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Como cinco excêntricos mudaram a guerra

O livro ‘Jogo Duplo’ conta como os espiões enganaram Hitler ao serviço dos britânicos, com passagem pela frenética Lisboa

02 de dezembro de 2012 às 15:00

Na densa trama de mentiras que foi o jogo de espiões da II Guerra Mundial, não terá havido maior mestre que Joan Pujol García. O catalão que estudara na melhor escola espanhola de criadores de galinhas sonhava ser espião e servir a causa dos Aliados. Usou para isso a melhor arma de que dispunha: a imaginação. Tentou vender os seus serviços aos britânicos em Madrid, mas foi sumariamente rejeitado.

Pujol não desistiu. Contactou os alemães e conseguiu convencer Karl-Erich Külenthal, major da Abwehr (serviço de inteligência militar alemão) em Madrid, de que conseguiria chegar à Grã-Bretanha e espiar para os nazis. Foi então enviado para Lisboa, de onde escreveu os mais incríveis relatórios sobre o Reino Unido. Com a ajuda de guias turísticos, listas telefónicas e muito desvario, dizia que em Glasgow se bebia vinho, inventava lagos e exércitos, imaginava operações militares. Os alemães acreditavam que Pujol estava mesmo em Inglaterra e a produzir excelente informação, tanto que o condecoraram.

Em Lisboa, o catalão voltou a oferecer os seus serviços aos britânicos, que desta vez perceberam que Pujol seria o veículo ideal para enganar os alemães, levando-os a acreditar no que precisassem. E foi assim que o agente ‘Garbo’ chegou a Londres, na condição de agente duplo. Continuou a inventar mentiras e a contá-las aos alemães até ao fim da guerra.

UMA ESTRANHA EQUIPA

A história de ‘Garbo’ é uma das cinco peculiares carreiras de espionagem que o escritor inglês Ben Macintyre conta no seu livro ‘Jogo Duplo’, acabado de editar em Portugal. O livro conta como os britânicos montaram o comité ‘XX’ ou ‘Double Cross’, que se baseava no trabalho de espiões ao serviço dos nazis que se tinham passado para o lado britânico. Foi graças a eles que os Aliados conseguiram enganar Hitler acerca do local de desembarque no Dia D, a 6 de Junho de 1944, desviando as mais perigosas forças alemãs das praias da Normandia, onde viria a ocorrer a invasão do continente por tropas britânicas, americanas e canadianas.

Poucos sabem que esta decisiva vitória militar deve tanto a cinco personagens únicas. Além de Joan Pujol, os britânicos contavam com os préstimos dos espiões ‘Dusko’ Popov, um playboy sérvio que gastava todo o (muito) dinheiro que recebia dos alemães, dos britânicos e até dos americanos em álcool e mulheres; Lily Sergeyev, uma russa radicada em França que esteve para trair os Aliados por estes lhe terem morto o cão; Elvira de La Fuente Chudoir, uma peruana viciada em jogo e amante indiscriminada de homens e mulheres; e Roman Czerniawski, oficial da Força Aérea polaca que montou em França uma rede de espiões que os alemães desmantelaram, tendo sobrevivido miraculosamente ao pelotão de fuzilamento por ter convencido os nazis de que espiaria os ingleses.

Nenhum deles sabia da existência dos ‘colegas’, traidores como eles da causa germânica, mas trabalharam todos para o mesmo objectivo: fazer os nazis acreditar que o desembarque do Dia D ia acontecer em três frentes: na Noruega, em Calais – no Canal da Mancha – e no Sul de França.

NAS MÃOS DE EXCÊNTRICOS

Ben Macintyre, autor de ‘Jogo Duplo’, explica à Domingo o seu espanto: "É de facto extraordinário que este jogo – e tratou-se de um jogo de apostas –, que pôs as vidas de milhares de pessoas em risco, tenha dependido do carácter de pessoas tão peculiares e excêntricas. Ninguém confiaria neles para alguma coisa em tempos de paz. Nem sequer confiarias que eles te pagassem um jantar. A ideia de que estes indivíduos tiveram nas mãos o destino de uma operação militar tão importante é perturbadora. Mas é preciso ter uma coisa em mente: os Aliados tinham a vantagem crucial de conseguirem interceptar as mensagens dos alemães. Podiam verificar em tempo real, e sem que os agentes duplos o soubessem, se os alemães os consideravam fidedignos. Podiam confirmar se estes cinco agentes duplos cumpriam ou não aquilo que era suposto fazerem. Essa vantagem nunca tinha acontecido durante uma guerra, e é provável que nunca volte a acontecer."

Grande parte do jogo passou por Lisboa. Era aqui que os agentes contactavam os seus supervisores alemães, que lhes davam dinheiro e tinta invisível para as suas cartas secretas. "Lisboa era um sítio aprazível, magnífico para se assistir à guerra. Por isso, para aí convergiu este fluxo de gente fantástica, estranha e colorida. Passaram lá a guerra porque era um sítio muito seguro para se estar, mais ainda do que Espanha. Os espiões faziam o que fosse preciso para continuar ali", explica Macintyre.

