Os trajes não são os mais convencionais, mas elas vestem-lhes a pele. São Lolitas, estilo que nasceu no Japão nos anos 80 com traços vitorianos.
Os olhares alheios são de estranheza, espanto, interrogação, gozo, dedo em riste, mas os pais ficaram "aliviados" quando Filipa Neves, uma web designer de 22 anos, arrumou os trajes góticos no armário para vestir lolita, estilo alternativo que teve origem no Japão dos anos oitenta e que é influenciado pela moda vitoriana e rococó.
Já a mãe de Vitória Esteves, 21 anos, que arriscou a mesma radical troca de vestuário, "ficou chocadíssima com a mudança. O estilo lolita é o que põe mais à prova as pessoas. E é bizarro que sejamos insultadas até por quem veste roupa alternativa, como os emos" – uma outra tribo urbana. Na Escócia, onde está a tirar um mestrado em Jornalismo, garante que a liberdade de estilo é maior.
"As pessoas nem sequer reparam, é normal cada um vestir-se como quer". Os únicos fãs lusos da roupa que veste "são pessoas com mais de 70 anos. A minha avó adora, diz que tinha vestidos assim quando era nova". Gerações à parte, até os mais míopes se aperceberam do frenesim que atacou o Chiado, no centro de Lisboa, na tarde em que um grupo de lolitas se encontrou para tomar chá e dar dois dedos de prosa por entre os folhos, as rendas, os laços e as carteiras-coração. Poucas vezes a estátua do poeta Fernando Pessoa, habituada a dar colo atrás de colo, terá sido tão ignorada pelos transeuntes.
Nada que as tenha atrapalhado, acostumadas que estão a chamar a atenção pela roupa que vestem e os acessórios que as enfeitam. Mesmo que os mais afoitos arrisquem perguntar onde é o desfile de Carnaval, o casamento ou a comunhão para que se prepararam. Para Sílvia Neves, uma licenciada de 26 anos, "ser lolita é uma extensão da excentricidade". O seu guarda-roupa nunca albergou calças de ganga ou ténis.
"Sempre gostei de roupas femininas: Saias e sapatos elegantes. No dia-a-dia visto-me menos produzida mas ainda assim com uns toques de lolita", explica a mais antiga representante da comunidade de lolitas em Lisboa. Mafalda Carvalho, 20 anos, bateu o admirado recorde de um ano inteiro a vestir lolita. "Limpava a casa de lolita, cozinhava de lolita, nem que fosse para comer uma pizza vestia de lolita. Cheguei a ser elogiada por receber insultos todos os dias, inclusive uma vez à frente dos meus pais. Também fui perseguida no metro".
Mas desengane-se quem pense que foi a incompreensão de terceiros que a fez deixar de vestir o estilo diariamente. "No Verão estava muito calor e esta roupa não ajuda, usamos pelo menos duas saias e uns culottes". À época estival seguiu-se a urgência económica: "Sou estudante e, como precisava de dinheiro, tive de vender parte do meu armário. Guardei as peças mais especiais". Quando não veste lolita, a universitária opta "pelos anos 50, pin-up e retro". O estilo é caro, um vestido de marca em primeira mão pode custar 1000 euros e umas meias 30. "Os meus pais até acham piada ao facto de me vestir de lolita, ao preço nem tanto", graceja Ana Caramujo, uma portuense de 19 anos a estudar nas Caldas da Rainha. Carolina Ribeiro, da mesma idade, aproveita a mesada para investir em peças.
"Estou a poupar, agora só em Julho é que posso gastar mais dinheiro em roupa de lolita". Problema que a carteira de Inês Castelo, de 20 anos, também conhece. É comum a todas, ao contrário das convicções e ideologias pessoais. "Aquilo que nos une é o gosto por coisas elegantes e fofas", diz Inês, estudante de Arqueologia. "Para mim ser lolita não é uma forma de estar na vida, porque não deixo que a roupa defina aquilo que sou. Tal como ser gótica não significa matar galinhas, nem vestir à anos 50 significa que sou sexista: É apenas uma questão de moda". De estética, sublinha Filipa.
"Dentro da comunidade há todo o tipo de pessoas – os activistas, os conservadores, os radicais. Não há convicções político-ideológicas, há amor pela roupa. A nossa bíblia – a revista ‘Gothic and Lolita Byble’ – que é uma espécie de ‘Vogue’ comprada na internet, só dá regras de moda, não nos diz como viver nem o que pensar". Por muito que ao engano cheguem "miúdas mais novas que acham que vivemos como princesas, tocamos harpa e fazemos sabão". Só bebem chá. "E também não acreditamos em príncipes encantados", acrescenta Ana. O estilo pode parecer ingénuo, mas elas não.
REPRESENTANTE MASCULINO
Contam-se pelos dedos os representantes masculinos da comunidade de lolitas em Portugal – Bruno Matias é um deles. "E o único que veste mesmo roupa de marca", garante. Não fosse o desemprego que bateu à porta deste ex-operador de armazém, "comprava mais roupa e participava nos encontros em que elas bebem chá". Os rapazes que vestem lolita são chamados pelo subestilo que vestem: o dele é aristocrata. "Por influência da cultura japonesa, da música e da estética bonita".
NOTAS
COMPRAS
A fundadora da EGL abriu a única loja do estilo, no Porto. Importar do Japão e eBay são alternativas.
20 ANOS
A comunidade portuguesa (EGL) tem mais de 300 membros e uma média de idades de 20 anos.
ÍDOLOS
Inês Laranjeira, uma das cinco finalistas de ‘Ídolos’, veste roupa com inspiração lolita.
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