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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

CARLITOS: AS PESSOAS ESTÃO MUITO MAIS TRISTES

Há mais de 60 anos que o palhaço Carlitos anda a fazer rir Portugal. Mas a sua vida está longe de ser um mar de alegria. Sempre em viagem com o circo, não teve oportunidade de se despedir do pai e nunca acompanhou a mulher à maternidade. São os ossos do ofício, porque o espectáculo não pode parar.

20 de dezembro de 2002 às 17:00

O Carlitos é palhaço há mais de 60 anos. É a paixão pelo circo que ainda o faz levantar-se todos os dias, de manhã?

Eu nasci no circo. Não literalmente (risos). Nasci em casa do meu avô, mas com quatro anos já andava no circo. O meu pai era palhaço, eu sou palhaço e o meu filho também é palhaço. E tenho um neto que, se calhar, será palhaço. Isto é uma vida que dificilmente se esquece e para se andar aqui há tanto tempo, tem que se gostar muito da profissão.

Nunca lhe passou pela cabeça largar esta vida? Escolher uma profissão ‘normal’?

Há muitos anos, durante uma ‘tour’ pelo continente africano, houve um senhor que me pediu para eu ficar lá como secretário particular. Ele dedicava-se ao negócio do café, mas como não sabia ler nem escrever precisava de alguém de confiança que o ajudasse nas contas. Naquela altura fez-me uma boa proposta (mais do dobro do que eu ganhava no circo) mas acabei por dizer que não. A minha vida é o circo.

Mas que “segredos” esconde o circo, para o prender dessa maneira?

Não lhe sei explicar o que é, mas o circo tem um “bichinho” que nos obriga a entrar na pista enquanto vamos tendo saúde. É ali que me sinto bem. É a fazer de palhaço que quero acabar os meus dias. Se bem que a vida de um palhaço não é só alegrias.

Como é que se consegue entrar na pista, pronto para fazer rir, e às vezes a “chorar por dentro”?

Um palhaço tem de pôr os problemas para trás das costas e concentrar-se no seu trabalho, que é fazer rir. Já trabalhei com dores de cabeça horríveis, mas a minha obrigação é fazer um bom espectáculo e divertir as pessoas. Na minha idade, as dores de coluna já não perdoam e dificultam-me a “vida” num número em que tenho de apanhar um chapéu no ar. Mas nem sempre o consigo fazer. A vantagem é que o público não se apercebe desses pormenores, e até julga que faz parte do número cómico.

Que conselhos é que o seu pai lhe passou, e que o Carlitos fez questão de transmitir ao seu filho mais velho, que hoje trabalha consigo?

Em primeiro lugar, ensinou-me a respeitar o público, que paga o seu bilhete e não quer sair do espectáculo defraudado. Em segundo lugar, temos de ter respeito por nós próprios. Só assim seremos bons profissionais.

Ficou contente por ver o seu filho seguir as suas pisadas, ou gostava de que ele tivesse escolhido outra profissão?

Foi a maior alegria que tive. Não desfazendo, o meu filho é o melhor “cara branca” que anda aí. Tem figura, sabe falar e toca música. Foi em Espanha que começou a trabalhar comigo, porque tive um conflito com um palhaço que trabalhava ao meu lado e acabei por ir buscar o meu filho, de emergência. O Carlos já andava a ensaiar umas coisas, por isso quando entrou na pista portou-se lindamente. Até hoje.

Que balanço é que faz destes 60 anos de circo? O espectáculo mudou muito?

Não me parece que o circo tenha mudado muito. O público é que está diferente. Mais exigente, talvez. Antigamente, ia-se mais ao circo porque havia escassez de espectáculos. Agora, há tantas opções que o circo acabou por “ficar para trás”. Mas enquanto houverem crianças no mundo, o circo não pode morrer. Não trocava esta vida por nada.

Nos dias que correm, os pais é que parecem não ter muitos motivos para sorrir. Está mais difícil arrancar uma gargalhada?

