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Enlace perdidos de paixão

Vivem felizes e acreditam no amor eterno. Amanhã, véspera de Santo António, vão trocar as alianças. Tudo o que desejam é saúde, embora o euromilhões também desse jeito...

11 de junho de 2006 às 00:00

Omundo parou quando o conheceu. Perdeu a voz, perdeu-se no tempo. Tudo à volta ficou desfocado. “É lindo, é lindo”, repetia, em pensamento, sem parar. Ele também ficou assim, a pairar, lá longe, onde só a imaginação alcança. Foi há ano e meio. O coração de Bruna continua a bater forte, muito forte, ao ritmo do Renato. Como da primeira vez. Amanhã, na Sé Catedral, vão jurar amor eterno.

A paixão de Ana Sofia e Honorato não é muito diferente. Conheceram-se em 2001, numa acção da Câmara de Lisboa. Ele era o coordenador da iniciativa, ela monitora. Dizem que foi a química que os aproximou. Há cinco anos, como hoje, acreditam que foram feitos um para o outro. Estão em perfeita sintonia.

Nas palavras, nos gestos, nos gostos, nos desejos, nos projectos. Amanhã, no Museu da Cidade, um dos ex-líbris da capital alfacinha, vão uniar as suas vidas para sempre. Há quem diga que o primeiro amor nunca acaba. Rita e Bruno são disso testemunha.

Eram miúdos quando se conheceram. Ele tinha doze anos, ela treze. Viviam na mesma rua, alinhavam nas mesmas brincadeiras, frequentavam a mesma escola. Ele foi o primeiro amor dela. Ela foi o primeiro amor dele. Onze anos depois do primeiro beijo, da primeira carícia, da primeira declaração de amor – tão inocente quanto sentida, tão pura quanto verdadeira – Rita e Bruno vão casar-se amanhã.

A 27 de Outubro de 2003, Wilson recebeu a melhor prenda de aniversário da sua vida: o sim de Cátia, até que a morte os separe. Carteiro, ao tempo, Wilson palmilhava 17 quilómetros por dia, distribuindo perto de três mil cartas. Conhecia cada rua, cada porta da zona da Madre de Deus. Um dia bateu ao 107 e a sua vida mudou para sempre. Era ali que morava Cátia, hoje operadora de caixa, na altura estudante.

Só Deus sabe o que sentiram quando os olhares se cruzaram. Que loucura, que paixão, que amor! Quatro histórias, quatro casamentos que se multiplicam por quatro: cumprindo a tradição, Lisboa apadrinha amanhã o enlace de dezasseis casais. Onze fazem-no pela Igreja, os restantes apenas pelo civil. As cerimónias decorrem em dois locais distintos: a Sé Catedral e o Museu da Cidade.

O 1º CASAMENTO

Os Casamentos de Santo António começaram em 1958, por iniciativa do extinto jornal Diário Popular. O objectivo era possibilitar o matrimónio a casais com maiores dificuldades económicas.

Pretendia-se, também, materializar a fama casamenteira do santo, uma das figuras mais carismáticas da cidade. Os noivos seleccionados ganhavam um enxoval e equipamentos domésticos. Curiosamente, nessa altura, era exigida uma insólita garantia de virgindade, provada clinicamente. A revolução dos cravos, em 1974, acabou com a iniciativa – um pouco a exemplo do que aconteceu com o desfile das Marchas Populares, cujos desfiles foram interrompidos, só sendo retomados na década de oitenta.

O longo jejum dos Casamentos de Santo António terminou, apenas, em 1997, mas com o mesmo objectivo: ajudar os mais desfavorecidos que pretendam casar, nesta data, com a autarquia a suportar todas as despesas inerentes à boda, incluindo a lua-de-mel. A mediatização da iniciativa, com a transmissão televisiva das cerimónias, ajudou a consolidar uma tradição que se julgava perdida e que, actualmente, os alfacinhas já não dispensam e que a autarquia faz questão de manter.

“A Câmara continua firme no seu propósito de manter esta marca tão característica da cultura e da identidade dos lisboetas, mas que representa, ao mesmo tempo, uma oportunidade única para muitos dos jovens que escolhem esta data para contrair matrimónio, mantendo o seu cariz solidário desde que a cidade abraçou o evento”, nota o presidente da autarquia, Carmona Rodrigues.

Alguns dos casais que amanhã vão trocar alianças já vivem debaixo do mesmo tecto. É o caso de Susana e Paulo – um romance que começou de forma curiosa. Cruzavam-se todas as manhãs nos jardins de Belém, pedalando de cá para lá, de lá para cá. Andaram nisto semanas. Ele não tinha coragem, ela era mulher, parecia mal ‘meter-se’ com ele. Um dia, a medo, colou na roda de Susana e lá disparou, “Olá, como te chamas”. Ela sorriu e respirou fundo... “UF!, até que enfim”.

