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As mulheres de Bill Gates

O homem mais rico do Mundo está a mudar a vida de desempregadas do têxtil do Vale do Ave. Elas estão a descobrir que sentadas à frente de um computador é possível ir onde quiserem.

29 de janeiro de 2006 às 00:00

Quem é Bill Gates? “É o dono da Microsoft e o homem mais rico do Mundo. Apareceu na revista dos mais ricos. Tem massa, que é o que nós não temos. E parece que tem uma mulher toda boa. Não sei se tem filhos, herdeiros. Sabemos que foi ele que patrocinou este curso, parece que costuma fazer isso; costuma dar... também se ele não dá, quem é que vai dar?!” As frases atropelam-se, saem presas umas nas outras das bocas das formandas sentadas em ‘u’ na sala de aula.

As suas cabeças espreitam entre os ecrãs dos computadores. Bill Gates entrou na vida destas mulheres, desempregadas da indústria têxtil e de vestuário do Vale do Ave. O nome do norte-americano com uma fortuna pessoal avaliada, segundo a ‘Forbes’, em 38,4 mil milhões de euros, que esta semana se encontra em Lisboa com José Sócrates, tornou-se mais trivial que o ‘enter’ do teclado que têm à frente.

A turma B está no intervalo da segunda lição, do segundo nível, do curso de TII - Tecnologia, Inovação e Iniciativa, inserido na parceria entre o CITEVE (Centro Tecnológico de Indústrias Têxtil e do Vestuário) e a Microsoft. Bill Gates investiu à cabeça 2,5 milhões de euros neste projecto gratuito de três anos para quase 4000 trabalhadores da indústria têxtil e do vestuário do Vale do Ave – todos eles são infoexcluídos porque não percebem nada de tecnologias de informação.

O primeiro nível, que terminou em meados deste mês, em Famalicão, avaliou a motivação de mais de centena e meia de candidatos. No total foram 15 horas que substituíram as entrevistas de aptidão. Só três não transitaram para a fase seguinte. Um arranjou emprego, os outros porque “mostraram uma grande aversão aos computadores”, diz Bárbara Soares, a monitora de adultos tão info-inocentes como bebés. “A esmagadora maioria nunca tinha estado em frente a um computador.”

Nesses primeiros dias, uma espécie de medo em manusear o rato, fazer trabalhar o computador – como se explodisse – foi arredada pela curiosidade do tamanho do universo, a Internet. “Acho que é por causa da televisão. Perguntei-lhes se sabiam o que era o ‘Sapo’ e lembraram-se todos da publicidade. Depois fui ao sítio do 118 da Portugal Telecom, mostrei-lhes a lista telefónica digital com o registo do número deles e foi um sucesso.”

A infoexclusão diminuiu um bocadinho quando o universo do gosto pessoal se encontrou com o Google. O casamento foi perfeito. “Disse-lhes para procurarem o cantor ou o grupo preferido, depois fui ver de quem andavam à procura. À medida que passava pelos ecrãs, lá estava o Tony Carreira.”

A maioria dos formandos do curso de Bill Gates é do sexo feminino. A indústria têxtil e do vestuário fabrica-se com mãos pequenas, pouco qualificadas. Por isso mesmo são as mulheres que engrossam os números do desemprego no Vale do Ave.

EX.MOS SENHOR e senhora Borges, lê--se num formulário de fax do computador. “Vou ensinar-vos a pôr o ‘mos’ superior à linha”, diz Bárbara Soares de pé, cortando com o corpo a projecção da imagem do desktop no quadro branco pendurado na parede.

Na sala do CITEVE, em Famalicão, Adosinda Silva está com problemas no ‘mos’. Com o rato, não consegue sublinhar logo à primeira as letras de maneira a fazê-las subir. E ri-se de si, da sua falta de jeito.

