Em Ganturé, numa zona de clareira, fomos emboscados e estivemos vários dias debaixo de fogo.
Fui para a tropa em 1971 e entrei como grumeteno Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 4 (DFE-4). Sabia que a malta especializada, como era o meu caso, ia para o Ultramar. Foi o que aconteceu em 1973, tinha 23 anos. Em abril de 1973, fui como fuzileiro especial para a Guiné, onde rendemos o Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 7. Fomos destacados para Ganturé, no Norte do território. Não havia lá nada e tivemos de construir o aquartelamento numa das margens do rio Cacheu, a cinco quilómetros de Bigene.
O destacamento estava dividido em quatro secções – Alfa, Bravo, Charlie e Delta. Lembro-me do Joaquim José Simões, de Ferreira do Alentejo, que era a terceira comissão que fazia e era um grande amigo. O Simões, às vezes, imitava o Spínola, comandante-chefe: tirava o vidro do relógio e colocava-o no olho direito como se fosse um monóculo. Na altura conhecíamo-nos mais pelos números do que pelos nomes de cada um. Eu era o 2044.
Ataques cerrados
Um dia, o comandante do destacamento, primeiro-tenente Alves Jesus, disse-nos que o aquartelamento de Guidaje, na fronteira com o Senegal, estava a ser atacado pelo PAIGC. A 8 de maio, a caminho de Guidaje, passámos por uma zona onde uma coluna do Exército, que ia abastecer o quartel, fora emboscada. Cheirava a carne queimada. Continuámos até ao quartel do Exército em Guidaje e avistámos dois guerrilheiros mortos. Não tinham armas, só as cartucheiras à cintura e não era seguro chegar perto deles porque a zona podia estar minada. Os abutres sobrevoavam os cadáveres. O cenário agoniava.
Chegámos a Guidaje sem problemas. O pior veio depois, quando de quatro em quatro horas passámos a ser atacados com morteiros e tínhamos de correr para os abrigos. Passámos dias debaixo de fogo. Um africano, que atravessava a parada do quartel, foi atingido por um morteiro mas não morreu. Quando já estava melhor, levaram-no para um abrigo subterrâneo que o PAIGC atacou com granadas perfurantes (não rebentam logo). O africano ferido ficou cortado ao meio: as pernas na cama e o tronco caído no chão. Quando saímos para fazer o reconhecimento do local de onde vinham os ataques, um camarada morreu atingido por estilhaços.
Ao regressarmos ao aquartelamento em Ganturé, tivemos de atravessar uma zona de clareira com 300 metros, onde não havia mato. O PAIGC sabia que havia uma coluna vinda de Ganturé que se cruzava ali com outra que saía de Guidaje e tinha espalhado minas por todo o lado. Fomos os primeiros a chegar. Na coluna, mais atrás, seguiam carros com passageiros guineenses, que queriam sair de Guidaje, e alguns feridos. Ficámos uma hora debaixo de fogo de armas cuja munição estoirava e desfazia-se em estilhaços. "Vamos a eles que ainda não é desta que nos levam", gritava um oficial, que tinha sido atingido pelas costas, e dizia-nos o chefe da minha secção, o marinheiro Moura, "guardem uma munição. Se não conseguirmos vencê-los, matamo-nos", o que era preferível às atrocidades se caíssemos às mãos dos guerrilheiros. Disparávamos às cegas e ouvíamos as balas a assobiar por cima de nós.
Os aviões Fiat saíram em socorro da Base de Bissalanca para bombardear a área. Tivemos de recuar para Guidaje, enquanto a outra coluna retrocedeu para Ganturé. Mas em Guidaje voltámos a ser atacados e ficámos sem comunicações. Isolados, tivemos de sobreviver com carne de crocodilo por não haver mais o que comer. Só ao fim de alguns dias, uma coluna de abastecimento conseguiu furar o cerco. DEPOIMENTO DE: Nome:José Tavares
Guiné (1973-1974)
Dest. Fuzileiros Especiais nº 4
Relato originalmentede 2008
publicado a 20 de abril
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