Hitler engoliu até ao fim as mentiras dos seus agentes, mesmo quando o mais elementar bom senso o deveria ter feito desconfiar. O autor de ‘Jogo Duplo’ adianta uma explicação: "Os alemães decidiram de livre vontade não duvidar do que lhes era dito, porque não queriam descobrir que estavam a ser enganados. Hitler exigia resultados concretos. Se tens um sistema hierárquico tão rígido e ditatorial e o chefe diz que quer resultados rápidos e volumosos, os serviços secretos reproduzem o que o líder quer ouvir, sem se importarem se é verdade ou não. Aconteceu isso também na União Soviética. Era melhor produzir muita informação, mesmo que falsa, do que informação nenhuma, porque havia o risco de os espiões serem transferidos para a frente de Leste." E assim, de mentira em mentira, se ganhou a guerra...

ENTREVISTA A BEN MACINTYRE

- Por que foi Lisboa tão importante no jogo de espiões da II Guerra Mundial?

- Lisboa era um sítio único porque era a cidade em que os espiões britânicos e alemães se podiam confrontar cara a cara. Ali estavam espiões de todas as partes do conflito, com a complacência do Governo português, que apesar da neutralidade permitia que ambos os lados desenvolvessem as suas actividades. O governo de Salazar queria manter o contacto tanto com os alemães como com os ingleses e a melhor maneira de o fazer era fingir que este tipo de espionagem não estava a acontecer.

- Diz no livro que os alemães achavam os portugueses pouco confiáveis e incapazes de manter um segredo…

- Sim, acho que isso pode ser visto como um elogio para os portugueses (risos). Se os alemães achavam que os portugueses não eram de confiança, então era porque estes estavam a ter um excelente comportamento…

- Dá uma ideia dos espiões alemães como pessoas pouco talhadas para as tarefas da espionagem…

- Há vários elementos que explicam o lado alemão. Um deles é a corrupção. Muitos destes oficiais dos serviços de inteligência alemães estavam a ganhar muito dinheiro com os agentes que supervisionavam. Não tinham interesse nenhum em denunciá-los como falsos agentes. Por outro lado a Abwehr, o sistema de inteligência alemão, estava organizada de forma a que cada oficial era responsável pelo seu espião e tinha por isso todo o interesse em assegurar que esse espião fosse tido como credível, mesmo quando sabia ou suspeitava que estava a fazer jogo duplo a favor do inimigo. O comportamento dos alemães deve-se à corrupção, à incompetência e à resistência em aceitar a ideia de que as coisas estavam a correr mal.

- Perturbou-o o facto de o curso da guerra e as vidas de milhares de pessoas terem estado nas mãos destas cinco personalidades, aparentemente tão pouco fiáveis?

- É de facto extraordinário que este jogo  – e tratou-se de um jogo de apostas –, que pôs as vidas de milhares de pessoas em risco, tenha dependido do carácter de pessoas tão peculiares e excêntricas. São pessoas em quem ninguém confiaria para alguma coisa em tempos de paz. Nem sequer confiarias que te pagassem um jantar. A ideia de que estes indivíduos tiveram nas mãos o destino de uma operação militar tão importante é perturbadora. Mas é preciso ter uma coisa em mente: Os aliados tinham a vantagem crucial de conseguirem interceptar as mensagens secretas dos alemães. Podiam verificar em tempo real, e sem que os agentes duplos o soubessem, se os alemães os consideravam fidedignos. Tinham forma de confirmar se estes cinco agentes duplos cumpriam ou não aquilo que era suposto fazerem. Por exemplo em relação a Dusko Popov, os aliados estavam sempre a verificar se ele tinha realmente executado aquilo que dizia ter feito. Essa vantagem nunca tinha acontecido durante uma guerra, e é provável que nunca volte a acontecer.

- Popov é um caso peculiar. Vivia como um playboy, pago pelos alemães, e os ingleses até ganhavam dinheiro com o que a Abwehr lhe pagava…

- Acho que ele teve a guerra mais agradável de todos. É uma personagem fabulosa, gostava muito de o ter conhecido em vida. Penso que ele se imaginava a si próprio como uma personagem de ficção. É uma daquelas pessoas que imagina o que quer ser e se transforma para atingir essa pessoa que idealizou. Era uma personagem do seu próprio romance.

- O que terá acontecido a Jebsen, o espião sequestrado em Lisboa e levado para Berlim, cujo rasto se perdeu?

- Não sabemos o que lhe aconteceu. É concebível que tenha escapado e tenha recomeçado a vida com uma nova identidade, mas é muito mais provável que tenha sido morto pelos nazis. Gosto particularmente desta figura. Ele não é, sob vários aspectos, uma pessoa admirável – era um vigarista e nunca poderá ser visto como um herói nos termos convencionais. Mas é uma daquelas pessoas que só uma guerra pode criar. Ele serve para corrigir a ideia simplista como costumamos olhar para a II Guerra Mundial, em que normalmente só vemos a luta das democracias contra a ditadura, da liberdade contra o nazismo, do branco contra o preto. Há uma história muito mais interessante, que é a das pessoas que tiveram de fazer terríveis escolhas morais.