As pessoas estão mais tristes, o que é natural, tendo em conta que estamos a atravessar um período complicado. Às vezes até fazemos piadas que divertem os pais – no outro dia era sobre o Santana Lopes e o casino do Parque Mayer – mas aqui no Coliseu pediram-nos para não voltarmos a fazê-lo.

Ainda se lembra das primeiras impressões que teve do circo, mal começou a trabalhar?

Só tenho boas recordações. Comecei por fazer vários números, mas o palhaço foi sempre a minha verdadeira paixão. Não sei fazer outra coisa, só sei trabalhar como palhaço. E tudo o que sei aprendi com o meu pai, um aficcionado do circo, que trabalhou muito ao longo da vida. Nessa altura, a escolha do meu pai não foi muito bem recebida pelo meu avô, um sargento da Marinha. Mas aos poucos, ele soube mostrar que era um palhaço com muito talento. Chegou mesmo a montar um circo familiar...

Foi nessa altura que o Carlitos teve a primeira oportunidade de fazer de palhaço?

Eu e a minha irmã fazíamos vários números de circo. Ela é mais velha do que eu e agora já está retirada. Em miúdo, aventurei-me no trapézio – e até fiz números excêntricos – sempre à espera de uma oportunidade. Um dia, quando tinha 10 anos, fui trabalhar ao lado do meu pai.

Pelos vistos, correu-lhe bem. Nunca mais quis outra coisa...

É verdade. Já tenho 74 anos e ainda gosto de fazer de palhaço. Não trocava esta vida por nada deste mundo. Mal oiço as palmas, parece que estou no “céu”. E ainda me recordo desse primeiro dia como se fosse hoje.

Mas dos nervos já se esqueceu...

Nada disso, lembro-me muito bem porque ainda hoje fico nervoso quando estou à espera de entrar na pista. Na minha opinião, “um artista que é artista” enfrenta sempre o público com um nervoso miudinho. Mas assim que começa o espectáculo e sentimos os aplausos, esquecemo-nos de tudo. Mas há para aí muita gente que vai para o palco sem responsabilidade nenhuma, e por isso não deve sofrer tanto como eu.

São pessoas que não levam a profissão a sério?

Há quem julgue que fazer de palhaço não dá trabalho, mas é mentira. Ensaiamos e estudamos muito, porque há piadas que só resultam se forem bem trabalhadas. Mas há palhaços que só fazem aqueles números que estão dentro do programa. Eu não, eu gosto de trabalhar à base do improviso. Sempre que chegamos a uma terra, faço questão de aprender algumas piadas locais para enriquecer o espectáculo. E também aproveito para fazer piadas políticas.

Sempre gostou do imprevisto ou foi adquirindo estas técnicas com o tempo?

Quando era pequeno diziam-me sempre que tinha o dom da palavra. Mas ao longo dos anos fui tendo mais consciência com o que se pode, ou não, brincar. Não posso chegar ali e dizer “baboseiras”, porque tenho que pensar que há muitas crianças na plateia que me estão a ouvir. Para não ofender o público, o melhor é pensar quatro ou cinco vezes antes de abrir a boca. Assim, não sai tanta asneira (risos).

Foi por ser mais “brincalhão”, que escolheu fazer de palhaço pobre?

O palhaço “rico”, também conhecido como “cara branca”, tem de ser mais inteligente e “fino”. Só que eu tenho mais jeito para o “tosco”. Ele sabe tanto como o outro, mas faz mais “palhaçadas”. E é ele quem diverte mais o público.

E para que público prefere trabalhar?

Para o povo. Ou para o público da geral, como nós costumamos chamar. Às vezes, quando temos de fazer espectáculos para as empresas, não somos tão bem recebidos por aquele público mais intelectual, que não acha piada aos palhaços... E nós ainda temos de mostrar um sorriso...

Ossos do ofício. E se pudesse dizer-lhes o que pensa?

Se essas pessoas um dia tivessem de fazer de palhaço, talvez dessem valor a esta profissão. Sabe, são pessoas que nunca tiveram privações, por isso julgam-se superiores. Mas nós até já trabalhámos na Assembleia da República.

“VOU ALI TER UM FILHO. JÁ VENHO!”

