São hospedeiras mas trabalham em terra: em festas, congressos, feiras e festivais. boa imagem e simpatia são requisitos
Haja sorriso que resista a doze horas de trabalho num lugar onde todos se divertem. Sofia Barros tem os músculos bem treinados para que a boca não desarme perante o cansaço, uma dor de cabeça inesperada ou um piropo inconveniente enquanto veste a farda das Hospedeiras de Portugal e se multiplica semanalmente nos mais variados eventos. À semelhança daquilo a que está habituada, no festival Optimus Alive – onde sorriu ininterruptamente das 16h00 às 04h00 – a simpatia também foi companhia indispensável no stand da Segurança Social.
'Apesar de estar a trabalhar é muito divertido ser hospedeira em festivais, também já tinha feito o Rock in Rio'. Neste tinha como função cativar as pessoas para escreverem uma frase sobre a pobreza. Não se sabe se cativadas pelo palminho de cara da hospedeira de 22 anos, 'muitas queriam até dar donativos, mas o que nós estávamos a fazer era apenas alertar para a causa'. Se bem que o mesmo palminho não traz só iniciativas solidárias: também incentiva os piropos. 'Ouvimos muitos mas não podemos ser mal-educadas por muito constrangedora que seja a situação. Temos que ser formais, mas sorrir. E nunca aceitar o convite'. A 'mais estranha' aconteceu num congresso, quando 'um deputado de outro país' lhe passou 'discretamente um cartão com o número de telefone'. Há mais de cinco anos que Sofia lida com estas e outras questões – começou aos 17 anos. Licenciada em Comunicação, prefere abdicar de uma profissão na área em prol das Hospedeiras.
'Acho que nos acomodamos ao ordenado que recebemos aqui e sabemos que dificilmente a exercer na nossa área conseguimos ganhar esse valor'. O pagamento é à hora e rondará os cinco/sete euros. Sónia Martinez, do departamento comercial das Hospedeiras de Portugal, explica que o valor varia consoante o tipo de trabalho, os requisitos e o horário. 'Uma menina que fale fluentemente inglês, alemão ou francês é remunerada de acordo com as suas faculdades. Se o cliente exige uma hospedeira com características de modelo o valor já é mais elevado'. Quando se trata, por exemplo, de uma marca de automóveis que contrata a empresa para uma feira o requisito é esse: 'têm de ser vistosas, ter rostos bonitos e corpos atraentes. Classificamos as meninas da nossa base de dados consoante a beleza, a experiência e competências'.
FALA ALEMÃO?
Maria Salazar foi surpreendida por um telefonema da agência – estava longe de saber o que era uma hospedeira de eventos – a perguntar: ‘fala alemão, não fala? Sabemos que é aluna do Colégio Alemão e precisamos de alguém que fale a língua para um evento’. A jovem de 19 anos, filha de pai alemão e mãe portuguesa, aceitou e viu-se poucos dias depois vestida de amarelo a segurar uma bandeirinha no kartódromo do Bombarral. 'Uma empresa de seguros alemã ofereceu aos melhores trabalhadores um fim-de-semana em Portugal'. Por agora, enquanto espera para saber se tem vaga na Faculdade de Medicina de Berlim, Maria continua a emprestar a cara e o corpo aos mais variados eventos.
PATINS OU EQUITAÇÃO
Aptidões menos comuns são (muito) bem aceites pelas agências. 'Andar de patins, jogar futebol e ter noções de equitação são atributos que procuramos nas nossas hospedeiras. Já tivemos um cliente que queria uma menina que falasse russo e nós tínhamos. Convém ter hospedeiras habilitadas para situações diferentes porque escolhemos as pessoas para os trabalhos consoante o perfil', explica Ana Rosário, da Springevents, uma agência do mesmo ramo. Nem todas as hospedeiras podem trabalhar com crianças, por exemplo – é preciso jeito.
O primeiro trabalho de Catarina Torres, de 24 anos, licenciada em Direito, foi precisamente com este público. 'Estava vestida de indiana, num evento da Disney, sentada nuns almofadões a fazer-lhes pinturas na cara'. Uma estreia em beleza para quem também já se vestiu 'de jardineiras e capacete à homem das obras' e acompanhou 'o maior aventureiro vivo do Mundo, segundo o Guinness', durante a estada do recordista em Portugal. 'Fui a assistente VIP dele e da família: levei-os ao hotel, acompanhei-os no congresso, visitámos museus. Ele até já foi condecorado pela rainha de Inglaterra mas é super-humilde e pôs-me à-vontade. Nestes casos só falamos se as pessoas quiserem'.
Catarina partilha com Patrícia Cerqueira, da mesma agência, a cumplicidade e muitas memórias de trabalhos no currículo. Juntas já apertaram 'a mão ao primeiro-ministro e ao Presidente da República em congressos na FIL' e sabem de cor todas as regras que dita o protocolo nestes casos. 'Por exemplo, o copo do Presidente não pode ser de pé alto'.