- O livro desvenda a conspiração da própria Abwehr contra o regime de Hitler…

- Essa é a terrível ironia da situação, Jebsen foi provavelmente assassinado em resultado de um plano contra Hitler, no qual ele certamente aceitaria participar. Foi visto pelos seus colegas como um perigo para esse plano e tiveram de o remover, não sabendo que ele até concordaria com esse plano. É este tipo de complexidades que fazem a história tão mais interessante do que as habituais narrativas que conhecemos dos espiões.

- Fala também da história de Lilly Sergeyev, a agente dupla que da última vez que esteve em Lisboa terá pensado que não queria deixar Portugal e voltar à sombria Londres. Considera que houve uma certa injustiça na forma como ela foi corrida dos serviços secretos?

- Sim, ela foi tratada da forma menos subtil e menos sofisticada possível. Para começar, não seria muito complicado garantir que ela tivesse o seu cão consigo em Londres, que foi o que levou à revolta dela. É um dos poucos casos em que penso que os serviços secretos britânicos se enganaram profundamente. Mas estamos a falar de homens antiquados e chauvinistas, que pensaram ter nas mãos uma francesa histérica. Em vez de a tratarem com simpatia e carinho, viam-na como uma tonta. Ela podia ser muitas coisas, mas não era uma tonta e eles lidaram mal com ela desde o início.

- No livro explica o bom trabalho que ela fez a construir o cenário do falso local de desembarque no dia D…

- Sim, ela foi absolutamente central para a operação e foi muito corajosa. Quando ela regressou a Lisboa para se encontrar com o seu supervisor, ela sabia que podia ser facilmente desmascarada e morta. Acho que o governo britânico lhe deve um pedido de desculpa.

- Mas podemos perceber que o facto de ela ter posto em risco uma operação tão importante por causa de um cão tenha causado grande irritação…

- As pessoas a quem eu conto esta história estão divididas em dois grupos. Os que têm cães acham que o Governo britânico se comportou de forma horrível ao não permitir que o cão lhe fosse enviado e há os que não são amantes de cães, que perguntam: ‘150 mil pessoas estavam para invadir a Europa ocupada pelos nazis e nós estávamos preocupados com um cão?’.

- Não bastava pôr o cão num avião, sem que ninguém precisasse de saber do incumprimento das regras burocráticas que restringiam a chegada de animais a Inglaterra?

- Pois, nós os britânicos somos muito especiais, seguimos as regras, mesmo durante a guerra, Acreditamos na burocracia e foi isso que aconteceu.

- Fala do papel que o Banco Espírito Santo teve no apoio aos alemães. Havia uma relação próxima dos serviços secretos dos nazis e os dirigentes do banco?

- Não iria tão longe quanto dizer que havia essa relação próxima. Julgo que é sabido que havia indivíduos dentro do banco sobre os quais se acreditava haver ligações aos serviços secretos alemães. O banco esteve sob vigilância dos britânicos durante a guerra, mas não diria que todo o banco estava comprometido. Houve, a certa altura, quem defendesse que os britânicos deviam fazer um protesto formal a Salazar por causa das actividades desse banco, mas isso não aconteceu por causa do receio de que os alemães percebessem a origem desse protesto e isso pusesse em causa a posição dos agentes duplos que o usavam.

- Lisboa era um paraíso, não só pela liberdade de movimentos, mas também porque era um sítio muito agradável para se estar naquele tempo…

- Muita gente obscura achou que Lisboa era um sítio magnífico para se assistir à guerra. Por isso aí convergiu este fluxo de gente fantástica, estranha e colorida. Passaram lá a guerra porque era um sítio muito seguro para se estar, mais ainda do que Espanha. Lisboa atraiu gente tão distinta como Jebsen e Popov e todos os outros. Faziam o que fosse preciso para continuar ali.

- Compreende-se que os supervisores alemães ficassem em Lisboa, mas como foi possível que os responsáveis da inteligência em Berlim tenham acreditado tão profundamente nas mentiras que lhes foram transmitidas durante tanto tempo? 

- Há uma expressão inglesa que descreve o estado em que eles estavam: “a willing suspension of disbelief” (uma suspensão voluntária da descrença). Eles decidiram de livre vontade não duvidar do que lhes era dito, porque não queriam descobrir que estavam a ser enganados. Hitler exigia resultados concretos. Se tens um sistema hierárquico tão rígido e ditatorial e o chefe diz que quer resultados rápidos e volumosos, os serviços secretos reproduzem o que o líder quer ouvir, sem se importarem se é verdade ou não. Aconteceu isso também na União Soviética. Era melhor produzir muita informação, mesmo que falsa, do que informação nenhuma, porque senão havia o risco de os espiões serem transferidos para a frente de Leste.

- Falando da Rússia, o plano dos aliados podia ter ficado comprometido por causa do espião dos serviços secretos britânicos que trabalhava para os russos…

- Esse é um muito bom exemplo de como a espionagem pode correr mal. Os espiões soviéticos em Londres estavam a produzir informação de uma qualidade fantástica, mas como não correspondia exactamente àquilo que os russos esperavam, foi ignorada. É aquilo que se chama a selvajaria dos espelhos. Se todos os espelhos se estão a reflectir uns aos outros, rapidamente perdemos a noção da realidade e não sabemos qual é o reflexo real. Acho que é por isso que é tão frequente que as pessoas que trabalham na inteligência fiquem meio malucas.

