Uma greve da fome é um protesto. Uma forma de poder. De política. Através do corpo. Afinal, é ele o interface entre o natural e o cultural, revelando a categoria social do dono. Steve McQueen, o realizador de ‘Fome’, é negro. Sabe que as pessoas são, a priori, percepcionadas através do corpo. E que, no seu caso, o primeiro sinal destacado é a tez escura, associada a traços psicológicos ou culturais que estabelecem o racismo. McQueen sabe que o poder e a política, da escravatura ao sexismo, fazem-se através do corpo. Já o sentiu na pele.
Em ‘Fome’, corre 1981, e, numa prisão em Belfast, os activistas do IRA exigem o estatuto de presos políticos. A revolta começa pelo protesto do cobertor. Os reclusos recusam o uniforme prisional, tapando-se apenas com uma manta. A contestação passa ainda pelo protesto da sujidade. Privados da liberdade, da palavra e de outras espadas, os dejectos são as armas que lhes restam. Segue-se a greve da fome. Mais corpo. O último lugar de resistência. Neste caso, o corpo em decadência de Bobby Sands, símbolo da luta do grupo. Em ‘Fome’, sabemos do braço-de-ferro IRA/Thatcher através dessas políticas do corpo. E conhecemos os personagens, as suas personalidades ou almas, através dos seus corpos.
O corpo enquanto lugar de poder e sacrifício (como o jejum, outra fome voluntária) é também uma questão religiosa. Presente numa guerra entre protestantes e católicos, em que o IRA elege a autoflagelação como centro da sua mitologia, contexto no qual o realizador também trata o martírio de Bobby. Faz dele um herói. Um Cristo. Cujas motivações se escalpelizam num longo diálogo.
Assim, o filme oscila entre a peça teatral e a instalação artística. Com ‘Fome’, o espectador sai saciado, com a sensação de (finalmente) ter ido ao cinema. O filme marca mas evita a banalização da imagem e do som. Procura o rigor formal, sem abdicar do valor emocional. Acompanhando a saga de Bobby, não esquece a sua própria dignidade. É um manifesto de exigência.
Há alguns anos, retratar este calvário geraria uma acesa controvérsia. Hoje, numa Irlanda mais pacificada, ‘Fome’ ressoa no Mundo pós-11 de Setembro. Se não adianta muito ao 'terrorista para uns/guerreiro da liberdade para outros', não deixa de ser reconfortante encontrar um filme parcial, já que agora neutro significa não criticar a tortura de prisioneiros.
TROCA DE CORPO
O nome já é todo um programa ou título duma instalação: é homónimo de uma estrela de Hollywood. Aliás, um dos primeiros trabalhos de Steve McQueen (‘Deadpan, 1997’) foi mimar a célebre cena de Buster Keaton em que a fachada duma casa cai e só se sobrevive porque se está na janela.
DAR O CORPO AO MANIFESTO
O espectador de ‘Fome’ testemunha a auto-imolação do corpo do actor, que emagrece para o papel, sacrifica-se. ‘Toiro Enraivecido’ (Scorsese, 1980) foi pioneiro. De Niro engordou até ficar irreconhecível. É para o filme. Mas não é apenas um filme.
O CORPO É QUE PAGA
Fassbinder põe em causa os ideais do terrorismo com ‘A Terceira Geração’ (1979) cujo slogan era: Não faço bombas. Faço filmes. Uma comédia negra que provocou a ira dos espectadores: espancaram o projeccionista em Hamburgo e em Frankfurt atiraram ácido para o ecrã.
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