A 15 de Abril de 1912, o 'Titanic' naufragou no Oceano Atlântico. Entre as 1500 vítimas havia quatro passageiros portugueses.
Sentado num banco de madeira e rodeado das pessoas mais importantes do seu país, Cyril Quigley recordou a infância. Tinha quatro anos quando se juntou a uma multidão de 100 mil pessoas no porto de Belfast. A 31 de Maio de 1911, os irlandeses foram ver o lançamento à água do navio que era então o maior colosso que o Homem alguma vez tinha fabricado. Quase um ano depois, a 2 de Abril de 1912, o ‘Titanic' partiu para Inglaterra, onde o paquete de luxo iniciaria a sua primeira e última viagem.
Cyril tem 105 anos é a última pessoa viva a ter visto o gigante dos mares. E foi por isso que o homem mais velho da capital da Irlanda do Norte foi o convidado de honra da inauguração do Titanic Belfast, o museu que abriu no último dia 31 de Março. "Parece a Ópera de Sydney", comentou o irlandês sobre o edifício, coberto com placas metálicas e cuja fachada se assemelha à proa do navio que pretende homenagear. Lá dentro, a exposição mostra tudo sobre o navio, desde artefactos reais retirados do fundo do mar a sofisticados mapas e diagramas que transportam o visitante para uma viagem com 100 anos.
O museu de Belfast não é o único a lembrar a tragédia. Na próxima terça-feira, 10 de Abril, data em que se completam 100 anos da partida do ‘Titanic' do porto de Southampton, a cidade do sul de Inglaterra inaugura também um museu. Dedicado ao navio e, sobretudo, aos mais de 500 cidadãos da cidade - quase todos membros da tripulação - que perderam a vida nas águas geladas do oceano Atlântico, quando um icebergue provou o impensável - o navio ‘inafundável' era, afinal, tão frágil como qualquer outro barco em confronto com a fúria da Natureza.
Avisos ignorados
Não foi por falta de avisos que o navio naufragou. Há dois dias que os navios que se cruzavam com o paquete britânico faziam avisos sobre a presença de gelo nos mares. Os operadores de rádio do ‘Titanic' chegaram até a dizer aos colegas do ‘Californian' que se calassem, porque os seus avisos insistentes estavam a obstruir as comunicações dos passageiros a bordo para os países de origem e para o destino da viagem, a cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. O capitão Edward John Smith era um homem experimentado, mas já tinha vivido maus momentos com grandes navios. Dois anos antes, fez chocar o ‘Olympic', navio da mesma classe do ‘Titanic', com outro navio num porto americano, um acidente que até provocou atrasos na construção do ‘Titanic', uma vez que os operários tiveram de ser desviados para os reparos no ‘Olympic'. Era um primeiro sinal de que estes colossos dos mares não conseguiam manobrar em tempo útil para evitar um perigo imprevisto no mar.
Outro caso demonstrou a vulnerabilidade do ‘Titanic'. À saída de Southampton, a 10 de Abril de 1912, foi por um triz que se evitou um choque com um navio ancorado no porto. A sorte tem destas coisas - se o acidente tivesse acontecido, era provável que a viagem nunca se tivesse realizado.
Festa interrompida
Naquela noite de 14 de Abril, já em pleno Atlântico, o capitão juntou-se à festa que decorria na sala de jantar da primeira classe. Ali, os passageiros mais abastados deliciavam-se com um menu de 10 pratos, que incluía ostras, consommé olga, filet mignon, ovos à l'argenteuil, costeleta de carneiro, salmão com molho mousseline, camarão, anchovas norueguesas, sardinhas simples ou fumadas, rosbife, linguiça bolonhesa e vários tipos de queijos. Um dos raros menus que sobreviveram foi vendido na semana passada em leilão. Um coleccionador privado pagou 92 mil euros pelo pedaço de papel que mostra o luxo em que se vivia a bordo. Pouco antes das nove da noite, o capitão Smith passou pela ponte. Discutiu as condições de navegação com o segundo-oficial e retirou-se para o seu quarto, que ficava próximo do centro de comando do navio. Pediu para ser chamado "se a situação se tornasse duvidosa".
Mas não houve tempo para dúvidas. Vinte minutos antes da meia-noite, um dos vigias avista a montanha de gelo flutuante. Tocam os sinos de alarme, a ponte é informada pelo telefone. Comandava o navio o primeiro-oficial William Murdoch, que ordena todas as manobras possíveis para evitar o embate. Não consegue. O choque com o icebergue rasga o casco do navio titânico como se este fosse feito de papel. A água inunda seis dos compartimentos-estanque. Duas horas e meia depois, o ‘Titanic' passa a fazer parte da história pelos piores motivos.