ENTREVISTA A JOSÉ ANTÓNIO BARREIROS

- O livro ‘Jogo Duplo’,  refere o romance de um dos Espírito Santo com Yvonne Delidaise, amante do espião alemão Emil Kliemann, supervisor da agente dupla LiLy Sergeyev. Quem era o amante português de Yvonne? 

- Na biografia que escrevi da russa branca Nathalie Sergueiew (Lily como petit nom), uma agente dupla do XX Committee britânico, controlada do lado alemão pelo major Emil Kliemann, da Luft Eins (Paris), contei a história, baseada nos Arquivos Nacionais britânicos: em Madrid Kliemann, queixava-se a Nathalie de ciúmes relativamente à sua também agente Yvonne, irmã de um outro agente seu, que, sendo sua amante, estaria envolvida sentimentalmente com um português. Por desespero, o major ameaçava suicidar-se. Informados os ingleses, por um relatório da agente "Treasure" - era este o nome de código da russa enquanto agente britânica - estes sugeriram-lhe que convencesse Emil a contratar um detective que, pago por Londres, concluiria, para o sossegar, que nenhuma traição sentimental existia. É que o suicídio de Kliemann faria perigar a actuação de "Lily", estratégica porque rede de contra-informação destinada a convencer os alemães de que o desembarque aliada - o dia D - não seria onde foi, nas costas da Normandia. A verdade é que o português estava mesmo em Madrid, hospedado no Hotel Ritz. Chamava-se Ricardo Espírito Santo. Confirmei, nos arquivos portugueses, que estivera em Madrid nessa data. Personagem de amores fáceis, teve Yvonne no rol dos seus encantos. Ou talvez mais no campo das informações. Nathalie esteve em Lisboa com o seu controlador, para um "rendez vous" do qual resultou levar para Londres um rádio emissor.

- Noutra passagem, o autor fala da relação outra agente dupla, Elvira de La Fuente Chaudoir, com o nome de código 'Bronx', e o seu supervisor alemão, Bleil Schluetter. O livro conta que Elvira combinou com Bleil que faria chegar informações em código enviando telegramas a António Manuel de Almeida, identificado como "director-geral  e gerente do Banco Espírito Santo em Lisboa". Quem era esta personagem e qual a sua importância no jogo de espionagem dos alemães em Lisboa? 

- O uso dos cofres do banco e dos seus serviços como caixa postal "de conveniência" foi corrente. Juan Pujol Garcia, que viria a tornar-se o agente "Garbo", sob a gestão do Thomas Harris, também ao serviço, enquanto agente duplo, do XX Committee, fê-lo, vigarizando a Abwehr, os serviços secretos militares alemães, depositando ali cartas com informação falsa, em troca da qual era paga pelo alemães, mediante dinheiro depositado no mesmo banco. Inventou agentes e assim multiplicou rendimentos.

- O livro apresenta Ricardo Espírito Santo como um germanófilo. Quais seriam as ligações do banqueiro aos serviços secretos alemães?

- Ricardo Espírito Santo era banqueiro e isso evidencia que nenhum lado da guerra lhe seria indiferente. A pedido de Salazar deu guarida, na sua vivenda na Boca do Inferno, ao Duque de Windsor, que abdicara como Rei (Eduardo VIII) e aqui chegara em 1940, com a sua controversa esposa, Wallis Simpson. De mãe alemã, multiplicou-se, enquanto em Lisboa, em declarações pró-alemãs, sendo notórias as suas simpatias pelo III Reich. Surgiu aí um plano, sobre o qual escrevi, para o raptar, que envolveu do lado alemão o próprio Walter Schellenberg. O facto ajuda a formar a ideia de que Ricardo seria alguém em cuja casa uma personagem com tal perfil se sentiria à vontade. O que é certo é que, estivesse o banqueiro ligado directamente aos serviços alemães, a "operação Willi", pela qual Berlim ensaiou raptar o duque, teria sido consumada. Não o foi. Triunfou o lado inglês. Sua Alteza embarcou no modesto "Excalibur" a caminho do exílio dourado, como governador da Bahamas.

Na densa trama de mentiras que foi o jogo de espiões da II Guerra Mundial, não terá havido maior mestre que Joan Pujol García. O catalão que estudara na melhor escola espanhola de criadores de galinhas sonhava ser espião e servir a causa dos Aliados. Usou para isso a melhor arma de que dispunha: a imaginação. Tentou vender os seus serviços aos britânicos em Madrid, mas foi sumariamente rejeitado.

Pujol não desistiu. Contactou os alemães e conseguiu convencer Karl-Erich Külenthal, major da Abwehr (serviço de inteligência militar alemão) em Madrid, de que conseguiria chegar à Grã-Bretanha e espiar para os nazis. Foi então enviado para Lisboa, de onde escreveu os mais incríveis relatórios sobre o Reino Unido. Com a ajuda de guias turísticos, listas telefónicas e muito desvario, dizia que em Glasgow se bebia vinho, inventava lagos e exércitos, imaginava operações militares. Os alemães acreditavam que Pujol estava mesmo em Inglaterra e a produzir excelente informação, tanto que o condecoraram.

