Lilian partiu há quatro anos da Moldávia para Portugal sem saber uma única palavra de português. Hoje, é o melhor aluno da turma.
Na sala 13 da Escola EB.2.3. Ferreira de Castro, em Mem Martins, a professora Guiomar Palmeiro prepara o exame final de Português. Na aula de hoje, a turma do 9º F revê alguns cantos d’Os Lusíadas. “Quem é que quer ler?”, pergunta a páginas tantas. Entre os braços que rapidamente rumam ao céu, e se misturam com as estrelas, planetas e cometas que decoram as paredes, avista-se o de uma figura esguia. Responde pelo nome de Lilian, tem 15 anos e é moldavo.
Lilian Sandu prontifica-se a ler duas estrofes do Plano da História de Portugal. Sentado junto a uma das janelas, o aluno declama-as como um verdadeiro poeta. Parece que devora as palavras, sem nunca tropeçar nas vogais muito menos nas consoantes. A sua pronúncia é perfeita. Mas não é só a forma como recita o diálogo de Vasco da Gama com o Rei de Meireles que chama a atenção. O jovem destaca-se pela participação activa que demonstra ao longo da hora e meia de aula. Ora responde às questões colocadas pela professora, ora esclarece as dúvidas que traz de casa devidamente anotadas no caderno escolar. Não admira que esteja entre os melhores alunos da escola. Admira sim o facto de Lilian ser o melhor aluno a português quando é o único que não tem sangue lusitano.
ALUNO DE EXCEPÇÃO
Guiomar Palmeiro é professora há dezassete anos. Já lhe passaram muitos alunos pelas mãos mas nunca tinha visto um fenómeno assim. Curiosamente ficou a par da fama do Lilian ainda antes de leccionar a sua turma. Foi durante as conversas de corredor que os outros professores a alertaram para o bom desempenho “daquele aluno moldavo”. Mesmo assim preferiu ver para crer, e hoje não tem dúvidas: “De facto ele é mesmo bom”, sentencia.
Mas o que é que uma professora “muito exigente” entende por bom aluno? A resposta não se faz esperar:“É dotado de uma memória extraordinária, extremamente empenhado e cuja curiosidade conduz à constante aquisição de conhecimentos”, é assim que começa a desenrolar o novelo. Depois acrescenta. “ É muito participativo e as dúvidas que coloca vão muito além da matéria convencionalmente leccionada. Expressa-se correctamente, tanto oralmente como na escrita. Praticamente não faz erros ortográficos.”, adianta. Mas a professora coloca dois senãos. O primeiro é a nível da acentuação - “que na língua portuguesa é muito difícil e onde até nós portugueses nos confundimos”. O outro calcanhar de Aquiles do aluno moldavo situa-se no uso de determinantes. Mas os reparos ficam-se por aqui. “Ele é nesta escola um aluno de excepção, como julgo que seria em qualquer outra.” Palavra de professora.
Guiomar Palmeiro faz ainda questão de viajar ao passado para contar um episódio antigo. “Os alunos desta turma, são simpáticos e afáveis, mas não são de maneira nenhuma exemplares na disciplina de Português. Razão pela qual o Lilian aparece ainda com mais destaque”. As notas falam por si. “ No primeiro período, em 27 alunos houve 21 negativas. Fiquei chocada e extremamente aborrecida. Aproveitei uma reunião de professores para fazer precisamente esta comparação: se o Lilian consegue chegar a este patamar sem que esta seja a sua língua mãe os outros alunos também têm de conseguir.”
Os outros alunos melhoraram mas Lilian continua imparável.“Isso é uma hipérbole, não é stôra!?, “As estrofes 119 e 120 são mais pormenorizadas”, são alguns dos palavrões que o estudante moldavo atira aula adentro e que deixam a própria professora boquiaberta. “Se eu deixar, mais de metade da aula é para as intervenções do Lilian.”.
A MOLDÁVIA POR PORTUGAL
É num modesto T1 em Mem Martins que Lilian vive com os pais, Lilian Sandu, 35 anos, e Luminita Sandu, 36 anos, a irmã, Felícia Sandu, 9 anos, e um atrevido gato persa laranja, de nome Nutsu. Na ausência de uma sala de estar, a família costuma reunir-se no quarto de Lilian – Felícia dorme no quarto com os pais. A assoalhada resume-se a uma cama, uma televisão, um guarda-roupa, prateleiras com livros e bonecada, um portátil e um sofá. É um quarto típico de adolescente, não fosse o ‘Código Da Vinci’ de Dan Brown – versão portuguesa – a destoar na mesinha de cabeceira. “Nunca gostei muito de ler, mas de há uns tempos para cá tenho-me obrigado a fazê-lo de maneira a melhorar o meu vocabulário, para me exprimir melhor.” E já lhe está a tomar o gosto. A seguir ao ‘best-seller’ mundial do escritor norte-americano, vai debruçar-se no realismo do português Eça de Queiroz. “A professora emprestou-me. Estou curioso para conhecer a sua obra.”
A família Sandu trocou a Moldávia por Portugal há cerca de quatro anos à procura de melhores condições de vida. Para isso, Luminita, professora de primeiro ciclo, sujeita-se a trabalhar como empregada doméstica. Pior está Lilian, licenciado em Gestão, actualmente desempregado. Para atravessar este momento crítico, o casal agarra-se com unhas e dentes aos filhos que até agora só lhes têm dado motivos para sorrir. “Sentimos muito orgulho neles. Principalmente no Lilian por estar a passar aquela fase em que os miúdos têm tendência a meter-se em coisas que não devem. É um rapaz que não nos dá problemas alguns nesse sentido.”, afirma sem no entanto conseguir disfarçar a ponta de orgulho.
