A lei transformou Casegas e Ourondo numa única freguesia. Nenhuma dá o ‘sim' a esta união forçada.
Casegas e Ourondo, duas aldeias do concelho da Covilhã, estão há gerações de costas voltadas - como duas vizinhas amuadas sem vontade para grandes conversas. Apesar da rivalidade que as separa, viviam em paz, cada uma com a sua Junta de Freguesia. Mas a lei da reforma autárquica, que juntou as duas numa só, acabou com o sossego: o povo de Ourondo nem quer pensar que perdeu a freguesia para Casegas; e os de Casegas lamentam ser obrigados a ficar com Ourondo.
Quem se lembrou de juntar as duas freguesias olhou para o mapa e nem consultou o horário dos autocarros. Teria verificado que o povo de Ourondo não tem transportes para a futura sede de freguesia: apenas uma camioneta para lá, às 10h30, e outra de volta, pelas 11h30. As ligações a Paúl, outra freguesia que faz extrema com Ourondo, estão mais facilitadas: dois autocarros de manhã, outros dois da parte da tarde.
"Por que razão não nos juntaram a Paúl?" - interroga-se José Rito, independente eleito nas listas do PSD, que ficará na história como o último presidente da Junta de Freguesia de Ourondo. A agregação com Casegas é, para José Rito, "andar para trás". O percurso dos autocarros é em direção à Covilhã - e Casegas fica no sentido contrário.
Ourondo perde em território para Casegas: escassos sete quilómetros quadrados, entalados entre a ribeira Caia e o rio Zêzere, contra os extensos 42 da aldeia rival. Não fora isso - e Ourondo ganhava em tudo. José Rito faz as contas ao que Ourondo tem e Casegas gostava de ter: orgulha-se da caixa multibanco, do rancho folclórico, da praia fluvial - e, principalmente, da escola primária onde uma dezena de crianças aprende as primeiras letras. "Em Casegas não há escola. As únicas duas crianças vão para Paúl" - diz sem disfarçar um sorriso de troça.
CASEGAS TEM BANDA
César Craveiro, o presidente eleito da nova junta, nascido e criado em Casegas, funcionário da Segurança Social, tem pena da escola encerrada por falta de crianças e gostava de ter na aldeia um Multibanco. Encolhe os ombros com resignação: não está nas suas mãos resolver o problema demográfico nem convencer a Banca das vantagens da caixa automática. Ainda assim, não se deixa ficar atrás da rival aldeia vizinha: Casegas também tem uma praia fluvial e tem uma bomba de gasolina que Ourondo muito gostaria de ter - para já não falar da Capela das Almas, classificada como monumento de interesse concelhio. Mas a menina dos seus olhos é a Casa do Povo, a associação cultural a que preside: "Temos uma banda de música centenária e, anualmente, organizamos dois eventos, ‘Olhares de Outono', uma feira de produtos da terra, e um festival de música tradicional e mostra gastronómica, que decorre no verão."
Quando a lei da agregação de freguesias foi aprovada na Assembleia da República, tanto os de Casegas como os de Ourondo promoveram ruidosas manifestações à porta dos Paços do Concelho da Covilhã. O motivo do barulho era comum, mas as duas aldeias não se juntaram nos protestos: cada uma manifestou-se em dias diferentes.
ROUBO NA IGREJA
Nesses dias de agitação à frente da câmara, só uma coisa os unia: rejeitavam a união das freguesias. Casegas não queria Ourondo e Ourondo não queria Casegas. A desconfiança entre as duas aldeias é ancestral. Ninguém sabe quando começou, e muito menos as razões que motivaram tanto azedume.
Os mais idosos de Casegas encontram nos confins da memória um acontecimento que teve o mesmo significado de uma ‘declaração de guerra': um grupo de Ourondo entrou em Casegas a coberto da noite - e levou do altar da igreja a linda imagem de Nossa Senhora do Carmo. A história, que ninguém se atreve a dar como certa, contada de geração em geração, arruinou o entendimento entre as aldeias.
A lei da união de freguesias, inabilmente traçada a régua e esquadro, apenas teve o único dom de trazer à flor da pele as recriminações antigas. O Estado deixa de pagar a um presidente de junta e com isso poupa 260 euros por mês. Nem mais um cêntimo. A nova freguesia vai manter o direito ao mesmo valor de financiamento anual por parte do Estado - os 43 mil euros que Casegas já recebia mais os 23 mil transferidos para Ourondo - e César Craveiro, o presidente eleito, garante que a antiga junta, agora como delegação da sede da freguesia, vai manter os mesmos funcionários. "Ninguém de Ourondo vai precisar de se deslocar a Casegas" - diz César Craveiro.
Até parece, assim à primeira impressão, que pouca coisa muda na vida das duas freguesias. Na prática, nada se altera. O povo de Ourondo continua a ter a sua junta onde sempre a conheceu. Mas com uma novidade - e não será uma novidade sem importância: o painel de azulejos à entrada do edifício vai ser substituído por outro. Talvez por uma placa mais pequena, envergonhada, para chocar menos: em vez de Junta de Freguesia de Ourondo, Junta de Freguesia de Casegas - mudança que faz toda a diferença. António Silva, de 74 anos, que correu mundo a assentar mármore, do Médio Oriente à América, nunca imaginou regressar a Ourondo para ser testemunha viva da "humilhação" da sua terra natal: "Se eu pudesse escolher, antes queria morrer do que fazer parte de Casegas" - grita de punhos cerrados.
