Thatcher, Sting ou André Jordan foram alguns dos privilegiados que rasgaram os céus mais depressa que o Super-Homem, a bordo do Rolls Royce dos aviões. Na sexta-feira, o Concorde olha pela última vez a curvatura da terra.
Passageiro regular do Concorde, o empresário português André Jordan voou nele uma dúzia de vezes e acha-o lindíssimo. Com razão: mais que um avião, é uma obra de arte alada. A estética, a elegância do voo e a velocidade extrema são tudo menos vulgares. Se o Homem alguma vez criou um engenho voador perfeito, o Concorde poderá ter sido essa criação.
“Vejam, o Concorde!” Assim era em Portugal, quando o belo avião com forma de ave branca se aproximava do aeroporto de Lisboa. Assim foi e é (começaram ontem e terminam sexta-feira os derradeiros voos, a cargo da British Airways) por onde ele voa altivo. Ninguém lhe fica indiferente. Pára-se a olhar para o céu, as cabeças viram-se, as vidraças das casas e do local de trabalho enchem-se de gente.
O nariz desce quando se aproxima da pista e dá-lhe uma expressão de nobreza. O avião é ‘senhor do seu nariz’ e tem bons motivos. Mesmo com ar supersónico, parece uma ave a planar - é objecto de desejo. Desejo de dominar o tempo e o espaço. De nos superarmos. Exemplo sublime de ‘design’ moderno aplicado à aeronáutica, conjuga a suavidade e a elegância das aves com a fúria dos relâmpagos. Nave de pureza única, o Concorde é o derradeiro sobrevivente da era comercial supersónica e o mais celebrado. Com 34 anos de vida e 27 de carreira, a sua morte é o final do engenho humano do século XX.
Depois dele, como será? Que diriam os irmãos Wright que, em 17 de Dezembro de 1903 (passam 100 anos), foram os pioneiros do voo a motor no Wright Flyer I? Se Orville e Wilbur Wright tivessem sonhado que um supersónico chamado Concorde nasceria em 1969, como pura vanguarda aeronáutica, para desaparecer no ano em que se celebram os 100 anos do seu arrojado feito, que diriam?
A BORDO COM ANDRÉ JORDAN
É português e viajou uma dúzia de vezes a bordo do Concorde. O empresário André Jordan recorda as suas viagens no supersónico.
Quando voou pela primeira vez no Concorde e para que destino?
Estava em Paris e fui ao escritório da Air France alterar a volta para o Rio de Janeiro. A pessoa que me atendeu propôs-me voar nesse mesmo dia em que me interessava no primeiro voo do Concorde, o que aceitei. Não me recordo o ano exacto.
Quantas vezes voou?
Uma dúzia de vezes.
Qual a sua impressão do avião?
O avião no exterior é lindíssimo e no interior é apertado.
Que sensações lhe provocou voar a uma velocidade duas vezes superior à do som e qual a melhor imagem aérea que reteve das viagens?
A velocidade aparece num indicador digital à frente do avião, sem o que provavelmente não se teria noção dela. Quando não está enevoado, a vista é magnífica.
Quais as sensações de descolar e aterrar a bordo do Concorde?
As descolagens e aterragens são muito mais rápidas do que no jacto normal. A descolagem é praticamente na vertical.
Qual a melhor recordação?
Devido à altitude não há qualquer vibração ou turbulência no voo e o ar é renovado constantemente, ao contrário dos aviões normais, pelo que a pessoa chega ao seu destino sem sensação de cansaço.
1. A Aerospatiale/BAC construiu 14 Concorde. Sete foram encomendados pela Air France outros tantos pela British Airways.
2. O Concorde teve rivais. O Soviético Tupolev TU-144 nasceu antes dele, em 1968, estreando-se em 1973. Muito semelhante ao Concorde, produziram-se 25 unidades. Teve dois acidentes: no festival aéreo de le Bourguet, França, em 1973 e em 1978. Após o que terminou a carreira. O Boeing 2707-300 SST foi projectado em 1969 e era o colosso supersónico, mas a administração Nixon e o Senado americano vetaram a dispendiosa produção.
4. A uma altitude acima dos 18.000m observa-se a curvatura da Terra e as cores azuladas da estratosfera.
5. A mais rápida travessia transatlântica ocorreu a 7 de Fevereiro de 1996 num voo Nova Iorque-Londres: 2h52m e 59 segundos.
