Columbano Bordalo Pinheiro não é só a avenida de Lisboa que desemboca na Praça de Espanha. Quem deu o nome à avenida foi um dos maiores pintores portugueses, conhecido principalmente pelos retratos – reproduz-se nesta página o que, no fim da vida, fez de si mesmo – e representações de cenas da vida da burguesia lisboeta. Era, segundo deixou escrito o escultor Diogo Macedo, “misantropo, fechado em si mesmo, dado a análises exaustivas e a dissecações cruéis. Teve apenas um grande amor - a pintura”. Columbano Bordalo Pinheiro nasceu há 150 anos, efeméride que o Museu do Chiado (rua Serpa Pinto, n.º4) celebra inaugurando, na próxima quinta-feira, dia 15, uma exposição de 68 pinturas e 22 desenhos do mestre
Tais obras pertencem, na sua maioria, à colecção do Museu do Chiado e, em menor número, a colecções públicas e privadas. É este o caso de ‘O Serão’, vendido por 310 mil euros, o valor mais elevado de um quadro em Portugal, a um coleccionador anónimo, disposto a cedê-lo para exposições.
A do Museu do Chiado – que vai prolongar-se até 27 de Maio e pode ser visitada de terça a domingo, entre as 10h00 e as 18h00 – organiza-se em oito núcleos: ‘Formação’, ‘Pintor da vida pequeno-burguesa’, ‘Paris’, ‘A pintura moderna’, ‘Um inventário dos espíritos’, ‘Ao correr do tempo’, ‘Pintura de história’ e ‘Desenhar para a pintura’. O que o público agora poderá ver produziu-o Columbano entre 1874 e 1900. O que ocupou o artista entre 1900 e 1929, ano da sua morte, – desenhar a bandeira nacional, por exemplo – será mostrado em 2010, no âmbito das comemorações do centenário da República.
O curador da presente exposição, Pedro Lapa, não tem dúvidas: a obra de Columbano “define um percurso único e talvez o mais profundo pelos caminhos iniciais da arte moderna em Portugal”. Mais: “Columbano foi desde o começo um artista de ofício superior a qualquer outro, interessado em desenvolver uma prática artística informada nas questões do seu tempo.” Tendo abordado a realidade numa perspectiva naturalista, é comparável, na pintura, a Eça de Queiroz na prosa e a Cesário Verde na poesia.
“Inicialmente, pintou cenas da vida burguesa com uma profunda ironia, mas foi no retrato que atingiu plena expressão”, observa Pedro Lapa. No retrato, o artista “desenvolveu uma técnica própria de construção da figura através de manchas espessas e de contornos indefinidos, que se afastavam por vezes do naturalismo mais óbvio”.
Os retratados, principalmente intelectuais, incluem Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Teófilo Braga e o irmão de Columbano, o caricaturista, Rafael Bordalo Pinheiro, pai do Zé Povinho. Mas, seja pela luz que lhe incide na fronte ou pela expressão de despedida no olhar, o mais famoso retrato é o de Antero de Quental [canto superior esquerdo da página]. O poeta açoriano gostou tanto do quadro que o autor acabou por oferecer-lho. Antero de Quental, um dos “vencidos da vida” da Geração de 70, matou-se dois anos depois.
UM HOMEM POUCO SOCIÁVEL
Ao contrário do sensualista Rafael, que o apresentou aos círculos da intelectualidade lisboeta, Columbano era um homem pouco sociável, dado a “súbitas reacções de fúria e pequenas teimosias de solitário”, nas palavras do historiador de arte José-Augusto França.
O pintor nasceu em Lisboa a 21 de Novembro de 1857, filho de Manuel Maria Bordalo Pinheiro, também dedicado à pintura, bem como à escultura e gravação. Estudou na Academia de Belas-Artes de Lisboa, cursando, desde os 14 anos, Desenho e Pintura Histórica. Em 1881 partiu para Paris com uma bolsa de estudos secretamente custeada pelo rei consorte, D. Fernando II, já viúvo de D. Maria II, amigo do seu pai. Na cidade Luz, Columbano aprendeu com Manet e Degas. Em 1882 apresentou no Salon de Paris, o quadro ‘Concerto de Amadores’, bem recebido pela crítica. De regresso a Lisboa, os críticos mostraram-se menos favoráveis.
Da paleta de Columbano saíram igualmente as pinturas da sala de recepção do Palácio de Belém, os painéis dos Passos Perdidos da Assembleia da República e do tecto do Teatro Nacional D. Maria II. Em 1914 o pintor assumiu a direcção do Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea. O mesmo que agora apresenta a sua obra.
ESCOL DE ARTISTAS: ‘O GRUPO DO LEÃO’
É provavelmente a obra mais conhecida de Columbano Bordalo Pinheiro. Pertence ao Museu do Chiado e leva o título de ‘O Grupo do Leão’. ‘Leão’ era como se chamava a cervejaria que acolhia o escol de artistas em busca de oportunidades de trabalho e sucesso na capital. Columbano é o senhor em pé, de cartola, no canto superior direito. O irmão, Rafael, tem o mesmo gosto quanto a chapéus e está sentado diante dele. José Malhoa, também pintor famoso, apresenta-se no canto oposto, em primeiro plano, sentado e com a mão direita na coxa.
Um outro pintor que o tempo consagraria é Silva Porto. Tem barba e bigode, e ocupa, sensivelmente, o centro da mesa. Todas as personagens representadas no quadro, à excepção de Varela e Monteiro, proprietários da cervejaria, e do criado Manuel, são artistas da época.
COLUMBANO COMO DIRECTOR: RESISTÊNCIA AOS MODERNISTAS DA BRASILEIRA
O Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea foi fundado por decreto da República em 26 de Maio de 1911. Em 1914, o pintor Columbano Bordalo Pinheiro assumiu a direcção daquele espaço, dando continuidade e desenvolvendo a linha tradicionalista antes iniciada. Quem não gostava mesmo nada da orientação, tida por pouco arrojada, de Columbano era a geração modernista, então sediada na Brasileira do Chiado.
O director do Museu resistiu às manifestações de desagrado do grupo de, entre outros, Amadeo Souza-Cardoso e Almada Negreiros.
Enquanto Columbano foi director, o museu foi ampliado em algumas salas, uma delas dedicada à escultura. Depois de 1929 foi o pintor Adriano de Sousa Lopes – indicado pelo mestre do Naturalismo como o único, de entre as jovens gerações, capaz de lhe suceder – quem deu continuidade ao projecto. Mostrou alguma abertura aos modernistas, que o próprio Columbano não poderia aceitar.
Até 1944, Sousa Lopes revelar-se-ia um director mais ousado do que inicialmente se poderia supor. A geração modernista começou finalmente a marcar presença nas colecções do museu e foram adquiridas importantes esculturas de Rodin, Bourdelle e Joseph Bernard.
EXPOSIÇÃO: ‘COLUMBANO BORDALO PINHEIRO (1874-1900)’
Local: Museu do Chiado, Lisboa
Início: 15 de Fevereiro (de terça -feira a domingo, entre as 10h00 e as 18h00 )
Preço: 3 euros
Vai gostar se... há muito tempo não regala os olhos diante das obras de um dos maiores pintores portugueses. Também vai gostar se aprecia a arte do retrato e o Naturalismo em pintura.
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