Em Lisboa, o catalão voltou a oferecer os seus serviços aos britânicos, que desta vez perceberam que Pujol seria o veículo ideal para enganar os alemães, levando-os a acreditar no que precisassem. E foi assim que o agente ‘Garbo’ chegou a Londres, na condição de agente duplo. Continuou a inventar mentiras e a contá-las aos alemães até ao fim da guerra.

UMA ESTRANHA EQUIPA

A história de ‘Garbo’ é uma das cinco peculiares carreiras de espionagem que o escritor inglês Ben Macintyre conta no seu livro ‘Jogo Duplo’, acabado de editar em Portugal. O livro conta como os britânicos montaram o comité ‘XX’ ou ‘Double Cross’, que se baseava no trabalho de espiões ao serviço dos nazis que se tinham passado para o lado britânico. Foi graças a eles que os Aliados conseguiram enganar Hitler acerca do local de desembarque no Dia D, a 6 de Junho de 1944, desviando as mais perigosas forças alemãs das praias da Normandia, onde viria a ocorrer a invasão do continente por tropas britânicas, americanas e canadianas.

Poucos sabem que esta decisiva vitória militar deve tanto a cinco personagens únicas. Além de Joan Pujol, os britânicos contavam com os préstimos dos espiões ‘Dusko’ Popov, um playboy sérvio que gastava todo o (muito) dinheiro que recebia dos alemães, dos britânicos e até dos americanos em álcool e mulheres; Lily Sergeyev, uma russa radicada em França que esteve para trair os Aliados por estes lhe terem morto o cão; Elvira de La Fuente Chudoir, uma peruana viciada em jogo e amante indiscriminada de homens e mulheres; e Roman Czerniawski, oficial da Força Aérea polaca que montou em França uma rede de espiões que os alemães desmantelaram, tendo sobrevivido miraculosamente ao pelotão de fuzilamento por ter convencido os nazis de que espiaria os ingleses.


Nenhum deles sabia da existência dos ‘colegas’, traidores como eles da causa germânica, mas trabalharam todos para o mesmo objectivo: fazer os nazis acreditar que o desembarque do Dia D ia acontecer em três frentes: na Noruega, em Calais – no Canal da Mancha – e no Sul de França.

NAS MÃOS DE EXCÊNTRICOS

Ben Macintyre, autor de ‘Jogo Duplo’, explica à Domingo o seu espanto: "É de facto extraordinário que este jogo – e tratou-se de um jogo de apostas –, que pôs as vidas de milhares de pessoas em risco, tenha dependido do carácter de pessoas tão peculiares e excêntricas. Ninguém confiaria neles para alguma coisa em tempos de paz. Nem sequer confiarias que eles te pagassem um jantar. A ideia de que estes indivíduos tiveram nas mãos o destino de uma operação militar tão importante é perturbadora. Mas é preciso ter uma coisa em mente: os Aliados tinham a vantagem crucial de conseguirem interceptar as mensagens dos alemães. Podiam verificar em tempo real, e sem que os agentes duplos o soubessem, se os alemães os consideravam fidedignos. Podiam confirmar se estes cinco agentes duplos cumpriam ou não aquilo que era suposto fazerem. Essa vantagem nunca tinha acontecido durante uma guerra, e é provável que nunca volte a acontecer."

Grande parte do jogo passou por Lisboa. Era aqui que os agentes contactavam os seus supervisores alemães, que lhes davam dinheiro e tinta invisível para as suas cartas secretas. "Lisboa era um sítio aprazível, magnífico para se assistir à guerra. Por isso, para aí convergiu este fluxo de gente fantástica, estranha e colorida. Passaram lá a guerra porque era um sítio muito seguro para se estar, mais ainda do que Espanha. Os espiões faziam o que fosse preciso para continuar ali", explica Macintyre.

Hitler engoliu até ao fim as mentiras dos seus agentes, mesmo quando o mais elementar bom senso o deveria ter feito desconfiar. O autor de ‘Jogo Duplo’ adianta uma explicação: "Os alemães decidiram de livre vontade não duvidar do que lhes era dito, porque não queriam descobrir que estavam a ser enganados. Hitler exigia resultados concretos. Se tens um sistema hierárquico tão rígido e ditatorial e o chefe diz que quer resultados rápidos e volumosos, os serviços secretos reproduzem o que o líder quer ouvir, sem se importarem se é verdade ou não. Aconteceu isso também na União Soviética. Era melhor produzir muita informação, mesmo que falsa, do que informação nenhuma, porque havia o risco de os espiões serem transferidos para a frente de Leste." E assim, de mentira em mentira, se ganhou a guerra...


ENTREVISTA A BEN MACINTYRE

- Por que foi Lisboa tão importante no jogo de espiões da II Guerra Mundial?

- Lisboa era um sítio único porque era a cidade em que os espiões britânicos e alemães se podiam confrontar cara a cara. Ali estavam espiões de todas as partes do conflito, com a complacência do Governo português, que apesar da neutralidade permitia que ambos os lados desenvolvessem as suas actividades. O governo de Salazar queria manter o contacto tanto com os alemães como com os ingleses e a melhor maneira de o fazer era fingir que este tipo de espionagem não estava a acontecer.