6. À velocidade de Mach 2.02 (duas vezes superior à velocidade do som) ou 2.146 km/h, o Concorde demora metade do tempo de um jacto normal ligando Londres a Nova Iorque.
7. Acima dos 18.000 m e à velocidade de Mach 2.02, o nariz do avião aquece devido à fricção do ar e atinge 130º. Devido à dilatação, o Concorde alonga-se em 24 cm.
Phil Collins voou no Concorde para actuar no mesmo dia, 13 de Julho de 1985, nos dois concertos do ‘Live Aid’ no Estádio de Wembley, Londres, e no JFK Arena, Filadélfia.
9. Quando Paul McCartney tocou guitarra num voo do Concorde foi surpreendido por um grupo de gestores que entoaram os êxitos dos Beatles.
10. O primeiro membro da Família Real Britânica a voar no Concorde foi o Príncipe Phillip, em Janeiro de 1972. A Rainha Isabel II voou em 1977.
11. O Concorde levou a multidão ao rubro durante o Jubileu da Rainha Isabel II, em Julho de 2002. Desfilou à cabeça da famosa esquadrilha britânica de acrobacia Red Arrows, a mesma que esteve na capital portuguesa, actuando por baixo do tabuleiro da Ponte 25 de Abril, rasando as águas do Tejo.
- Início das investigações europeias sobre voos supersónicos.
- A companhia britânica B.O.A.C. (British Overseas Airways Corporation), antecessora da British Airways, aceita a primeira reserva no Concorde.
- Assinatura do acordo franco – britânico sobre o ‘design’, desenvolvimento e fabrico de um avião comercial supersónico.
- Lançamento do primeiro protótipo, em Toulouse, França.
- 2 Março: Concorde 001 voa pela primeira vez, partindo de Toulouse.
- 9 Abril: Concorde 002 voa pela primeira vez partindo de Filton, Bristol.
- A B.O.A.C. encomenda cinco Concorde.
- 21 Janeiro: comercialização de viagens no Concorde. A British Airways liga Londres ao Bahrain. A Air France liga Paris e o Rio de Janeiro.
- 24 Março: estreia a ligação entre Londres e Washington.
- 22 Novembro: voos Londres – Nova Iorque e Paris – Nova Iorque.
- Uma aterragem defeituosa causa o rebentamento dum pneu do Concorde. Sem consequências graves.
- 8 Novembro: o Concorde da British Airways efectua a primeira volta ao mundo. Percorre 28,238 milhas em 29 h e 59 m.
- 11 Agosto: O espectáculo extraordinário; dois Concorde da British Airways voam em formação supersónica para alcançar o eclipse total do sol por cima do Reino Unido.
- 25 Julho: O mais trágico acidente de um Concorde. Um aparelho da Air France parte de Paris com destino a Nova Iorque quando um pneu rebenta devido a uma peça metálica deixada na pista por um avião americano. Os estilhaços da borracha furam o depósito de combustível e ocorre uma explosão com o Concorde já no ar. Volvidos dois minutos, despenha-se sobre um hotel em Gonesse, Norte de Paris. Balanço: 113 mortos
- 15 Agosto: a British Airways decide suspender todos os voos do Concorde.
- 5 Setembro: após implementação de um conjunto de medidas desenvolvidas por arquitectos de aeronáutica, as companhias aéreas, Air France e British Airways, asseguram um serviço seguro. O Concorde recebe o certificado pelos organismos de segurança em aeronaves. E levanta voo.
- 9 Novembro: reinício dos voos comerciais do Concorde
- 10 Abril: a British Airways anuncia a retirada da sua frota Concorde a partir de finais de Outubro.
- 30 Maio: último voo de um Concorde da Air France. Entre Paris e Nova Iorque. O voo AF002 sai do aeroporto Roissy - Charles de Gaulle e aterra no aeroporto internacional J.F. Kennedy.
- 18 a 24 Outubro: últimos nove voos comerciais do Concorde a nível mundial assegurados pela British Airways entre Londres – Nova Iorque – Londres.
Prevista uma viagem de despedida sobre o Reino Unido visitando Birmingham, Belfast, Manchester, Cardiff e Edimburgo. Seguem-se as derradeiras viagens, desde Nova Iorque, Edimburgo e sobre o Golfo da Biscaia. O ‘pacote’ para o voo Londres-Nova Iorque, com ligação a partir de Lisboa, Porto, Faro, Funchal em voo normal, custa 5200 euros.
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