Cinco anos depois da Expo’ 98 abrir as suas portas, o balanço do evento que mudou Portugal. Os 340 hectares votados ao abandono transformaram-se no orgulho dos portugueses. Com a Expo demos um salto até ao futuro
O sonho de uma Exposição Mundial em Lisboa nasceu à mesa do restaurante do Martinho da Arcada, nos primeiros meses de 1989. Vasco Graça Moura e António Mega Ferreira saboreavam o tradicional prato de Bacalhau à Braz quando tiveram não uma, mas três ‘ideias luminosas’. O projecto inicial apontava para uma grande exposição internacional, um campeonato do mundo de futebol e a criação de uma escola de línguas africanas e orientais. Mas se as duas últimas propostas não saíram da gaveta, a hipótese de erguer um evento que criasse um ‘foco de atenção’ nacional e internacional sobre os Descobrimentos portugueses foi ganhando entusiastas. “O tema começou por ser o ‘Mercado do Oriente’. Mais tarde, a equipa de Mega Ferreira concluiu que o tema dos Oceanos era melhor. E de facto era, não apenas pela problemática em si, mas também porque a questão da água é cada vez mais importante”, recorda o poeta e político Vasco Graça Moura.
Quatro anos depois, em Paris, Mega Ferreira, Torres Campos e Jorge Sampaio viam o sonho tornar-se realidade: a Feira Mundial de 98 vinha parar a Portugal e não ao superfavorito Canadá. “Abraçámo-nos, parecíamos miúdos”, relembra Torres Campos, futuro Comissário da Exposição. Mas, a festa ainda não era nacional. A maioria considerava o evento ‘megalómano’. No meio de tanto pó e das obras intermináveis, era difícil imaginar que na zona oriental de Lisboa – onde a paisagem era pincelada por lixo e contentores – pudesse nascer uma nova cidade. “Vi todo aquele território ser aplanado e limpo de construções, até se transformar numa imensa plataforma com dois únicos marcos do passado: A doca e a torre da refinaria”, diz o arquitecto Manuel Salgado, responsável pela idealização da zona ribeirinha da Expo. Poucos dias antes da data oficial de abertura, a 22 de Maio, as vozes dos ‘Velhos do Restelo’ não se calavam. “Os portugueses têm tanto o vício de se autocriticar, que chegam a paralisar-se”, diz Simonetta Luz Afonso que nunca deixou de acreditar nesta ‘causa nacional’. Mas os primeiros dias da Expo não tiveram brilho nem chama. O mau tempo e até o Campeonato Mundial de Futebol, em França, afastaram os turistas.
REMÉDIO PARA O FATALISMO
O sol começou a brilhar a 10 de Junho, Dia de Portugal. O ‘passa palavra’ ajudou a promover o evento. Naqueles meses ‘quentes’ de Verão, passou a ser ‘in’ ir à Expo e visitar o Oceanário, o Pavilhão de Portugal, da Utopia ou da Realidade Virtual. De dia, os mais novos divertiam-se com os 'monstros' Olharapos. À noite, as famílias rendiam-se ao ‘Acqua Matrix’, um dos ‘ex-líbris’ da Exposição.
No total, mais de oito milhões de pessoas assistiram a estes dois espectáculos. A auto-estima nacional subiu em flecha e 500 anos depois de Vasco da Gama, os portugueses voltaram a orgulhar-se do seu País. “O significado nacional da Expo foi o de enterrar alguns fantasmas do passado sobre a nossa proverbial inferioridade’, declarou então, o ‘pai’ da Expo, António Mega Ferreira. E chegavam os ecos da imprensa estrangeira. O jornal italiano ‘La Repubblica’ escrevia: “A Expo’ 98 é o bilhete de Portugal para a entrada na Europa do terceiro milénio”. E o espanhol ‘La Vanguardia’: “A materialização de uma obra com a sofisticação desta última grande exposição do século, injectou uma boa dose de orgulho num país demasiado fatalista”.
Hoje, a zona oriental de Lisboa rivaliza com os locais mais emblemáticos da Capital. Graças ao investimento imobiliário, estima-se que, em 2009, cerca de 25 mil lisboetas fixem ali residência. A trabalhar serão mais de 18 mil. “Todos os meses, mais de um milhão de pessoas visitam o Parque das Nações”, enfatiza José Bracinha Vieira, Presidente do Conselho de Administração da Parque Expo. Mas nem tudo são rosas. Para o primeiro Comissário-Geral da Expo, Cardoso e Cunha, os portugueses esqueceram-se do tema que dominou a Exposição, ‘Os Oceanos, Um Património para o Futuro’. E Vasco Graça Moura lamenta "o aspecto financeiro, a capacidade hoteleira em excesso e o Teatro Camões; um ‘flop’”.
Mas nada disto irá apagar a Expo’ 98 da memória dos portugueses. Ana Azevedo, de 28 anos, trabalhou na Expo’ 98 e consegue exprimir como ninguém as saudades desses dias longos e intensos: “Era bom que todos os anos se fizesse uma Expo!” n
AS CONTAS DA EXPOSIÇÃO
O legado da Expo'98 é pesado. A 31 de Dezembro de 2002, o passivo do Parque Expo 98 S.A. (PE) era de 541 milhões de contos (2,7 milhões de euros), embora as dívidas tenham descido 172 milhões de contos (857 mil euros) em comparação com o período homólogo. José Bracinha Vieira, Presidente do Conselho de Administração da Parque Expo desdramatiza: “Os dinheiros investidos pelo Estado foram reproduzidos através da receita pública gerada pelo projecto, a qual foi sete vezes superior ao montante gasto pelo Estado”. A redução de custos deve-se sobretudo, à diminuição do número de colaboradores. “Dos 537 trabalhadores de 2001, a PE passou a ter 280 em 2003”, refere., considerando que os casos de corrupção posteriores “não mancharam” a Expo. Mas, em 2000, o Tribunal de Contas concluiu que houve ‘má gestão’. Exemplo: os prejuízos de 5,67 milhões de contos (28 mil euros) decorrentes da ocupação hoteleira (a contratação de três navios-hotéis foi desastrosa). A factura: 4,7 milhões de contos (23 mil euros), face a uma receita de 776 milhares de contos (3,9 mil euros).
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