- Diz no livro que os alemães achavam os portugueses pouco confiáveis e incapazes de manter um segredo…

- Sim, acho que isso pode ser visto como um elogio para os portugueses (risos). Se os alemães achavam que os portugueses não eram de confiança, então era porque estes estavam a ter um excelente comportamento…

- Dá uma ideia dos espiões alemães como pessoas pouco talhadas para as tarefas da espionagem…

- Há vários elementos que explicam o lado alemão. Um deles é a corrupção. Muitos destes oficiais dos serviços de inteligência alemães estavam a ganhar muito dinheiro com os agentes que supervisionavam. Não tinham interesse nenhum em denunciá-los como falsos agentes. Por outro lado a Abwehr, o sistema de inteligência alemão, estava organizada de forma a que cada oficial era responsável pelo seu espião e tinha por isso todo o interesse em assegurar que esse espião fosse tido como credível, mesmo quando sabia ou suspeitava que estava a fazer jogo duplo a favor do inimigo. O comportamento dos alemães deve-se à corrupção, à incompetência e à resistência em aceitar a ideia de que as coisas estavam a correr mal.

- Perturbou-o o facto de o curso da guerra e as vidas de milhares de pessoas terem estado nas mãos destas cinco personalidades, aparentemente tão pouco fiáveis?

- É de facto extraordinário que este jogo  – e tratou-se de um jogo de apostas –, que pôs as vidas de milhares de pessoas em risco, tenha dependido do carácter de pessoas tão peculiares e excêntricas. São pessoas em quem ninguém confiaria para alguma coisa em tempos de paz. Nem sequer confiarias que te pagassem um jantar. A ideia de que estes indivíduos tiveram nas mãos o destino de uma operação militar tão importante é perturbadora. Mas é preciso ter uma coisa em mente: Os aliados tinham a vantagem crucial de conseguirem interceptar as mensagens secretas dos alemães. Podiam verificar em tempo real, e sem que os agentes duplos o soubessem, se os alemães os consideravam fidedignos. Tinham forma de confirmar se estes cinco agentes duplos cumpriam ou não aquilo que era suposto fazerem. Por exemplo em relação a Dusko Popov, os aliados estavam sempre a verificar se ele tinha realmente executado aquilo que dizia ter feito. Essa vantagem nunca tinha acontecido durante uma guerra, e é provável que nunca volte a acontecer.

- Popov é um caso peculiar. Vivia como um playboy, pago pelos alemães, e os ingleses até ganhavam dinheiro com o que a Abwehr lhe pagava…

- Acho que ele teve a guerra mais agradável de todos. É uma personagem fabulosa, gostava muito de o ter conhecido em vida. Penso que ele se imaginava a si próprio como uma personagem de ficção. É uma daquelas pessoas que imagina o que quer ser e se transforma para atingir essa pessoa que idealizou. Era uma personagem do seu próprio romance.



- O que terá acontecido a Jebsen, o espião sequestrado em Lisboa e levado para Berlim, cujo rasto se perdeu?

- Não sabemos o que lhe aconteceu. É concebível que tenha escapado e tenha recomeçado a vida com uma nova identidade, mas é muito mais provável que tenha sido morto pelos nazis. Gosto particularmente desta figura. Ele não é, sob vários aspectos, uma pessoa admirável – era um vigarista e nunca poderá ser visto como um herói nos termos convencionais. Mas é uma daquelas pessoas que só uma guerra pode criar. Ele serve para corrigir a ideia simplista como costumamos olhar para a II Guerra Mundial, em que normalmente só vemos a luta das democracias contra a ditadura, da liberdade contra o nazismo, do branco contra o preto. Há uma história muito mais interessante, que é a das pessoas que tiveram de fazer terríveis escolhas morais.

- O livro desvenda a conspiração da própria Abwehr contra o regime de Hitler…

- Essa é a terrível ironia da situação, Jebsen foi provavelmente assassinado em resultado de um plano contra Hitler, no qual ele certamente aceitaria participar. Foi visto pelos seus colegas como um perigo para esse plano e tiveram de o remover, não sabendo que ele até concordaria com esse plano. É este tipo de complexidades que fazem a história tão mais interessante do que as habituais narrativas que conhecemos dos espiões.

- Fala também da história de Lilly Sergeyev, a agente dupla que da última vez que esteve em Lisboa terá pensado que não queria deixar Portugal e voltar à sombria Londres. Considera que houve uma certa injustiça na forma como ela foi corrida dos serviços secretos?

- Sim, ela foi tratada da forma menos subtil e menos sofisticada possível. Para começar, não seria muito complicado garantir que ela tivesse o seu cão consigo em Londres, que foi o que levou à revolta dela. É um dos poucos casos em que penso que os serviços secretos britânicos se enganaram profundamente. Mas estamos a falar de homens antiquados e chauvinistas, que pensaram ter nas mãos uma francesa histérica. Em vez de a tratarem com simpatia e carinho, viam-na como uma tonta. Ela podia ser muitas coisas, mas não era uma tonta e eles lidaram mal com ela desde o início.

