A baixa altitude, o pequeno avião rebocava uma tarja com o anúncio a uma festa de uma discoteca algarvia, quando o motor parou. Jorge Carneiro, o piloto, tentou reiniciar a máquina.
A hélice não se moveu. Avaria grave! Apenas a planar, soltou a manga com as letras num local ermo “para não matar ninguém”. Perdeu altitude. “Tinha de pôr o tijolo no chão”, repetia. Sobrevoava Albufeira: fugiu da praia, porque ali podia morrer gente; afastou-se do mar, pois tinha medo de morrer afogado.
“Nesse momento, Deus deu-me a clarividência para ver um pequeno espaço, parecia uma rua em construção com um pequeno parque de estacionamento”. Fez-se à pista improvisada. Durou tudo 15 segundos. “A vida passou-me diante dos olhos”. Ouviu um estrondo. Apagou-se.
O dia 11 de Agosto deste ano vai ficar-lhe gravado na memória. Escapou da morte por milagre. O avião onde esteve uma hora encarcerado desfez-se a dois metros de um prédio. Ainda está no Hospital de Faro, a recuperar das lesões nas vértebras e a preparar outra cirurgia à face.
“Há muita gente que morre por menos”, diz. Não ganhou medo à profissão: “O meu primeiro pensamento foi voar no dia seguinte”. Vai demorar meses. Católico, 46 anos, piloto há dois anos e meio, rezava todos os dias antes de voar. “Houve aqui a mão e o pé de Deus”, acredita. “Isto deu--me ainda mais força de viver. Acho que revivi”.
Um acidente de avião é uma experiência violenta. Quem sobrevive nunca esquece. O patrão da Aero-Algarve, empresa para a qual Jorge Carneiro voava, saiu ileso de quatro acidentes. António Henriques da Cunha, 72 anos, é um aviador decano com nove vidas.
Em 1956, jovem piloto na Força Aérea Portuguesa (FAP), caiu para o vazio em pleno voo invertido, enquanto fazia acrobacias num Tiger Moth, porque o cinto de segurança se partiu. Valeu-lhe o pára-quedas aberto a tempo.
O avião despenhou-se. Uma vez em terra, correu para a base a perguntar a que horas tinha o próximo voo. Com o estado de choque, nem percebeu que toda a base tinha parado: “Estava inconsciente em relação ao que tinha acontecido”.
O segundo acidente foi com um helicóptero em Moçambique, durante a guerra, cujo motor parou a 100 metros de altitude. Ninguém se feriu. Os outros dois azares já sucederam no Algarve: há cinco anos um avião explodiu-lhe no ar enquanto fazia publicidade aérea; há três, uma avaria grave obrigou a outra aterragem forçada. Nunca teve medo. E voltou a voar.
O acidente na Jamba
Mas para quem não é profissional, viver um acidente aéreo deixa marcas mais profundas. “É uma experiência única na vida”, diz Rui Gomes da Silva, deputado do PSD, que há 13 anos sobreviveu à famosa queda do Cessna na Jamba, Angola, onde seguiam o socialista João Soares e Nogueira de Brito, do CDS.
A 23 de Setembro de 1989, no regresso de um Congresso da UNITA onde participavam como convidados, pouco depois da descolagem, João Soares, que ia sentado no cockpit, terá chamado a atenção do piloto para um problema técnico.
Mas depressa o avião embateu numa árvore, despenhando-se em chamas. O filho do então Presidente da República ficou entre a vida e a morte. Os outros dois deputados sofreram ferimentos mais ligeiros.
“Percebi que ia morrer ali. Tive essa noção durante aqueles longos segundos”, lembra Gomes da Silva, para quem a queda foi algo de “perceptível”, mas “impossível de descrever em palavras”. Não entrou em pânico: “Senti uma grande tranquilidade interior, é extraordinário”.
Sendo um jovem de 30 anos, era por natureza “revoltado com a morte”, mas após o acidente, passou a encará-la “como algo natural”. A experiência limite afectou-o: “Tem-se outra perspectiva da vida”, reconhece. O que não mudou foi o medo de andar de avião. Se antes já temia as aeronaves, agora tem muito mais receio. Mas não deixa de viajar.
O psiquiatra José Salgado assegura que um acidente tão violento “pode desencadear efeitos semelhantes ao stress pós-traumático de guerra”. E explica que nestas situações “podemos perceber a capacidade de adaptação e reacção do ser humano”.
As opiniões baseiam-se na experiência que teve em Agosto de 1999, quando apoiou um grupo de 50 portugueses que sofreu um acidente em Hong--Kong. O avião “capotou” e incendiou-se na pista. Morreu uma portuguesa que não tinha cinto. José Salgado, que ali participava num congresso, ofereceu-se para ajudar.
E acompanhou pelo menos uma dezena das vítimas. “Acho que no momento as pessoas reagiram com incredulidade, quase como se estivessem num filme e esse distanciamento é uma defesa”, explica. “Gerou-se uma reacção fóbica aos aviões e há quem ainda tenha dificuldade em passar perto de um aeroporto ou em ver um filme com um acidente que recorde o sucedido”.
Encharcados em água e combustível quando foram evacuados da aeronave, há sobreviventes cuja memória é reavivada pelo cheiro da gasolina. É difícil esquecer...
Daniel Duque, 27 anos, pelo contrário, nunca se esqueceu do acidente porque nem se recorda de ter sido salvo, tinha dois anos e meio.
