ele tivesse recebido, por exemplo, 1000 escudos, às vezes dava metade a um pedinte”. Quando a fome apertava tudo servia, até a trança que, certa noite, cortou sorrateiramente à companheira para de manhã ir pôr no prego.
Tudo, ponto e vírgula. Menos a máquina de escrever. Por uma, máximo duas vezes, não teve outro remédio. Já nada restava. Nem franjas. Para recuperar a ferramenta da centelha, Pacheco cravava dinheiro aos amigos, aos tais que num texto os catalogou em ordem numerária” Tenho amigos de 25, 10, 15, 20 paus. E de 500 só tenho um; o Vinhas”.
Paulo, o nº 6 do rol dos filhos de Luiz Pacheco, é o encarregado do espólio. Foi ele quem conviveu mais tempo com o pai. E não há cofres que se equiparem com tal vivência. Em Setembro de 1970 Pacheco leva-o para a célebre casa em Massamá, cuja reputação recaía num antro do diabo. Numa entrevista a João Pedro George, seu biógrafo, Pacheco relembrou-a: “Era um disparate...
Às vezes era uma balbúrdia do caneco... É como em casa de negros onde moram 4, e de repente vêm mais 5, ficam, ajeitam-se, vêm mais 10, ajeitam-se... Em Massamá era assim, dormiam no meio do chão, de qualquer maneira.”. No meio da Babel, uma tuberculose ataca os pulmões do garoto. Paulo sobrevive. A carne dos Pachecos é, estará a dizer Luiz, do caraças.
DINIS MACHADO
Dinis Machado, jornalista, escritor e crítico, fez amizade com Pacheco há tempo demais para se lembrar da data. Apesar de não o considerar um grande escritor, assegura que ele foi alguém “muito importante na literatura portuguesa”. Sobre as suas qualidades, não tem dúvidas: “Era um ser generoso, atractivo”. E relativamente ao seu feitio, é peremptório: “Difícil de entender”.
VITOR SILVA TAVARES
Vítor Silva Tavares foi o primeiro a editar um livro de textos de Luiz Pacheco - “Crítica e Circunstância”. É directo nas evidências que o caracterizam : “O seu mau feito e língua viperina, que era o que lhe dava uma personalidade própria”. O editor da ETC realça: “Foi um escritor invulgar que deixou, entre muita produção de menor-valia, meia dúzia de momentos que são os mais altos do século XX, como a obra “O libertino passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor”.
Sobre a morte do escritor, tradutor e crítico literário, João Pedro George, investigador, que está a concluir a tese de doutoramento que incide sobre a biografia de Luiz Pacheco, afirma : “É uma perda irrecuperável. Com o seu desaparecimento desaparece um escritor como não voltará a existir outro”. Ainda este mês será publicada um livro de sua autoria onde estão reunidas as últimas entrevistas dadas por Luiz Pacheco.
GUARDA OS LIVROS DO PAI
João Miguel Pacheco guarda alguns livros do pai. O sexto filho do escritor e editor estudou no Liceu Francês, tal como a irmã. Luiz Pacheco armava-se, queria que os filhos soubessem a língua da revolução francesa. Na adolescência de João, o pai aparecia-lhe embriagado no emprego e causava alarido. Ou então, sóbrio, Pacheco ia lá para dizer à chefe para “tratar bem o meu menino”.
Eugénia, a filha nº 7, nasceu em Setúbal e ainda bebé foi viver com os pais para as Caldas da Rainha. Dormia numa gaveta. Um casal adoptou-a. Luiz Pacheco foi ao casamento dela, pôs lacinho branco ao pescoço e reviu alguns filhos.
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