- No livro explica o bom trabalho que ela fez a construir o cenário do falso local de desembarque no dia D…

- Sim, ela foi absolutamente central para a operação e foi muito corajosa. Quando ela regressou a Lisboa para se encontrar com o seu supervisor, ela sabia que podia ser facilmente desmascarada e morta. Acho que o governo britânico lhe deve um pedido de desculpa.

- Mas podemos perceber que o facto de ela ter posto em risco uma operação tão importante por causa de um cão tenha causado grande irritação…

- As pessoas a quem eu conto esta história estão divididas em dois grupos. Os que têm cães acham que o Governo britânico se comportou de forma horrível ao não permitir que o cão lhe fosse enviado e há os que não são amantes de cães, que perguntam: ‘150 mil pessoas estavam para invadir a Europa ocupada pelos nazis e nós estávamos preocupados com um cão?’.



- Não bastava pôr o cão num avião, sem que ninguém precisasse de saber do incumprimento das regras burocráticas que restringiam a chegada de animais a Inglaterra?

- Pois, nós os britânicos somos muito especiais, seguimos as regras, mesmo durante a guerra, Acreditamos na burocracia e foi isso que aconteceu.

- Fala do papel que o Banco Espírito Santo teve no apoio aos alemães. Havia uma relação próxima dos serviços secretos dos nazis e os dirigentes do banco?

- Não iria tão longe quanto dizer que havia essa relação próxima. Julgo que é sabido que havia indivíduos dentro do banco sobre os quais se acreditava haver ligações aos serviços secretos alemães. O banco esteve sob vigilância dos britânicos durante a guerra, mas não diria que todo o banco estava comprometido. Houve, a certa altura, quem defendesse que os britânicos deviam fazer um protesto formal a Salazar por causa das actividades desse banco, mas isso não aconteceu por causa do receio de que os alemães percebessem a origem desse protesto e isso pusesse em causa a posição dos agentes duplos que o usavam.

- Lisboa era um paraíso, não só pela liberdade de movimentos, mas também porque era um sítio muito agradável para se estar naquele tempo…

- Muita gente obscura achou que Lisboa era um sítio magnífico para se assistir à guerra. Por isso aí convergiu este fluxo de gente fantástica, estranha e colorida. Passaram lá a guerra porque era um sítio muito seguro para se estar, mais ainda do que Espanha. Lisboa atraiu gente tão distinta como Jebsen e Popov e todos os outros. Faziam o que fosse preciso para continuar ali.

- Compreende-se que os supervisores alemães ficassem em Lisboa, mas como foi possível que os responsáveis da inteligência em Berlim tenham acreditado tão profundamente nas mentiras que lhes foram transmitidas durante tanto tempo? 

- Há uma expressão inglesa que descreve o estado em que eles estavam: “a willing suspension of disbelief” (uma suspensão voluntária da descrença). Eles decidiram de livre vontade não duvidar do que lhes era dito, porque não queriam descobrir que estavam a ser enganados. Hitler exigia resultados concretos. Se tens um sistema hierárquico tão rígido e ditatorial e o chefe diz que quer resultados rápidos e volumosos, os serviços secretos reproduzem o que o líder quer ouvir, sem se importarem se é verdade ou não. Aconteceu isso também na União Soviética. Era melhor produzir muita informação, mesmo que falsa, do que informação nenhuma, porque senão havia o risco de os espiões serem transferidos para a frente de Leste.

- Falando da Rússia, o plano dos aliados podia ter ficado comprometido por causa do espião dos serviços secretos britânicos que trabalhava para os russos…

- Esse é um muito bom exemplo de como a espionagem pode correr mal. Os espiões soviéticos em Londres estavam a produzir informação de uma qualidade fantástica, mas como não correspondia exactamente àquilo que os russos esperavam, foi ignorada. É aquilo que se chama a selvajaria dos espelhos. Se todos os espelhos se estão a reflectir uns aos outros, rapidamente perdemos a noção da realidade e não sabemos qual é o reflexo real. Acho que é por isso que é tão frequente que as pessoas que trabalham na inteligência fiquem meio malucas.



ENTREVISTA A JOSÉ ANTÓNIO BARREIROS

- O livro ‘Jogo Duplo’,  refere o romance de um dos Espírito Santo com Yvonne Delidaise, amante do espião alemão Emil Kliemann, supervisor da agente dupla LiLy Sergeyev. Quem era o amante português de Yvonne? 

- Na biografia que escrevi da russa branca Nathalie Sergueiew (Lily como petit nom), uma agente dupla do XX Committee britânico, controlada do lado alemão pelo major Emil Kliemann, da Luft Eins (Paris), contei a história, baseada nos Arquivos Nacionais britânicos: em Madrid Kliemann, queixava-se a Nathalie de ciúmes relativamente à sua também agente Yvonne, irmã de um outro agente seu, que, sendo sua amante, estaria envolvida sentimentalmente com um português. Por desespero, o major ameaçava suicidar-se. Informados os ingleses, por um relatório da agente "Treasure" - era este o nome de código da russa enquanto agente britânica - estes sugeriram-lhe que convencesse Emil a contratar um detective que, pago por Londres, concluiria, para o sossegar, que nenhuma traição sentimental existia. É que o suicídio de Kliemann faria perigar a actuação de "Lily", estratégica porque rede de contra-informação destinada a convencer os alemães de que o desembarque aliada - o dia D - não seria onde foi, nas costas da Normandia. A verdade é que o português estava mesmo em Madrid, hospedado no Hotel Ritz. Chamava-se Ricardo Espírito Santo. Confirmei, nos arquivos portugueses, que estivera em Madrid nessa data. Personagem de amores fáceis, teve Yvonne no rol dos seus encantos. Ou talvez mais no campo das informações. Nathalie esteve em Lisboa com o seu controlador, para um "rendez vous" do qual resultou levar para Londres um rádio emissor.