Foi a 11 de Novembro de 1977, no grave acidente que um Boeing 707 da TAP sofreu no Funchal. Houve 131 mortos e 33 sobreviventes. Viajava com amigos da família e ia visitar a avó madeirense. Deve a vida a Emanuel Torres, amigo que também escapou, que o levava ao colo no avião e o recuperou com vida das águas do Atlântico.
Sem traumas que impeçam as viagens como consultor — vive em S. Paulo, no Brasil —, Daniel Duque é um sobrevivente sem consciência de o ter sido. “Como não me lembro de nada, nunca tive medo de voar, apesar do acidente ser sempre motivo de conversa”.
Quando era adolescente e os comandantes de voo sabiam que transportavam o rapazinho do desastre, convidavam-no a visitar o cockpit. “Até era um privilégio”, brinca.
Conviver com o perigo
“Devo ter estado um segundo confuso a pensar: isto é a morte, estou morto. Estava descontraído...” Francisco Vilhena, 32 anos, co-piloto na TAP, tentava não entrar em pânico enquanto se debatia debaixo de água para desapertar o cinto de segurança que o prendia ao assento do Pawnee — avião onde fazia publicidade aérea — e que acabara de se despenhar no mar.
Valeu--lhe o treino de surfista para aguentar água a invadir o habitáculo, suster a respiração, libertar-se, e nadar até à praia algarvia onde uns banhistas lhe quiseram bater, gritando “assassino!” — sem que tivesse atingido alguém. Rocambolesco. O motor parou. No meio minuto que teve para reagir, decidiu amarar. Salvou-se.
Mas aquele Verão de 1999 podia ter-lhe roubado a vida. Dois dias depois do acidente, o cabo que puxava a manga com os caracteres publicitários prendeu-lhe os comandos do avião e a aeronave ficou ingovernável: “Dessa vez, mais do que da primeira, vi a morte diante dos olhos, porque sem comandos não conseguia fazer nada”.
Puxou e repuxou por uma alavanca e só no último momento recuperou o controlo. Rebocar publicidade é uma das actividades mais arriscadas de um piloto. Mas Vilhena não desiste.
António Pinto Soares, hoje piloto na TAP, foi o primeiro a sobreviver naquelas circunstâncias. Em 1989, deu de caras com a morte quando uma gaivota lhe destruiu o reactor do jacto que pilotava -— um A7-Corsair da Força Aérea — a mais de 800 quilómetros por hora. Ao largo de Peniche, a 10 quilómetros da costa, ao verificar que perdera propulsão, tentou accionar o avião mas tal revelou-se impossível.
“Os americanos recomendavam que abaixo dos dois mil pés nos devíamos ejectar logo”. Ele viajava a 500 pés. Puxou o avião para cima para perder velocidade - a ejecção a 800 à hora seria pior que esmagar-se numa parede — , seguiram-se breves segundos... passou-lhe pela cabeça que a cadeira não funcionaria mas ejectou-se.
“Dizem que é difícil tomar a decisão, mas tinha de ser. Se a cadeira não funcionasse ia para as estatísticas”. Passou uns segundos inconsciente, e acordou com o pára-quedas a abrir, foi a sorte. “Se desmaiasse tinha morrido afogado; usávamos coletes salva-vidas que nos faziam boiar de bruços”.
Hoje na vida civil, aos comandos de um Chipmunk, o comandante José Munkelt Gonçalves continua a fazer acrobacias aéreas. Apenas com 25 anos e tenente da FAP, benzeu-se a bordo de um avião do mesmo modelo do que agora retirou da sucata, e despediu-se do mundo enquanto lhe vinha à cabeça que era o dia de anos do pai: 4 de Março de 1986.
Aos comandos do avião ia um camarada, ferido com gravidade. Voavam para fotografar o último Chipmunk que fora fabricado. Perto da base da Ota, o motor parou. O piloto escolheu uma clareira para a aterragem forçada. Munkelt comunicou a situação à torre de controlo.
Entraram pelas árvores adentro que lhe ceifaram ambas as asas, capotaram, e a aeronave ficou invertida, assente na cabeça do camarada, que esmagou uma perna entre os comandos e o rádio. “Quando olhei para as árvores pensei que ia morrer. Não havia nada a fazer... tinha de confiar nele e eu não teria feito melhor”.
Quando saiu do habitáculo começou o pânico. Convenceu-se de que o amigo estava morto. Quando os bombeiros chegaram para o desencarcerar fez uma coisa que ainda hoje não sabe como: com a mão direita, arrancou o rádio que prendia o colega, e ainda tem as cicatrizes dessa acção.
Voltou a voar ao fim de um mês. “Olho para trás e penso que tive muita sorte”, diz. Em termos religiosos, admite, ficou “muito agradecido por não ter morrido”. Esteve por um fio...
”Em Setembro de 1989, o avião em que eu seguia caiu em Angola. Caiu mesmo. E essa foi, penso que não o tomarão por excesso se o afirmar, uma experiência única. Aquilo que se designa comummente por uma experiência marcante.
Algo que não alterou a minha forma de estar, ou de ver este mundo que é o nosso. Mas ajudou a compreender melhor certas coisas e, sobretudo, distinguir muito melhor e mais rapidamente o essencial do acessório. Por isso me parece importante que no quadro de notas breves sobre a minha vida haja um traço sobre este momento especial.
Ou melhor sobre o momento ele próprio e o que se lhe sucedeu. Será esta, mais do que em qualquer outra, uma página em construção permanente. Até porque não tenho, sobre esta matéria, querido falar muito...”.
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