Com Cláudia e Júlio foi diferente. O rapaz andava atrás dela, combinava encontros, mas na hora de aparecer, fugia. “Até que decidi ir ter com ele e lá perdeu a vergolha”, conta a jovem. Foi o namoro mais complicado dos dezasseis casais de Santo António. Ele era da Mouraria e, cada vez que subia à Pena, era olhado de soslaio, “quase como um marginal”. O pai dela também não gostava muito da brincadeira, o que complicava ainda mais as coisas.

Afinal, como nos contos de fadas, os pais de Cláudia e Júlio eram grandes amigos, conheciam-se desde criança. O mesmo atrevimento teve a Andreia, quando conheceu o Bruno. Eram bilhetes e bilhetinhos, flores e peluches. “Mas quem?”, dizia ele, cada vez mais intrigado. A dúvida acabou por se desfazer, semanas depois, no escurinho do cinema...

Se há provas de amor, a surpresa que Rodolfo fez a Ana desfaz todas as dúvidas. Não é ficção, mas a história parece retirada de um filme de Hollywood. Numa noite de estrelas, Rodolfo convidou Ana Batista para um passeio romântico à beira-mar, ali para os lados da Fonte da Telha. Chegados ao areal, Ana ficou “estúpida”. Então não é que Rodolfo tinha construído uma cabana com canas para passarem a noite?!

E com todos os requintes: almofadas coloridas, velas por todos os cantos. Só faltou um lençol, um cobertor. É que estava tanto frio, que não deu para passar a noite. Como se não bastasse, os mosquitos atacaram em força, deixando Rodolfo como um cristo... Juvenal preferiu um presente à moda antiga para conquistar o coração de Anabela. A sua Anabela. Ofereceu-lhe uma rosa vermelha, o suficiente para acender o fogo da paixão: “É artificial, mas é muito bonita. Dorme connosco, vai para 12 anos. Está em cima da mesinha de cabeceira”. Ao longo do tempo, Juvenal continuou a oferecer-lhe flores, muitas flores.

Ela retribui-lhe com a voz, a voz do fado: “Adora o ‘Sem Razão’ e é talvez o que canto melhor”. Quando o vê mais triste, porque a vida também é feita de tristezas e amarguras, afina a voz e canta Amália. Ele ouve, embebecido, como se fosse a primeira vez. A chama do amor também incendiou os corações de Cláudia e Emanuel. Eram bombeiros quando se conheceram. Andavam a aprender. Naquele dia, tratava-se de manobrar a agulheta, que, sob pressão da água, serpenteia como uma cobra.

São necessárias duas pessoas para a agarrar. Cláudia e Emanuel faziam equipa. Estava difícil tomar-lhe o jeito, até que o instrutor gritou: “Oh , homem! Agarre-se à agulheta e chegue-se à rapariga, que ela não morde”. Emanuel, a medo, lá se foi chegando. “Como vi que não mordia, quando saímos do treino perguntei-lhe: Quem paga o café”. Foi o início de uma amizade que acaba agora em casamento.

Jelena também vai casar-se. A noiva de Leste, como é conhecida, veio da Letónia para passar três meses de férias com uns amigos. Já cá está há seis anos e por cá deverá continuar por muito mais tempo, agora que encontrou o amor da sua vida, o Pedro. Diz que foi amor à primeira vista. Ele partilha da mesma opinião e nem sequer é necessário perguntar-lhe se está apaixonado. Basta ver a forma como a ouve, parece maravilhado com cada palavra, cada pequeno gesto.

E é por gestos que o amor de Rita e Paulo se expressa e ganha vida. Nunca trocaram uma palavra. Rita é surda e tem dificuldades na fala. Paulo é surdo-mudo de nascença. Conheceram-se há sete anos, na Associação de Surdos. Frequentavam o mesmo café, no Campo Grande. Foi aqui que tudo começou. Fruto desta paixão nasceu a pequena Sara, agora com 14 meses. Desde que namoram, que Rita sempre disse que queria ser uma noiva de Santo António. Amanhã, vai ver o seu sonho realizado.

A HISTÓRIA

Santo António, de seu nome Fernando Martins de Bulhões, nasceu em Lisboa em 1195 e morreu em Pádua com apenas 36 anos. Foi canonizado um ano após a sua morte. A fama de santo casamenteiro vem do dia em que, conta a lenda, uma jovem, bonita e formosa, adquiriu uma imagem do santo. Estava cansada de esperar pela cara-metade e, desesperada por não encontrar par, decidiu recorrer a Santo António. Benzeu a imagem e, todos os dias, enchia-a de flores, acompanhando o ritual com uma oração. O pedido era sempre o mesmo: que o santo fizesse o milagre de lhe arranjar um noivo. Mas não havia meio de o noivo aparecer.

Passaram-se semanas, meses, anos e a jovem continuava sozinha. Desapontada, praguejou contra o santo e tomou uma atitude radical: pegou na imagem e atirou-a janela fora. A imagem voou em queda livre e bateu em cheio na cara de um jovem cavaleiro, que passava no local. Pegou nela e foi entregá-la à jovem desesperada. Foi amor à primeira vista. E viveram felizes para sempre...

ANA SOFIA E HONORATO

A Ana tem 25 anos e é educadora de infância. Honorato também tem 25 anos e é técnico de animação cultural. Namoram há cinco anos. São ambos adeptos do Sporting, gostam de ouvir Ricky Martin e têm um desejo: ganhar o euromilhões.

