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Estive um ano e meio no distrito do Tete no meio do mato. O medo das minas era uma constante e sofri várias emboscadas. Também participei na Operação Nó Górdio.
Cheguei a Moçambique a 8 de Agosto, a bordo do ‘Vera Cruz’, no dia em que, em Portugal, o meu pai foi a enterrar, depois de morrer num acidente de viação. Mas eu só soube volvidos dois meses. Passados 15 dias fomos para o mato, no distrito de Tete, 150 homens. O acampamento foi montado em Cangombe e durante seis meses dormimos em tendas e, mais tarde, em barracas de chapa. O inimigo nunca atacou o quartel, limitando-se a fazer emboscadas e a colocar minas, mas estava sempre por perto.
A nossa missão era fazer operações no Interior e ao longo do rio Capoche, um afluente do Zambeze, muito importante, porque servia para abastecimento de água. Estávamos no mato há dois meses quando fomos vítimas da primeira emboscada, junto ao rio, a 23 de Outubro de 1968, a 50 km do acampamento. Tínhamos acabado de almoçar e incendiámos o capim. Foi uma asneira, pois demos a nossa posição ao COREME, um grupo de libertação que actuava na zona. As rajadas de metralhadora – suponho que de Kalashnikov, porque eles estavam geralmente bem armados – começaram de repente, vindas de um cerro.
Ainda me lembro da capa de borracha do Joaquim, que seguia à minha frente, a ondular e a ser perfurada pelas balas. Por milagre, nenhum de nós foi atingido. Acabámos por os conseguir repelir e sobrevivemos. Mas, porque nos atirámos ao chão, sobre ‘feijão macaco’, sofremos os efeitos do seu pó irritante, que se infiltra na roupa e na pele. Coçámo-nos quase até fazer sangue e esfregámo-nos com areia molhada, antes de podermos retomar o caminho. Andámos perdidos e atrasámos a missão um dia, porque nos afastámos do rio. Por causa do fogo, a antena do rádio ficou queimada e não tínhamos como contactar a base. Os nossos camaradas ficaram aflitos e mandaram helicópteros à nossa procura. Só ao quinto dia, já perto do acampamento, é que conseguimos usar um outro rádio, o ‘banana’, de pequeno alcance, e dizer-lhes que estávamos bem. Tratou-se da minha primeira experiência de combate e acho que foi o dia que tive mais sorte na vida.
Mas sofremos mais emboscadas. Uma vez estávamos a guardar um aldeamento nativo e fomos atacados de longe. Ninguém ficou ferido, mas no outro pelotão, que esteve mais de uma hora debaixo de fogo inimigo, o Agostinho, de Quarteira, foi atingido num ombro. Noutra ocasião, estávamos a proteger a ponte Chitucula, que já fora destruída duas vezes pelos terroristas, e tivemos sorte: todos os dias, a uma dada hora, íamos buscar lenha para cozinhar e eles montaram minas perto. Só que nesse dia fomos mais tarde e quem apanhou com a mina foi outra companhia. Houve dois mortos, ficaram em pedaços. O medo das minas era uma constante. Em Junho ou Julho de 1969, o nosso furriel Oliveira ficou gravemente ferido nas pernas ao ser atingido por uma. Esteve dois anos no hospital. Dos nossos feridos foi o caso mais grave, se bem que o enfermeiro Aboboleira também foi alvo dos estilhaços de outra mina.
Fazíamos as missões a partir do acampamento de Cangombe, que construímos num cerro agreste, que tivemos de desbravar. Dali, lembro-me de tudo: de virmos do mato (só passado quase um ano é que fomos pela primeira vez à cidade), das picadas, de andarmos todos sujos e com as armas, as granadas e as G3. Dormia com as cartucheiras e as granadas a servirem de cabeceira, debaixo de um bocado de capim, sempre alerta. Dormíamos em sobressalto e, para o fim, já era a FRELIMO que nos atacava.
Estive em Tete ano e meio, sempre no mato. Depois fui para a Zambézia, três meses, e daí para a Namacha, no Sul, na fronteira com a Suazilândia. Este era um sítio muito bonito, com uma cascata, a que chamavam a 'Nova Sintra'. Nessa altura, quando estávamos quase no fim da comissão, a nossa companhia, chefiada pelo capitão miliciano Sider Santiago, foi chamada a participar na Operação Nó Górdio, a maior em África durante a Guerra Colonial, envolvendo sete mil homens.
Nós éramos a tropa mais antiga – uns cem, todos atiradores. O comandante do Batalhão, o tenente-coronel Rodrigo da Silveira, era o 2.º comandante da Nó Górdio, que tinha por objectivo destruir as bases do inimigo no Planalto dos Maconde, no Nordeste de Moçambique. Ainda antes da operação avançar no terreno – a 1 de Julho de 1970 –, fomos atacados duas vezes pela FRELIMO, no acampamento, com morteiros 82, superiores aos nossos. Alguns camaradas foram feridos, sem gravidade. Na véspera da operação, o comandante-chefe das Forças Armadas, general Kaúlza de Arriaga, que a concebeu, foi até lá de helicóptero e levou um litro de água gelada para cada um de nós. No dia seguinte fomos de helicóptero até ao cerco Norte. No ar vi outro heli ser atingido por uma rajada. Ia lá o Francisco da Silva Leal, do meu pelotão, que escapou ileso.
Durante a Operação Nó Górdio fomos emboscados em Gungunhana e noutro dos ataques o Teresa matou um inimigo e tivemos alguns feridos. Foi um mês de muita tensão, com bombardeamentos sucessivos. Quando terminou, a 6 de Agosto de 1970, 21 dos nossos combatentes tinham morrido. Depois fomos para Mueda, antes de regressar a casa, no navio ‘Niassa’.
Regressou para fazer parte da Câmara como vereador
Manuel Luís Arriegas Rocha, natural da Praia da Luz, foi 1.º cabo da Companhia de Cavalaria 2399. Partiu para Moçambique a 23 de Julho de 1968. Após dois anos de comissão, regressou e começou a trabalhar na construção civil, ocupação que exerceu até aos 55 anos. Reformou-se como encarregado-geral. Casou-se em 1972 e tem dois filhos, de 36 e 29 anos. Pertenceu à 1.ª Comissão Administrativa da Câmara de Lagoa, como vereador, a seguir ao 25 de Abril de 1974.
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