Adosinda ficou desempregada depois de 22 anos como controladora de qualidade subcontratada para a Irmãos Vila Nova, a popular marca de roupa Salsa. Era uma espécie de fiscal, verificava datas de entrega, etiquetas, se as linhas tinham a grossura padrão, se o bolso não ficava mais acima, o outro mais abaixo, e gostava do que fazia.

Nos últimos dois anos deslocalizar foi uma palavra moderna que se insinuou devagarinho até assumir proporções de tragédia grega, quando a empresa prescindiu há nove meses dos seus serviços. Chorou e muito. “Ou ia trabalhar para a China, para onde foi deslocalizada a produção, ou ia para a rua.” Foi-se a “vida boa” e, pela primeira vez, fez contas ao BI: “Tenho 36 anos, o 6.º ano de escola. E agora?”

A pergunta teve uma má resposta quando foi chamada para uma empresa local. Mesma profissão, outra vida, ficou lá um mês. “O horário era entre as 8 e as 23 horas. Não podia continuar, tenho três filhos.”

Adosinda diz que lhe dá vontade de rir esta coisa de não ter nascido ensinada para trabalhar com os computadores. Mas não desiste, vai aprender, der por onde der, mesmo que a realidade lhe tenha chegado em forma de pressentimento – “Acho que não é este curso que me vai trazer emprego.”

RODOLFO OLIVEIRA é o director para a área de Responsabilidade Social da Microsoft. Ele não tem dúvidas em dizer que “a formação ajuda a aumentar a apetência dos recursos humanos para a empregabilidade em geral e no têxtil, em particular.”

Na terra da crise, Famalicão, uma das cidades do Vale do Ave, o próprio CITEVE demonstra que alguma coisa está a mudar – 98% dos formandos dos cursos de formação específica em indústria do têxtil e do vestuário lá ministrados têm garantia de emprego.

O optimismo esvai-se quando os números do desemprego naquela região se referem, sobretudo a mão-de-obra não qualificada com mais de 40 anos. Em Janeiro de 2005 haviam 16 848 desempregados na indústria têxtil e do vestuário no Vale do Ave; 64 por cento eram mulheres.

Nesse mês, Vera Carneiro ainda não contribuía para as estatísticas. Começou a trabalhar aos 15 anos na linha da frente, na secção de corte, numa fábrica de produção de calças clássicas, a Rioverão. Um dia, no mês de Maio de 2005, tudo acabou. “Até nos perguntaram se queríamos tomar conta da fábrica.”

De baixa médica, Vera assistiu à distância a sucessão de acontecimentos: primeiro os trabalhadores montaram vigília nas instalações, para impedir que o património da firma desaparecesse no escuro da noite; depois voltaram-se para a Justiça, quando o patrão desapareceu de vez sem dar cavaco, sem pagar o que lhe competia. “Acabámos por levar as máquinas para a cave da casa de uma colega de trabalho, pedimos falência para ver se víamos alguma coisa mas, na primeira sessão do tribunal, ele nem apareceu.”

Depois de dez anos de trabalho, Vera diz que o dono da fábrica de calças clássicas lhe deve 20 mil euros. Não se arregala com a soma porque não conta com ela. O patrão pagava-lhe um ordenado de 500 euros – “pouco para a responsabilidade mas mais do que recebiam as colegas.” No último mês de trabalho, nem ela, nem as outras viram o que quer que fosse.

“Não contem comigo para regressar ao trabalho da confecção, só se não puder!!! Mas está tudo encaminhado, estou só à espera que me chamem da Tesco.” Aos 26 anos, Vera troca as voltas da tesoura nas calças clássicas pelo fabrico de peças de automóvel na fábrica da Trofa.

O AR TÍMIDO, CANSADO, de Carla Sofia Gomes desaparece. Ela já foi à Rádio Popular, aos hipermercados para ver as promoções e andou nas ofertas de emprego, tudo com um movimento de mãos, o suficiente para aceder à Internet. “Estou a adorar!”, desabafa com a exclamação direita do peito e um sorriso enorme.