TUDO BONS ALUNOS
Mas se profissionalmente as coisas não correm pelo melhor, a outros níveis, regra geral, a adaptação em Portugal desta família moldava tem sido positiva. “Gostamos muito de estar cá. Já fizemos alguns amigos e tudo.” E a língua portuguesa nunca foi um obstáculo. “Eu já falo bem, a minha mulher nem tanto. Para a Felícia inicialmente foi complicado, mas agora ninguém a cala. Quanto ao Lilian acho que nunca teve grandes problemas”, diz sorrindo, sendo imediatamente acompanhado de uma gargalhada geral.
“Não acho o português uma língua difícil. No primeiro ano foi mais complicado porque não sabia nada. Entendia-me com os professores e com os colegas em inglês. Mas ao fim de quatro meses, lia, escrevia e falava em português. Inicialmente tive que estudar muito, mas depois habituei-me ao ritmo”, confidencia o jovem moldavo. O pai aproveita a onda de boa disposição para meio a sério, meio a brincar, puxar pelos seus genes. “É claro que também era bom aluno, se não tivesse sido, o Lilian também não seria”. A gargalhada repete-se e inunda o quarto de uma alegria contagiante.
ESTUDANTE DE MÉRITO
Pouco depois de aterrar em Portugal Lilian entrou no sexto ano para a Escola B. 1. Rainha D. Leonor de Lencastre, em São Marcos, Sintra. Não perdeu tempo com o ensino especial e começou logo ali a dar nas vistas. “A única coisa chata foi que apanhei logo uma altura de testes. Mas a directora de turma viu a minha situação e não contou com o primeiro período. No segundo, fiz os testes e obtive notas finais como todos os outros alunos.” Já na pauta de avaliação que remonta a esse ano saltam à vista os quatros e os cincos.
No ano seguinte, Lilian era transferido para a Escola EB.2,3. Ferreira de Castro. Volta a dar nas vistas - ao fim de um ano já constava do quadro de mérito da escola. Este é um quadro que é feito anualmente pelos professores e cujos critérios de escolha têm em conta as notas, o comportamento, o desempenho dos alunos em geral. No final do ano, normalmente no Dia da Escola, os estudantes seleccionados recebem um diploma e o nome deles é inscrito na lista de mérito. Este ano, o nome de Lilian vai integrar o quadro pelo terceiro ano consecutivo. A situação não aquece nem arrefece o jovem adolescente. “Não sinto nada de especial. Acho que toda a gente, se quisesse, podia ser tão bom ou melhor do que eu. Muitas vezes as pessoas não querem é aplicar-se”, diz humildemente. O segredo do seu sucesso é simples: “fazer os trabalhos de casa”. Justifica: “É a única maneira de podermos chegar a determinada dúvida e podermos esclarecê-la na aula”. Negativas jamais fizeram parte do seu vocabulário. Contudo recusa o título de marrão. “Acho que se pode fazer um bocadinho de tudo e mesmo assim ser bom. Desde que queiramos tudo é possível.”
Muitas vezes Lilian é abordado pelos colegas que o procuram para pedir ajuda com determinadas matérias. Mas enquanto uns aproveitam as explicações para melhorar os resultados, outros não tiram qualquer proveito disso. De acordo com Lilian, isso acontece apenas e só porque “eles não se esforçam nada”. E acrescenta: “Os meus colegas ficaram foi todos entusiasmados com esta ideia da entrevista, mais até do que eu.”. E não é para menos. Esta já não é a primeira vez que o jovem é a estrela da companhia. Quem o diz, são os pais babados que não deixam passar a oportunidade sem dar conta de todos os seus dotes. “Ele já deu uma entrevista por causa de umas pinturas que fazia e ganhou um prémio”, diz a mãe. “Costumava fazer umas pinturas a óleo lá na Moldávia. Mas agora já me deixei disso, não tenho muito tempo. Uma vez participei num concurso regional onde tínhamos que retratar a toxicodependência e consegui o primeiro lugar”, desenvolve Lilian, que hoje não se mostra nada arrependido de ter deixado para trás um futuro promissor como pintor. “Abdiquei disso mas aprendi uma língua nova e muitas outras coisas. Não fico assim tão triste”, desdramatiza.
O FUTURO NA INFORMÁTICA
Nos tempos livres, o jovem aproveita para jogar futebol com os amigos. “São poucos, mas bons”, esclarece. Dedica também algum tempo a navegar no computador, uma paixão que o acompanha desde muito novo. Tanto é que Lilian traça nos seus horizontes uma possível carreira como engenheiro informático. “Ou isso ou medicina. Gosto muito de ciências, mas também gosto muito de tudo o que tenha a ver com computadores.” Outro dos seus prazeres é precisamente aprender línguas novas - fala romeno, russo, inglês, português. Não contente com este invejável currículo já está a iniciar-se no francês. Curiosamente, na escola não são essas as suas disciplinas de eleição. “Prefiro matemática, físico-química. Ciências!”.
Num futuro mais próximo existe a possibilidade de Lilian ingressar na escola Carlucci American International School de Lisboa. Isto se conseguir uma bolsa de Estudo de Mérito que vai ser atribuída a alguns alunos do concelho de Sintra. “Candidatei-me incentivado pela minha stôra de inglês. Gostava de entrar. Era muito bom.”
Será muito provavelmente mais uma batalha na sua ainda curta história de vida.Uma batalha que espera vencer. Com quinze anos já reúne uma mão cheia de êxitos para contar aos netinhos. A professora de português, Guiomar Palmeiro não tem dúvidas que Lilian não se ficará por aqui e que ainda vai dar que falar “Este miúdo vai fazer um brilharete”.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.