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O presidente da câmara Pediu fotos aos portuenses, mas primeiro deu o exemplo, com uma imagem tirada pelo seu trisavô Emílio Biel.
O ‘Tempo do Porto’ começou por ser simplesmente uma iniciativa da câmara municipal da Invicta, que desafiou todos os portuenses para o envio de fotos antigas da cidade e das suas gentes. Mas a primeira veio de um portuense muito especial: Emílio Biel, conhecido fotógrafo e editor de origem alemã que adotou o Porto aos 22 anos e lá viveu até ao fim dos seus dias. Deixou descendência, entre a qual se conta um trineto ilustre: Rui Moreira, o atual presidente do município, que deu o exemplo ao ceder uma imagem do imenso espólio do seu antepassado.
"Nunca cheguei a conhecê-lo, mas sei que ele interessava-se por tudo o que eram avanços tecnológicos da época. E também gostava muito de contar histórias através da fotografia. Veja- -se o caso da cobertura do caminho de ferro em Portugal. Adorava o Porto. A minha avó recordava que ele se identificava com a cidade, em particular com a luz da cidade", conta Rui Moreira, o atual presidente da Câmara Municipal do Porto.
Por isso, muitas das imagens de Biel são autênticos documentos do crescimento da cidade e das grandes obras de engenharia. Foi em 1885 que iniciou o levantamento documental e fotográfico da construção do caminho de ferro em Portugal assim como do Porto de Leixões em Matosinhos entre 1884 e 1892.
A primeira foto de ‘O Tempo do Porto’ é precisamente uma imagem da construção da ponte D. Luís, em 1885.
"O espólio do meu trisavô deveria ser gigantesco. Infelizmente, muito dele foi destruído quando a sua casa foi saqueada durante a I Guerra Mundial. As fotografias foram em grande parte destruídas", lamenta Rui Moreira.
Um alemão na corte
Mas além de fotógrafo competente, Emílio Biel era também "um homem extraordinário e muito à frente no seu tempo", lembra o trineto.
Nascido em 1838, em Amberg, na Alemanha, passou por Lisboa, mas fixou-se no Porto em 1860, mais concretamente no número 523 da rua da Alegria. Tinha apenas 22 anos e por lá se casou com a filha do cônsul alemão de quem teve uma filha. Ficou viúvo passados dois anos e não voltou a trocar alianças. Mas ainda assim teve mais três filhos que asseguraram o nome da família.
Em 1874 comprou a Casa Fritz (mais tarde conhecida por Casa Biel) na rua do Almada, casa comercial dedicada à fotografia, iniciando, assim, a sua carreira nesta arte. Mais tarde, a E. Biel & Cia passou para o Palácio do Conde do Bolhão, no nº 342 da rua Formosa.
Provavelmente por ser alemão, nacionalidade que partilhava com o rei D. Fernando II, marido de D. Maria II, e porque o monarca era igualmente um amante e protetor das artes, foi eleito fotógrafo da Casa Real. A sua presença na corte era, aliás, constante. Em resultado das suas frequentes viagens pelo País e do seu interesse pela fotografia paisagística, Biel editou, entre outras, uma obra de oito volumes – ‘A Arte e a Natureza em Portugal’.
Dedicou-se igualmente à edição livreira, sendo considerado um dos introdutores da fototipia – um processo mecânico de impressão fotográfica – em Portugal e teve várias casas tipográficas, nomeadamente na rua do Almada e na rua Formosa, junto ao Palácio do Bolhão. Como editor, publicou várias obras, incluindo uma edição de luxo conhecida pela sua elevada qualidade de ‘Os Lusíadas’, considerada uma raridade nos dias de hoje.
Mas Biel era um talentoso multifacetado e apaixonado por todas as inovações tecnológicas que despontavam no início do século passado. Muitas chegaram a Portugal pelas suas mãos: instalou a luz elétrica em Vila Real, foi administrador da Empresa das Águas do Gerês, conduziu o primeiro elétrico que ligou a Batalha a Devezas (Vila Nova de Gaia), introduziu a primeira instalação de luz elétrica no Porto e o primeiro telefone. Trouxe o primeiro fonógrafo para Portugal, assim como o primeiro aparelho de raios X! No entanto, era também um naturalista de extrema sensibilidade. A par deste interesse pela inovação tecnológica, Biel também se dedicou à coleção de borboletas, que se encontram no Museu de Zoologia da Universidade do Porto, e cuja coleção é considerada uma das maiores do Mundo. Mas não só. Entre 1862 e 1864 teve uma casa de venda de botões na rua da Alegria.
No início da Primeira Guerra Mundial, pouco antes de morrer, viu todos os seus bens serem confiscados devido à sua origem alemã. Morreu em 1915 com 77 anos, e está sepultado no Cemitério de Agramonte, tal como foi o seu desejo. A exposição ‘O Portugal de Emílio Biel’, que termina amanhã no Porto, assinalou os 100 anos da sua morte.
Deste trisavô fotógrafo, Rui Moreira herdou a mesma paixão: "Hoje em dia mais com iPhone… mas sempre me interessei e ainda há muita gente que me reconhece como alguém que andava de câmara fotográfica pela cidade", revela.
A iniciativa
Depois do arranque ao projeto ‘O Tempo do Porto’ dado pela imagem de Emílio Biel, só falta aos portuenses – e outros – partilharem as suas memórias fotográficas.
"A iniciativa visa sobretudo alimentar o sentimento de pertença dos portuenses, que já de si é enorme. Há muita gente que tem fotografias e postais guardados e que muitas vezes contam uma história que se vai perdendo de geração em geração, se ninguém, a dada altura, a registar ou preservar. Por isso lançámos este desafio e a resposta tem sido extraordinária. Os documentos que nos têm chegado são pedaços de história, alguns deles, desconhecida e agradecemos muito às pessoas que aceitem partilhar connosco", refere o presidente. "Não as queremos por nenhuma razão comercial ou para as usar de forma indiscriminada. Queremos, sobretudo, que as pessoas sintam que as preservaremos e, com isso, preservaremos um pouco da história do Porto, alguma dela menos conhecida", acrescenta.
O objetivo não é apenas procurar fotografias de paisagens ou monumentos da cidade, mas também fotos de família que, de alguma forma, ajudem a contar e a mostrar a história da cidade do Douro.
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