Na ponta da língua também ainda está fresca a emoção de estar a par de um evento então 'confidencial. Estivemos no aeroporto a receber os governadores dos bancos centrais [em Maio, na última conferência de Vítor Constâncio como governador do Banco de Portugal] na sala VIP, a tratar as bagagens e a encaminhá-los para os carros certos. Mas às vezes púnhamo-los num carro e eles saíam de outro, de propósito para não haver fuga de informação. Quando mete seguranças de Estado já sabemos que não nos podemos meter', contam quase em coro. Patrícia, de 22 anos, chegou à agência no encalço de 'juntar dinheiro para fazer uma viagem de voluntariado para África. Sabia que os meus pais não me podiam ajudar, porque era mesmo muito dinheiro. Este era o trabalho indicado para conseguir conciliar com as aulas do mestrado', em Gestão, conta.
Essa flexibilidade de horário é o que, numa primeira fase, incentiva a inscrição nas agências. 'E somos bem pagas. Posso dizer que no mês de Maio, em que trabalhei quase sempre cinco dias por semana, ganhei mil euros. Nos meses mais fracos faço 200, 300 euros. Mesmo quando arranjar um emprego na minha área espero poder fazer eventos ao fim-de-semana'. Do sério, de entre todos os trabalhos, só a tiram as ofertas de brindes. 'As pessoas ficam loucas, mesmo que só estejamos a dar sacos, tornam-se muito agressivas'. Mas não foi nunca assediada 'de forma abusiva'. Catarina Torres sim. 'Um senhor começou a meter conversa, eu disse que estava a trabalhar mas ele agarrou-me pelo braço. Tive de dizer que estava a ser indelicado e chamar uma coordenadora. Mas estas situações são esporádicas: mais comum é pedirem o número de telemóvel'.
FATOS ESTRANHOS
Enquanto Sofia Barros se vestiu de dálmata para um evento, Débora Pires, de 23 anos, foi mascarada, num outro, de coração gigante.'Nessemeteram--se muito comigo por causa da roupa mas nunca me disseram nada que fosse ofensivo'. A tirar o mestrado em Ciências Forenses depois de uma licenciatura em Direito, Débora inscreveu--se nas Hospedeiras de Portugal para 'ganhar um dinheiro extra, há quatro anos'. Sofia fê-lo para comprar um carro que não demorou muito a conseguir.
Já Patrícia Guerreiro lembra que gastou o primeiro ordenado em 'roupa'. A jovem 'assistente social desempregada', de 21 anos, chegou acompanhada de duas fotos pedidas pela agência: uma de rosto e outra de corpo. Ficou. A irmã mais velha também a acompanha. Já andou fardada de patins, apresentou mil produtos, participou em festas de empresas e clubes de futebol. 'Um dos eventos de que mais gostei foi a festa do Benfica na BBC. Os que custam mais são aqueles em que não tenho funções'. Mas acontece poucasvezes.'Aspessoas acham que somos jarras e só estamos ali para sorrir, mas na maioriadoseventostemos muitas tarefas para fazer: identificar oradores, promover as marcas, fazer bengaleiro, entregas de prémios, entre muitas outras dependendo do trabalho', defende Catarina.
JOGOS DO SPORTING
Michelle Silva,de 31anos, move-se na área como peixe na água: começou a ser hospedeira durante a faculdade 'para ter dinheiro para jantar em bons restauranteseviagenscom amigos' e a experiênciaacumulada tornou-a mais tarde coordenadora de hospedeiras. Consegue, por isso, avaliar as mudanças: 'na altura ganhava--se bem melhor do que agora. Uma hospedeira sem agência podia fazer 20 euros à hora'. Hoje, apesar de um emprego a tempo inteiro numa empresa de sistemas de informação, continua a trabalhar nos jogos do Sporting, onde começou em 2003, mas agora na coordenação das equipas de raparigas. 'As nossas hospedeiras têm de ter bom ar e serem, acima de tudo, simpáticas. Arrogantes é que não: tive uma que despejou uma imperial na cara de um homem depois de ele ter gabado o sorriso e isso é impensável'. A maturidade é essencial nestes e noutros eventos. Mas a imagem tem de dar uma ajudinha.
O HOSPEDEIRO JOGADOR DE BASQUETE
Ver rapazes hospedeiros em eventos ainda não é tão comum como ver raparigas na mesma função: a tendência é mais recente. Joel Barros tem 22 anos e concilia o curso de Engenharia Civil com a Springevents e com o basquete (é jogador e professor). 'Costumo fazer mais congressos e provas de degustação de vinhos', explica o jovem, que tem pena que a sua altura não lhe permita fazer mascotes – muito comuns nos rapazes por causa da estrutura física. Estacionar carros nos eventos também é quase exclusivo do sexo masculino. 'Os clientes não costumam querer raparigas a conduzir'.
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