ANA FILIPA E LUÍS CARLOS

Adeptos do Benfica, esperam ter sorte na vida. Ana, 21 anos, cabeleireira, diz que é teimosa e que gosta de ajudar os outros. Uma qualidade também do Luís, 32 anos, lavador de vidros, que reconhece, contudo, ser uma pessoa temperamental.

CLÁUDIA MAURÍCIO E JÚLIO CÉSAR

‘Romeu e Julieta’ foi o filme que marcou Cláudia, 20 anos, desempregada, adepta do Benfica. Júlio, 23 anos, agente de tráfego, também é encarnado, mas gostou mais de ‘Mentiroso Compulsivo’. Só querem ser felizes.

RITA TATIANA E PAULO ALEXANDRE

Auxiliar num lar, Rita tem 27 anos e assume ser muito desconfiada. Paulo 33 anos, cabouqueiro, também é um bocado. O grande desejo do casal, que confessa a sua paixão pelo clube da Luz, é ter uma casa própria.

CÁTIA SOFIA E WILSON DAVID

Cátia tem 19 anos e é operadora da caixa. Wilson tem 21 e é vigilante. Ela é teimosa, ele impaciente e um verdadeiro leão. Diz que a sua melhor qualidade é ser do Sporting e que o seu maior desejo é ver o clube regressar às grandes vitórias.

Clubisticamente, os corações batem em campos opostos. Bruna, 23 anos, bailarina, é do Benfica; Renato, 23 anos, vendedor, é do Sporting. Os gostos musicais também divergem, ela gosta de Rui veloso, ele vai mais pelos Xutos e Pontapés.

JELENA KURECA E PEDRO MIGUEL

Natural da Letónia, Jelena tem 24 anos e é assistente de consultório. Ele tem 30 e é vendedor. Conheceram-se numa exposição. São teimosos. Ela adorou o ‘Matrix’, ele o ‘Pulp Fiction’. Querem estar juntos até à morte.

VERA SUSANA E ADELINO PEDRO

Vera tem 25 anos e é empregada de mesa. Adelino tem 30 e é mecânico. Começaram a sair depois de uma ida à praia. Adeptos do Benfica, dizem-se teimosos, adoram música brasileira e têm um desejo em comum: ter saúde.

ANA LAURA E RODOLFO MIGUEL

Defeitos podem ter muitos, mas há uma coisa de que não os podem acusar: falta de profissionalismo. Ana, 25 anos, empregada de mesa, diz que ‘O Código Da Vinci’ lhe deu que pensar. Rodolfo, 25 anos, é vigilante e um um apaixonado pelos U2.

CLÁUDIA PATRÍCIA E EMANUEL TOMÉ

Ela é bombeiro, ele militar. Ela tem 25 anos, ele 24. Conheceram-se na escola de bombeiros. Cláudia garante que tem bom coração, Emanuel considera-se um lutador. ‘Braveheart’ e ‘Cercados’ são os filmes de eleição. Ela gosta de Seal. Ele de HIM.

MARIA DE FÁTIMA E JOSÉ MARIA

Maria tem 38 anos e está actualmente desempregada. José tem 33 e é empregado de mesa. Conheceram-se no emprego, quando eram colegas. Namoram há quatro anos. Ela diz que ele é honesto. Ele que ela é carinhosa.

SUSANA SANTOS E PAULO RIBEIRO

Paulo, 28 anos, torce pelo Beleneneses, Susana, 21, é adepta do Benfica. Ela trabalha como vigilante, ele como guarda-freio. O seu sonho é abrir uma discoteca e já tem planos. Gostam ambos de música espanhola.

ANDREIA AFONSO E BRUNO MIGUEL

Do signo Virgem, Andreia tem 25 anos e está desempregada. Bruno, Escorpião, é mais novo, tem 23 e é vendedor. Têm um filho, de seis meses, que foi operado recentemente a um rim. A sua maior preocupação, neste momento, é a saúde do Pedrito.

ANABELA SILVA E JUVENAL SILVA

Já entraram na ternura dos quarenta, ela tem 43 e ele 44. Anabela é telefonista, Juvenal é bombeiro. Foi o Santo António que os uniu. Ela marchava com as cores do Castelo, ele ajudava à festa. Ela gostava de fazer em cruzeiro, ele de ir ao Mundial.

ANABELA SILVA E JUVENAL SILVA

Já entraram na ternura dos quarenta, ela tem 43 e ele 44. Anabela é telefonista, Juvenal é bombeiro. Foi o Santo António que os uniu. Ela marchava com as cores do Castelo, ele ajudava à festa. Ela gostava de fazer em cruzeiro, ele de ir ao Mundial.

DINA TERESA E LUÍS FILIPE

Trinta e cinco anos, desempregada e adepta do Benfica, Dina diz que gosta de ajudar os outros e que tem como defeito o falar de mais. Luís, 32 anos, electricista e amante dos Pink Floyd, quer melhorar a sua situação profissional.

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