Sessenta anos depois o cantor reencontrou antigos colegas da escola da sua infância, em Moçambique.
As mãos tremeram-lhe quando envolveu o companheiro de carteira da 1ª classe num abraço, concretizado quando a desconfiança inicial cedeu finalmente lugar à confirmação. Por detrás dos óculos de sol, António Calvário reconheceu no homem feito de 69 anos, que tinha à sua frente, o compincha de brincadeiras e confidências. O reencontro fez o tempo recuar e motivou olhares alheios. ‘É o senhor António Calvário? Eu sou o Augusto Martins. Finalmente te encontro, depois de tanto te ter procurado, nem acredito que este dia chegou, que estás aqui ’, murmuraram os lábios quando os braços se soltaram do emotivo abraço.
Passaram sessenta anos desde que os dois se sentaram juntos, 'naquelas mesas duplas que abriam o tampo e tinham um tinteiro de porcelana ao meio', na Escola Roque de Aguiar, em Vila Luísa, no Moçambique distante da primeira infância do cantor que Portugal mais tarde aplaudiu. Os pés não estiveram descalços, como estavam das últimas vezes em que os amigos se viram, quando os dias tinham via verde para a liberdade a caminho do rio. O cenário escolhido também tinha pouco de infância, mas a memória perdoa os pormenores. O Inatel de Oeiras testemunhou o encontro, materializando uma prece que Augusto perseguia desde que perdeu o rasto ao amigo ‘Tonecas’, ou ‘Paz’, como Calvário era conhecido. 'Corri tudo para o encontrar. Tentei contactá-lo durante espectáculos que o António fazia no teatro, para telefones da casa de familiares, através de todas as formas de que me lembrei, mas a mensagem nunca chegava a ele'. A certa altura contentou-se em espreitá-lo pela televisão. Limitou-se a ouvi-lo cantar. Mas pelo pequeno ecrã não se esvaziam saudades. As memórias que o cantor recentemente publicou em livro foram o passaporte para o almoço que teve as recordações como prato principal – foi nas páginas de ‘Histórias da Minha História’ que Augusto soube que, afinal, António não se tinha esquecido dele. 'Antes de ver o meu nome escrito no livro tinha acabado por desistir, pensei que por ele ser figura pública podia não estar interessado em nos rever'.
O plural é convocado porque Augusto não veio sozinho. Com ele trouxe Susana, uma das irmãs, Maria Luísa e Ana Maria, também alunas da turma de Calvário na escola primária e que, entre elas, também há muito não se viam. Foram chegando a par e passo. As primeiras trouxeram companhia. Augusto também quis que a mulher, Lila, conhecesse o seu mais antigo companheiro de escola, o homem que em menino, aos oito anos, viu abalar de África em lágrimas – muito antes de ele próprio sequer imaginar que um dia, em Dezembro de 1975, tomaria o mesmo rumo, forçado pelas circunstâncias.
Ana Maria avisou pelo telefone que traria um vestido azul. António Calvário garantiu que, mesmo sem o código descrito, não deixaria de a descobrir entre os veraneantes que passeavam pelo Inatel 'as feições' da antiga colega. Mais tarde haveria de confidenciar: 'Como ela continua magrinha ainda foi mais fácil do que pensava'. Quanto a ' Susana também não foi difícil ver quem era, apesar de ela agora usar cabelo curto e na altura ter umas tranças compridas muito bonitas'. O cantor estava em desvantagem – nenhum deles mostrou dificuldade em reconhecê-lo.
'Contigo não dá para enganar, vemos--te volta e meia na televisão, acompanhámos a tua carreira, ouvimos-te cantar'. À distância. Mas a música preencheu muito pouco aquele muro de recordações. A infância ganhou vantagem segura quando os cinco se encontraram – e as brincadeiras predilectas tiveram poiso de destaque nas conversas. ‘Lembro-me tantas vezes da tua bicicleta, Augusto, eras o único de nós que tinha uma, por isso íamos todos para a tua casa andar nela e brincar no teu baloiço, lembras-te?’, pergunta Calvário ao amigo. ‘Então não lembro, depois das aulas ninguém nos parava, como era divertido andar em cima dos muros, apanhar chuva e trepar às árvores’. Ana Maria não só concorda como acrescenta: ‘Não havia nada melhor do que comer a fruta mesmo em cima das árvores, não ter que esperar que ela caísse. E lembram-se quando nos enfiávamos dentro dos pneus dos tractores e íamos sempre a rolar até ao rio?'. Anuem todos sem excepção. E riem como se a infância estivesse logo ali, ao virar da esquina com vista para o mar. Logo outros pormenores são chamados à conversa. 'Então e aqueles lagartos azulados que havia lá? Nunca mais vi nenhum! Eu cá só vi no Brasil, mas ia jurar que não eram tão azuis como os que havia em África. E as uvas que comíamos nas aulas sem o professor dar conta?'.
A prosa passeou-se por lugares que o coração bem conhecia. E embora fosse sendo interrompida por afoitas fãs – que podiam tudo menos perder a oportunidade de um beijo repenicado no cantor – tempo não faltou para recordar. ‘Deus queira que não dê nenhum badagaio a ninguém com a emoção’, sussurrou Luísa. A ‘Oração’ foi ouvida. Venha o próximo.
PERFIS
Calvário, 70 anos, retornou em 1949.
Augusto Martins, 69 anos (1975). Foi contínuo e lavou carros. Reformou-se de ajudante de despachante.
Maria Luísa Bourlotes, 72 anos (1977). Escriturária.
Susana Martins, 71 anos (1974). Trabalhou numa loja de bordados.
Ana M. Peixe, 67 anos (1974). É assistente de consultório.
OS QUE VIERAM, OS QUE FICARAM E OS QUE JÁ PARTIRAM
António Calvário foi, dos colegas da escola primária, aquele que mais cedo retornou a Portugal. Ainda era criança, tinha oito anos, e não esquece a despedida em lágrimas aos amigos. Foram os pais do cantor que decidiram o regresso a Portugal, para que em terras lusas prosseguisse os estudos. A maioria dos amigos de escola regressaram depois da independência de Moçambique. 'A mim deram-me 24 horas para sair de casa com os meus filhos, não trouxe nada', recorda Ana Maria. 'O retorno foi dramático', concordam todos. Em conjunto recordaram os colegas – aqueles que entretanto morreram e os que permaneceram em África, como a Palmira e o Capitão (que foi futebolista, descobriu Calvário).
AS LIÇÕES DO 'TONECAS'
O cantor tinha 5 anos quando os pais se transferiram de Lourenço Marques para Vila Luísa, capital da circunscrição de Marracuene. Ali, António conheceu os amigos que viriam a fazer parte da sua turma na primária. A Escola Roque de Aguiar era um estabelecimento de ensino misto onde António aprendeu as primeiras letras. Como só tinham aulas de manhã, a tarde era para brincar.
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