Entre os 15 e os 25 anos foi brunidora na Falcon, em Braga; depois, uma redução de pessoal cortou os 400 trabalhadores pela metade. “Sabe o que é uma brunidora? É quem passa a ferro, depois há as prenseiras que é outra coisa. Elas prensam a roupa.”

O trabalho pesado acabou há três meses, veio embora com o que lhe puderam pagar, quatro mil euros, e o peso do ferro de engomar ainda a maçar o braço. “Até era uma empresa que pagava bem. Ou seja, recebia o ordenado mínimo mas depois havia os prémios, de assiduidade, por exemplo. Não há muitas empresas que dêem prémios.”

Com o sexto ano de escolaridade, Carla tenta fazer um ‘enter’ na vida para mudá-la para melhor. “Gostava muito de trabalhar no comércio e tenho-me inscrito mas nunca fui chamada; se calhar, é por causa da pouca escola que tenho.”

A literacia digital constitui “uma necessidade premente, não por ser garantia de empregabilidade, mas por constituir uma das ferramentas indispensáveis para cumprir esse mesmo objectivo e para poder, acima de tudo, aceder a toda a informação disponível na Internet.” Carla aprendeu sem perceber este palavreado dos info-incluídos da Microsoft.

Ela continua a gastar as pestanas nas contas que faz ao orçamento familiar – subsídio de desemprego mais ordenado do marido, mais um filho pequeno – mas já vai à rede mundial catar promoções para a sua vida em Famalicão.

AO FUNDO DA SALA de aulas do CITEVE está o cartaz de promoção do curso. Lê-se: “Vença o medo!” A foto mostra num chão um rato e uma mulher em cima de uma cadeira como se o utensílio informático fosse, de facto, o mamífero. Bárbara Soares diz que deu àqueles que não transitaram para o segundo nível de formação, uma lista de sítios de uso público e gratuito de Internet. “Alguns já me mandaram e-mail. É um sinal de que não foi em vão, mesmo para aqueles que ficaram com poucos conhecimentos.”

A seguir ao nível elementar da Turma B de Adosinda, Vera e Carla seguem-se dois outros, onde se aprende a lidar com bases de dados e média digital e, também, folha de cálculo.

“Reparem lá no vosso ecrã, está muito vazio. Não está?” Barbara Soares orienta as formandas na dança desordenada dos ratos sobre a mesa. No ecrã clicam a ordem que faz aparecer os ícones da Internet e da Reciclagem, que serve “para jogar fora o que está a mais no ambiente de trabalho.”

Maria Costa faz 40 anos para a semana. Trabalhava na empresa familiar que há cinco anos foi reciclada pela concorrência. Quando cessou a produção de sweat-shirts, t-shirts, pijamas e cuecas, a Costa Fernandes Lda tinha apenas oito dos 20 empregados que chegou a manter.

O tempo não lhe trouxe mais nenhuma oportunidade de trabalho. Maria teve mais um filho e ficou por casa. “Também se ganha, não gastando, ainda por cima com três filhos...” – uma evidência para quem as contas saem apertadas.

No desemprego aproveitou e fez a equivalência ao 9.º ano; faz agora o curso de Bill Gates. “Ele tem razão. Hoje em dia, quem não souber de computadores é analfabeto. Até para se trabalhar numa loja, é preciso. Mas se este curso fosse a pagar, não sei se viria.”

Segundo a Microsoft, esta iniciativa do americano é pioneira na Europa – nunca Bill Gates se tinha predisposto a ensinar computadores a operários, muito menos da indústria têxtil.

Em 2005, a revista ‘Time’ atribuiu ao casal Gates o título de bom samaritano. Segundo a ABC News, a fundação que gerem deu nos últimos cinco anos, aos países do Terceiro Mundo, 23 milhões de euros, tanto como o Produto Interno Bruto dos húngaros. A Microsoft vale 223 milhões de euros, sensivelmente o dobro do PIB português (145 milhões de euros).

