page view
Imagem promocional da micronovela
MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

“Ataque no Jimbe fez um morto e feriu oito”

A emboscada esteve montada para os ‘maçaricos' mas, por azar, fomos nós que passámos primeiro no local. Morreu o 1.º cabo Tadeu Jamungo.

21 de março de 2010 às 00:00

Acabei o meu curso de Operações Especiais nos Rangers de Lamego, em Julho de 1973, tendo desembarcado em Luanda em Setembro. Tinha 21 anos. Após três dias de ‘estadia' fui mandado para o Cavungo, no Leste de Angola, "quadradinho da morte", "terras do fim do mundo" e outros adjectivos mais sonantes. Todos davam palpites - todos no sentido de o Batalhão estar a ser massacrado, haver muitos mortos e feridos ou a minha companhia estar dizimada -, mas quando cheguei constatei que nem mortos ou feridos.

Era uma zona de infiltração do MPLA, que obrigava a especiais cuidados às incursões dos elementos desse movimento e, especialmente, às minas nas picadas. Estávamos em Setembro de 1973 e, com o decorrer da comissão, o Batalhão sofreu mortos e feridos, principalmente por efeito de minas. Mas também havia emboscadas sangrentas, como as que sofreram os Fuzileiros, no trajecto do seu destacamento, Chilombo, para o Cazombo, sede do Batalhão, ou uma outra sofrida por uma coluna de reabastecimentos perto de Teixeira de Sousa.

Posso falar perfeitamente da zona Caianda e Jimbe, que conhecia bem. Estive destacado no Jimbe durante seis meses e também na Caianda, diversas vezes, efectuando protecção aos trabalhadores das estradas (JAEA), que efectuavam a reparação da picada para o Jimbe. O Jimbe, assim como o Massibe, eram dois destacamentos que pertenciam à 3ª Companhia de Caçadores do BCAÇ 4212, sediada no Cavungo, cujo comandante de Companhia era o capitão Miliciano Carlos Alberto Piçarra - já falecido.

A chegada à nossa zona da Companhia 5044, em Julho de 1974 - que trazia novos soldados - foi igual a todas as chegadas de ‘maçaricos'. A viagem, o calor, o pó, a má alimentação, o cansaço, ninguém quer saber, o importante é a ‘praxe'. Tudo serve para lhes dar "as boas-vindas".

Como o seu destino final eram os destacamentos da Caianda e do Jimbe, coube-me a missão de levá-los ao seu destino, para substituição das guarnições lá destacadas, pessoal da minha companhia no Jimbe e na Caianda. Eram soldados que já havia terminado a sua comissão de serviço, pelo que nós ficámos a ser os ‘velhinhos' da zona.

Encontrando-me a efectuar mais uma operação de protecção aos trabalhadores da ‘JAEA', e estando relativamente perto do Jimbe, decidi, juntamente com quatro soldados, visitar o aquartelamento dos ‘maçaricos', ainda na primeira quinzena de Julho. Tudo correu bem, até porque o objectivo da visita não era de cortesia, mas sim ‘desviar' um cunhete de munições, o que foi conseguido, e também demonstrar aos ‘maçaricos' que não temíamos os turras.

Passados dois dias, tivemos de fazer uma coluna ao Jimbe. Foi então que sofremos uma violenta emboscada, que causou oito feridos e um morto - o 1º Cabo Tadeu Jamungo, natural da cidade angolana do Luso. Foi a única baixa que a 3ª Companhia sofreu durante aquele período. No mesmo ataque perderam-se armas G3, um rádio TR28 e a viatura Berliett foi incendiada.

Viemos depois a saber que a emboscada já estava montada quando por lá passei com os quatro soldados e o ataque só não foi accionado nessa altura por os combatentes inimigos suporem que éramos a primeira viatura de uma coluna que efectivamente não existia.

As populações destes destacamentos nunca foram hostilizadas pelos soldados portugueses, bem pelo contrário, recebiam todo o nosso apoio. Esta emboscada, naturalmente, era destinada aos ‘maçaricos', mas, por azar, fomos nós que passamos por lá primeiro.

Foi muito custoso para mim recordar certas passagens, muito embora, no cômputo geral, fossem mais as boas recordações do que as más. Senti a obrigação de contar a verdadeira história da, como ficou conhecida, "Emboscada do Jimbe", embora esta tivesse acontecido a 3 ou 4 km deste destacamento militar.

Era furriel miliciano quando regressei a Portugal, em Abril de 1975. Todos os anos nos encontramos, em diferentes pontos do País, celebrando a amizade que nos une. Na Guerra do Ultramar todos passámos por muita coisa, umas boas, outras más. Hoje só nos restam as amizades que lá fizemos e que ainda hoje perduram. Só quem por lá andou compreende esta união, camaradagem que existe entre nós, manifestada anualmente nos convívios que se realizam por todo o País, sempre no primeiro sábado de Junho.

"HÁ 15 ANOS QUE NOS REUNIMOS"

O melhor que resultou da guerra foram as amizades. Os antigos combatentes da Companhia de Caçadores 4212 reúnem-se ano após ano, em convívios realizados em vários pontos do País. "Há 15 anos que nos reunimos. Somos cerca de 60 pessoas, mas, juntando as mulheres e familiares, chegamos a juntar 120 pessoas", sublinha José Carlos Macedo, para quem a amizade é um valor absoluto: "Costumo dizer que na vida só escolhemos duas coisas, a mulher e os amigos". O próximo encontro está marcado para o primeiro sábado de Junho, em Fafe.

PERFIL

Nome: José Carlos Macedo

Comissão: Angola (1973/1975)

Actualidade: Tem 58 anos e é ourives em Braga. É casado e tem dois filhos

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Bom Dia

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8