Para agravar ainda mais a situação a bordo, a tripulação rapidamente se apercebe de que só havia salva-vidas para um terço das pessoas a bordo. Os botes tinham sido retirados pela mais fútil das razões - considerou-se que os salva-vidas prejudicavam a elegância do navio, que era afinal um paquete de luxo. Em resultado deste gesto, apenas 710 passageiros conseguiram lugar nos salva-vidas e chegar ao navio ‘Carpathia', que recolheu todos os que estavam nos botes. Dada a baixa temperatura da água, raros foram os que conseguiram ser retirados vivos do mar pelos salva-vidas.
O capitão e a maior parte da tripulação morreram com o navio. Smith retirou-se para a ponte e morreu no seu posto. Thomas Andrews, o arquitecto que desenhou o ‘Titanic', foi visto pela última vez a fumar na sala da primeira classe, olhando o vazio. Salvou-se Joseph Bruce Ismay, dono da companhia proprietária do navio, a White Star. Mas as acusações de cobardia de que foi alvo pela imprensa inglesa e americana arrasaram--lhe a reputação. Nunca recuperou o bom-nome. O herói daquela madrugada foi Arthur Rostron, comandante do ‘Carpathia'. Mal recebeu o pedido de socorro do ‘Titanic', manobrou a todo o vapor em direcção ao navio. Chegou por volta das 04h00 e recolheu os mais de 700 sobreviventes.
Portugueses a bordo
Entre os 2222 passageiros e tripulação havia quatro portugueses. Segundo o site encyclopedia-titanica.org, que compila exaustivamente dados e biografias de todos os que estavam a bordo, três deles eram madeirenses. José Neto Jardim, de 21 anos, era natural da freguesia da Calheta, na Madeira. Pagou as sete libras do bilhete por uma viagem que prometia mudar--lhe a vida. Queria desembarcar em Nova Iorque para começar uma novo futuro na América, a terra prometida, onde depois planeava receber a mulher e a filha. Outros dois amigos madeirenses imitavam-lhe as intenções: Manuel Gonçalves Estanislau, de 38 anos, deixou na Calheta a mulher e cinco filhos. Emigrava para poder sustentar a família. O terceiro amigo, natural da Ponta do Sol, era Domingos Fernando Coelho. Tinha 20 anos e era solteiro. Os três madeirenses viajavam em terceira classe, a que tinha bilhetes mais baratos. Não tiveram meio de chegar aos salva-vidas. Até porque, devido às restrições da lei americana de imigração, os passageiros de terceira classe eram mantidos separados das classes superiores. Teriam de ser submetidos a exames médicos à chegada à América, na ilha de Ellis. Os portões que os separavam do luxo da primeira e segunda classes transformaram--se numa armadilha mortal. Das 710 pessoas da terceira classe, apenas 178 sobreviveram.
A mesma triste sorte teve o quarto português a bordo. José Joaquim de Brito, de 32 anos, que viajava em segunda classe. Radicado em Londres, pouco se sabe sobre a sua vida. A morte é mais fácil de precisar - morreu na madrugada de 15 de Junho de 1912. A última sobrevivente do ‘Titanic' morreu em 2009. A inglesa Millvina Dean era uma bebé de apenas nove semanas quando o navio foi ao fundo. Só soube que tinha estado no ‘Titanic' aos oito anos de idade. Escapou com a mãe, mas o pai, Bertram Frank Dean, não conseguiu lugar nos salva-vidas. Foi vítima do velho lema dos salvamentos marítimos: ‘mulheres e crianças primeiro'.
Mausoléu no mar
O naufrágio partiu o ‘Titanic' em dois. Proa e popa jazem no fundo do mar, separadas por 600 metros de distância. Os destroços do navio foram encontrados em 1985 e desde então têm-se realizado diversas expedições ao local, com recurso a robôs submarinos. Foram retirados mais de cinco mil artefactos, hoje espalhados por museus e colecções particulares em várias partes do Mundo, mas os especialistas discutem qual o melhor destino a dar aos destroços. Até porque se trata do mausoléu das mais de 1500 vítimas mortais do naufrágio.
O ‘Titanic' repousa a uma profundidade de 3800 metros, num ambiente de águas muito frias e escuridão. À partida, seria o local ideal para garantir a sua preservação, mas há outros factores a ter em conta. Nos últimos anos foram detectadas bactérias que estão a devorar o aço. Suspeita-se que estas bactérias tenham chegado ao local por via do lixo que é deitado ao mar pelos navios que fazem esta rota, pelo que foi criada uma zona de exclusão de largada de detritos em redor do local.
Robert Ballard, líder da expedição que descobriu o navio em 1985, explicou ao ‘USA Today' outro risco sério: "Não há leis internacionais. O navio está no fundo do mar e qualquer pessoa pode lá chegar. Basta ter a tecnologia. Notam-se danos causados pelos submarinos e muitos objectos foram retirados. É preciso proteger o ‘Titanic'".
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