Em Famalicão, Maria e as outras que tentam sair da info-exclusão, teclando os computadores novinhos em folha oferecidos pela Microsoft, não conseguem sequer imaginar quanto dinheiro estão naqueles milhões de Gates. “É muita massa, muito euro! Nem vale a pena pensar muito nisso.”

'MELHORAR A AUTO-ESTIMA'

ARRANJAR EMPREGO NÃO É O ÚNICO OBJECTIVO

O Correio de Domingo entrevistou Augusto Lima, Director de Formação do CITEVE - Centro Tecnológico das Indústrias Têxteis e Vestuário de Portugal.

- Como começou a parceria entre a Microsoft e o CITEVE?

- Foi uma iniciativa da Microsoft Portugal. Em Maio de 2005 contactou o CITEVE para que se delineasse uma ideia que tivesse de acordo com aquilo que são as preocupações de responsabilidade social da empresa. A Microsoft tinha percebido que uma das preocupações do País é o que fazer com tanto desempregado têxtil.

- Quais são as características do desempregado têxtil no Vale do Ave?

- É composto, sobretudo, por mulheres com mais de 45 anos com o 4.º e o 6.º ano. O curso está sobretudo destinado a este segmento mas acabou por receber desempregados do sector independentemente da idade e do sexo.

- É garantido que uma pessoa com 45 anos, que aprenda a lidar com computadores, encontra emprego?

- Não estamos só a agir na empregabilidade – sendo que um dos grandes objectivos do projecto é saber qual a taxa de regresso ao mercado de trabalho. Também queremos contribuir para a economia social, para que as pessoas possam além de arranjar ou criar emprego, melhorar a sua auto-estima e estar mais em sociedade.

- Onde está a decorrer este curso?

- Em Famalicão, primeiro, depois em Guimarães e Covilhã. Futuramente, ainda iremos para outro local ainda a designar.

DESEMPREGADAS E ALUNAS

“Pedimos falência para ver se víamos alguma coisa mas, na primeira sessão do tribunal, o nosso patrão nem sequer apareceu”, Vera Carneiro, 26 anos, ex-empregada de corte na Rioverão, desempregada há oito meses.

“Até para se trabalhar numa loja é preciso saber de computadores, mas se o curso não fosse gratuito não sei se podia vir”, Maria Costa, 39 anos, ex-encarregada numa empresa familiar, desempregada há cinco anos.

“Fui chamada para uma empresa mas só fiquei um mês. O horário era das 8 às 23 horas. Tenho três filhos, não podia lá continuar”, Adosinda Silva, 36 anos, ex-controladora de qualidade na Salsa, desempregada há nove meses.

“Na Internet já fui à página da Rádio Popular, às promoções nos hipermercados e às listas de oferta de emprego”, Carla Sofia Gomes, 26 anos, ex-brunidora na Falcon; desempregada há três meses.

DESEMPREGADOS DA INDÚSTRIA TÊXTIL E DE VESTUÁRIO NO VALE DO AVE

Na região do Vale do Ave, a maioria da população está empregada no sector secundário. Quando a crise começou na indústria, a taxa do desemprego disparou.

- Género: 10.861 mulheres e 5.987 homens.

- Idade: 10.752 igual ou mais de 45 anos, 5.306 entre 25 e 44 anos e 790 menos de 25 anos.

- Habilitações: 10.486 com 1.º ciclo, 3.140 com o 2.º ciclo, 1.110 com o 3.º ciclo, 654 com o secundário, 118 com superior e 1.376 sem habilitações.

- Tempo de inscrição no IEFP: 10.134 esperaram um ou mais anos e 6.714 aguardaram menos de um ano.

Fonte: Instituto de Emprego e Formação Profissional (dados referentes a Janeiro de 2005).

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