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De menino a São Bento - Sócrates

Contar a vida de um primeiro-ministro em funções é uma aventura nada fácil. Mas, a certa altura,<br/>a autora da biografia de José Sócrates, Eduarda Maio, conversou durante dez horas com<br/>o próprio. O livro vai estar à venda a partir desta semana

15 de junho de 2008 às 00:00

Otítulo da biografia (não autorizada) do primeiro-ministro sugere predestino para o cargo: ‘Sócrates, o menino de ouro do PS’. Mas não. 'O livro vai quase todo no sentido contrário. A chegada a primeiro-ministro é uma sequência de acasos' – revela Eduarda Maio, de 42 anos, autora da obra, editada pela Esfera dos Livros.

Há dois anos, esta editora chegou ao mercado português a lançar desafios, um dos quais à subdirectora da Antena 1. Pediram-lhe que escrevesse um livro. Sobre quê? E veio a ideia: 'Um político no seu auge.' José Sócrates – porque não? 'Falei com Edite Estrela a seguir ao congresso de Santarém, em Novembro de 2006. Ela foi a primeira pessoa a falar ao primeiro-ministro sobre a ideia de o biografar', conta a jornalista. Depois telefonou para a assessoria de Sócrates mas a agenda do também secretário-geral do PS estava sempre preenchida. 'Eu fiquei a aguardar, mas ia continuando com o meu trabalho. Mas também não insisti. Não é do meu feitio andar a pedinchar.' A oportunidade para falarem surgiu quando Eduarda comunicou àquele gabinete que o livro estava praticamente pronto.

E abriram-se as portas do Palácio de São Bento a Eduarda Maio. 'Para mim foi excelente, porque estava à espera de falar com o eng. José Sócrates uma hora ou duas. E ele, depois de conversarmos um bocado, disse-me que teria disponibilidade para marcar várias sessões', conta. Foram dez horas de conversa, em três períodos. 'Não conhecia o primeiro--ministro. Mas, a mim, admirou-me que ele se emocionasse com muitas coisas. E uma das que me surpreenderam mais foi quando falámos sobre Sottomayor Cardia. Sócrates, enquanto estudante, manifestou-se contra ele. Depois foram colegas no Parlamento. E ficou-lhe com uma admiração muito grande.'

Antes disso já Eduarda tinha feito todo o trabalho de investigação, incidindo na actualidade e na história recente da vida do primeiro-ministro. 'Parti do zero. Como jornalista, não faço política. Não tinha contactos na política.' Precisava de recolher informação na sede do PS, no Largo do Rato, em Lisboa, mas foi confrontada com a dispersão de papelada e com a inexistência de um arquivo central aonde pudesse ir buscar alguns conteúdos de carácter político. 'A informação está dispersa, não está trabalhada. É preciso pedi-la. A título de exemplo, os discursos todos dos secretários-gerais do Partido Socialista estão dispersos', refere. 'Há muita coisa ainda em sótãos e na casa dos socialistas que é uma pena perder-se.'

Igualmente importantes, como as palavras, são as imagens. 'As fotografias foram quase todas conseguidas através do primo do primeiro-ministro Fernando Morgado, de Vilar de Maçada, Vila Real. Há uma série de fotografias que são do pai e outras de Fernando Serrasqueiro', diz a jornalista. Sucederam--se conversas com os familiares e amigos próximos. É pelo encadeamento dos vários momentos e percursos da vida política de José Sócrates que a autora considera que o poder não lhe estava predestinado.

E foi com todo este trabalho feito que a jornalista partiu para a conversa com o biografado, na residência oficial. Afirma Eduarda que o primeiro-ministro lhe falou sempre 'num tom de voz ameno, muito baixo. Menos quando se excitava com alguma coisa' – um pouco diferente da imagem que muitas vezes deixa transparecer. Sócrates aceitou falar sobre o seu percurso político mas esta é uma biografia considerada 'não autorizada' já que, frisa a editora Esfera dos Livros, o chefe do Governo não interveio no conteúdo do livro.

'Para mim este é um trabalho jornalístico, onde eu não dou a minha opinião nem faço análise. Tento reconstruir momentos da vida dele', explica. Claro que, em certas questões, o chefe do Executivo socialista foi mais comedido. Noutras mais expansivo.

Eduarda Maio escolheu um título que considera 'arriscado', ‘Sócrates – o menino de ouro do PS’, aludindo a uma notícia do Correio da Manhã de 26 de Abril de 2002, como se pode ler no capítulo 10 da biografia – de que a Domingo publica a seguir alguns excertos.

'Essa é a primeira notícia que dá, na opinião pública, a ideia de que José Sócrates poderia ascender dentro do PS. E que tinha apoio interno', diz a jornalista. Alguns socialistas estavam a movimentar-se em prol dele. E esta era uma notícia avançada como resultado de uma sondagem que indicava que o ex-ministro socialista estava a ganhar popularidade a Ferro Rodrigues – 'foi uma vaga de fundo criada dentro do Partido Socialista' para levar à ascensão do político que agora chefia o Governo, aos 50 anos. Nessa altura havia já quem lhe chamasse ‘o menino de ouro’.

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