- Noutra passagem, o autor fala da relação outra agente dupla, Elvira de La Fuente Chaudoir, com o nome de código 'Bronx', e o seu supervisor alemão, Bleil Schluetter. O livro conta que Elvira combinou com Bleil que faria chegar informações em código enviando telegramas a António Manuel de Almeida, identificado como "director-geral  e gerente do Banco Espírito Santo em Lisboa". Quem era esta personagem e qual a sua importância no jogo de espionagem dos alemães em Lisboa? 

- O uso dos cofres do banco e dos seus serviços como caixa postal "de conveniência" foi corrente. Juan Pujol Garcia, que viria a tornar-se o agente "Garbo", sob a gestão do Thomas Harris, também ao serviço, enquanto agente duplo, do XX Committee, fê-lo, vigarizando a Abwehr, os serviços secretos militares alemães, depositando ali cartas com informação falsa, em troca da qual era paga pelo alemães, mediante dinheiro depositado no mesmo banco. Inventou agentes e assim multiplicou rendimentos.

- O livro apresenta Ricardo Espírito Santo como um germanófilo. Quais seriam as ligações do banqueiro aos serviços secretos alemães?

- Ricardo Espírito Santo era banqueiro e isso evidencia que nenhum lado da guerra lhe seria indiferente. A pedido de Salazar deu guarida, na sua vivenda na Boca do Inferno, ao Duque de Windsor, que abdicara como Rei (Eduardo VIII) e aqui chegara em 1940, com a sua controversa esposa, Wallis Simpson. De mãe alemã, multiplicou-se, enquanto em Lisboa, em declarações pró-alemãs, sendo notórias as suas simpatias pelo III Reich. Surgiu aí um plano, sobre o qual escrevi, para o raptar, que envolveu do lado alemão o próprio Walter Schellenberg. O facto ajuda a formar a ideia de que Ricardo seria alguém em cuja casa uma personagem com tal perfil se sentiria à vontade. O que é certo é que, estivesse o banqueiro ligado directamente aos serviços alemães, a "operação Willi", pela qual Berlim ensaiou raptar o duque, teria sido consumada. Não o foi. Triunfou o lado inglês. Sua Alteza embarcou no modesto "Excalibur" a caminho do exílio dourado, como governador da Bahamas.


- Um artigo da revista Sábado revelou a correspondência entre Salazar e Ricardo Espírito Santo. A 30 de Dezembro de 1944, o banqueiro escreveu o seguinte: "Cumprindo as ordens de Vossa Excelência, junto remeto uma nota com o nome da pessoa que está ausente na sua pátria e cujo regresso conviria impedir". A mensagem refere o nome de Cecil Nassenstein. agente da Gestapo em Lisboa, que a Sábado diz ter sido preso pela PIDE em 1947. O que se sabe sobre este caso?

- Adoph Nassentein era contínuo na Legação Alemã em Lisboa e residia na Avenida Duque de Loulé, 76, 1º em Lisboa. Em Abril de 1945 foi enviado compulsivamente para a Vila de Almeida, após queixa da Embaixada britânica, acusando-o de espionagem. Seria expulso, ordem que não cumpriu. A 16 de Janeiro de 1947 a PIDE,fez uma busca num prédio sito na avenida António Augusto de Aguiar, número 7. Aí, no terceiro andar,  uma casa de hóspedes dirigida por uma tal Maria Lourenço Pontes, e aí descobriu o alemão, escondido. Fazia da parte da rede de espionagem nazi junto dos serviços portugueses de aviação, controlada por Desidério de Miranda. Passou-se para o lado inglês e ajudou a denunciar um português que, espiava a favor do Eixo, na Embaixada portuguesa em Londres, Rogério de Menezes, sobre o qual escrevi um livro. A carta de Ricardo a Salazar ocorre na altura em que, de acordo com o que sei, a expulsão não se dera.

- O MI6 designava Ricardo Espírito Santo com o nome de código 'Holy Ghost', qualificando-o como “espião alemão". Concorda com esta qualificação? 

- "Holy Ghost" é a tradução literal para inglês do próprio nome. Tratá-lo como “espião alemão” é uma sobre-simplificação ridícula.

- Macintyre diz que o Governo britânico só não fez um protesto formal sobre o banco para não comprometer os agentes duplos. Que pensa desta explicação?

- Não é verdade. Os ingleses referenciavam as actividades do banco e dos serviços alemães. Salazar, fazendo jogo duplo, ia gerindo as queixas. Com a prisão de Menezes, como expliquei no livro que escrevi,  a estratégia teve de mudar. Lisboa ficou em xeque, no xadrez deste mundo das sombras.

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