LISTA CONJUNTA
No seguimento das manifestações contra a união das duas aldeias, César Craveiro começou a trabalhar na formação de uma lista independente para concorrer à assembleia da nova freguesia nas eleições autárquicas de 29 de setembro.
A iniciativa caiu mal a José Rito, presidente em exercício da Junta de Ourondo condenada à extinção. Rito garante à Domingo que outra coisa estava acertada: "Combinámos que ninguém, nem de Ourondo nem de Casegas, se apresentava às eleições. A Assembleia Municipal eleita teria de nomear uma comissão administrativa para a junta. Uma vez que Ourondo recusava juntar-se a Casegas e Casegas não queria agregar-se com Ourondo, a ausência de eleitos seria uma forma de protesto contra a união forçada das duas freguesias."
César Craveiro já anda na política local há muito tempo. Fez três mandatos consecutivos na presidência da Junta de Casegas. Os dois primeiros nas listas do PS. Mas um desentendimento com a concelhia socialista levou-o a mudar de campo. Nas eleições de 1993 apresentou-se a votos, ainda como independente, à frente da lista do PSD: voltou a ganhar as eleições. Encontrou agora caminho livre para voltar à política autárquica. Fê-lo - diz - "num ato de cidadania e para não defraudar a comunidade de Casegas". César Craveiro recorda que esteve sempre contra a reforma administrativa do território das freguesias: "É uma lei absurda que não respeita a história e a identidade das freguesias." Em Casegas - garante - só avançaram com a constituição de uma lista quando souberam que em Ourondo se preparavam duas listas: uma apoiada pela CDU, outra independente.
Mas as listas na aldeia de Ourondo não passavam, afinal, de uma vaga intenção. Quando José Rito soube que em Casegas já ia avançada a constituição de uma lista, telefona a César Craveiro: "Não seria melhor articular uma lista conjunta?" - sugere-lhe José Rito. Craveiro responde-lhe que "seria desejável fazê-lo".
CONVERSA ACABADA
Os dois autarcas encontram-se uma primeira vez, em Casegas, por finais de julho. A lista de César Craveiro já ia avançada - até porque o prazo legal para dar entrada no tribunal terminava a 5 de setembro. Craveiro pede a Rito que lhe indique um candidato para o executivo - uma mulher, a fim de cumprir a lei da paridade - e mais três ou quatro nomes para a assembleia municipal. José Rito volta a Ourondo para reunir com a assembleia de freguesia.
O presidente da Junta de Ourondo, José Rito, tem o sentimento de que os de Casegas partem para a lista conjunta numa posição de superioridade: já têm os seus nomes alinhavados e querem mais uns tantos da aldeia vizinha só para fazer número. César Craveiro não vê como a sua aldeia - com uma área de território seis vezes superior e com mais duas centenas de eleitores do que Ourondo - possa nesta delicada questão política local partir de uma posição de igualdade.
José Rito pretende negociar a lista conjunta a partir do zero. César Craveiro não cede: já tem a lista praticamente pronta e isso obrigava-o a substituir nomes de Casegas, com quem já firmara compromissos, por outros de Ourondo. O entendimento entre os dois homens fica prejudicado.
Ainda falam mais umas tantas vezes. Por fim, em finais de agosto, José Rito informa César Craveiro de que não encontra ninguém disponível para fazer parte da candidatura. Conversa acabada. Os partidos puseram--se de fora desta guerra.
Na manhã de 29 de setembro, domingo de eleições, estava tudo calmo em Ourondo. A GNR estava de atalaia, mas desmobilizou. O pior aconteceu depois da missa. Populares em fúria tomam de assalto a assembleia de voto - e destroem as urnas de voto em protesto contra a lista única à assembleia de freguesia.
As eleições são repetidas, domingo, dia 6. O povo de Ourondo fica em casa. Das três centenas de eleitores, apenas 10 se dignaram a votar: seis votos brancos, três nulos - e apenas um na lista única. Em Casegas, votaram 304 dos 649 eleitores: a lista teve 266 votos. César Craveiro é eleito.
Ourondo e Casegas têm agora pela frente uma luta comum: a separação - na esperança de que um futuro Governo lhes dê razão.
PRESIDENTE 'ABANDONADO' PELO DEPUTADO
José Rito, o presidente da Junta de Freguesia de Ourondo, não esconde uma mágoa: sente-se abandonado pelo deputado social-democrata Carlos São Martinho, natural da vizinha freguesia de Silvares, eleito por Castelo Branco, círculo a que pertence o concelho da Covilhã.
"Nas últimas eleições legislativas, o PSD elegeu dois deputados por Castelo Branco. Um deles foi Carlos São Martinho. Ourondo foi a única freguesia onde o PSD ganhou. Depois de eleito, o deputado veio cá agradecer os votos ao povo. Fez muito bem. Mas agora esqueceu-se do povo que lhe deu a vitória. Votou no Parlamento a aprovação da lei a agregar as freguesias e, nesta hora triste para Ourondo, nem sequer apareceu por cá, ao menos para nos dar uma palavra" - reclama José Rito.
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