O circo está mais associado à época natalícia. Como é que se sobrevive nos restantes 11 meses do ano?

Felizmente temos um circo familiar, a Circolândia, que durante todo o ano faz espectáculos. É o nosso meio de subsistência. Só temos férias em Janeiro, pois começamos logo a trabalhar em Fevereiro e só paramos no final do ano. É uma vida muito dura.

E hoje, vive-se melhor?

Antigamente, havia mais dificuldades. Como a nossa vida era passada a viajar, de região em região, para ir à escola era um problema. O meu pai chegou a contratar um músico que tinha a escolaridade já feita para que eu e a minha irmã estudássemos. Nessa altura, também não tínhamos “roulottes”, por isso íamos bater às portas das pessoas para nos darem abrigo. A vida progrediu um bocadinho, mas há muitas coisas que ainda estão mal.

O Estado continua a esquecer-se do circo. Dá subsídios ao teatro, ao cinema e à cultura em geral, mas o circo não recebe um tostão.

O Carlitos passou a sua vida na ‘estrada’. Conseguiu fixar residência ou viveu sempre no circo?

Tenho uma casa em Corroios, mas só lá vou 15 dias por ano. Às vezes nem chega a uma semana. Esta foi sempre a minha vida. A ‘roulotte’ é a minha casa, e é lá que me sinto bem. Ao fim de uns dias de estar em Corroios já estou farto, só me apetece sair e começar a trabalhar. O meu pai reformou-se aos 65 anos e foi para casa. Pouco tempo depois, com o desgosto de ter deixado a profissão, acabou por morrer.

Quando isso aconteceu, estava a trabalhar?

Soube da notícia em Barcelona, onde estava com um circo estrangeiro. Vim para o funeral mas tive que regressar logo e continuar a trabalhar. O espectáculo não pode parar.

Ainda se recorda do seu estado de espírito minutos antes de entrar na pista?

Não lhe sei responder. É indiscritível. Mas depois de entrar, esquecemo-nos de tudo, já nem nos lembramos que acabámos de enterrar um pai.

Nessa altura, tinha sido mais fácil fazer chorar do que rir...

Um bom palhaço também sabe comover o público. Não é tão usual, mas também se consegue. Claro que a seguir temos logo que fazer rir, porque é isso que o público espera de nós.

Quando se está a maquilhar, vai dando vida ao palhaço Carlitos. E no final do espectáculo, quando retira a pintura, é uma pessoa diferente?

Depois de tirar a maquilhagem, já não sou o palhaço Carlitos. Sou apenas o Carlos Carvalho. Mas as duas pessoas são iguais. O Carlos não podia ser convencido nem pedante. Ficava mal.

Foi fácil conciliar a vida familiar com a profissão

A minha mulher também trabalhava no circo, era contorcionista. Conheci-a quando tinha 25 anos e casámos seis anos depois. Na altura, já tinha tido namoradas fora do circo, mas elas queriam todas que eu casasse e largasse esta vida. Só que eu não estava para isso (risos). O meu maior sonho era ter a família a trabalhar no circo. E consegui.

Não me diga que também estava a trabalhar quando a sua mulher deu à luz?

Pois estava! Quando nasceu a minha filha, Linda Maria, a minha mulher foi para a maternidade e eu tive de continuar com o circo, que nessa altura estava em Évora. Com o meu filho Carlos, a cena repetiu-se. Só a cidade é que mudou, porque ele nasceu no Porto. Estas histórias fazem parte da vida artística. Há mulheres que trabalham no circo até aos sete ou oito meses de gravidez. E quando chega a altura, dizem que vão ter um filho e já voltam (risos). Às vezes, oito dias depois já estão a ensaiar outra vez!

Se o convidassem para apresentar um programa de televisão como o “Batatoon”, aceitava?

Sempre tinha uma vida mais calma... A verdade é que esse programa veio dar mais prestígio aos palhaços. Por acaso, até sou amigo do “Batatinha”, que já me convidou para eu ir lá. Mas até agora não aceitei. A televisão paga muito pouco. Agora, se me tivessem convidado para apresentar um programa desses, claro que aceitava.

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