Ficou mundialmente conhecido depois da série ‘La Casa de Papel’ ter chegado à Netflix, mas antes do fenómeno viveu dias amargos.
O espanhol Enrique Arce veio a Portugal apresentar o seu primeiro livro, ‘A Grandeza das Coisas Sem Nome’ [ed. Esfera dos Livros], no qual a personagem principal faz uma viagem de autodescoberta paralela à que o ator viveu nos últimos anos. Pretexto para falar do lado B da fama.
O que o levou a escrever este livro, em que a vida do protagonista tem muitas semelhanças com a sua?
Eu comecei em 2014 a fazer muitas perguntas. Pude reconhecer que o êxito de que estava constantemente à procura na minha vida não estava lá, a felicidade não estava lá. Pior: tinha há anos uma conduta muito acentuada de autodestruição com álcool e drogas e noite. E depois todo esse êxito desapareceu, o dinheiro desapareceu, a crise do setor foi muito grande em Espanha e fui para Londres e não aconteceu nada nos primeiros meses. Estava muito amargo, frustrado e dei por mim numa rixa num bar, fiquei com a cara desfeita, um derrame ocular, não podia trabalhar como ator, achei que não trabalharia mais. Foi como um renascimento, porque me impulsionou a começar uma viagem de crescimento espiritual que se converteu no mais importante da minha vida: descobrir o que faço aqui.
Espiritualidade... Deus?
No meu caso pessoal, sim. Eu tenho prova de que pedi e foi escutado. Em Londres fui um dia a uma igreja, completamente abatido, feito m..., pedi ajuda a Deus porque não aguentava mais. Desde esse momento a vida mudou exponencialmente. Pedi um sinal e esse sinal foi que o meu caminho era escrever livros. Não queria escrever um livro de autoajuda, queria escrever uma história, mas esta história está contaminada por todas estas coisas que eu estava a perceber na minha vida ao mesmo tempo. No início só sabia que Samuel tinha de ter muito sucesso profissional, mas esse sucesso tinha de estar acompanhado por uma vida triste e desestruturada, para falar de que por vezes o sucesso é uma condenação, não uma vitória.
Curiosamente, o seu maior sucesso, ‘La Casa de Papel’, chegou quando desistiu...
Porque as coisas grandes e especiais da vida, as coisas que realmente queres e desejas, acontecem quando deixas de precisar delas. Não tenhas sonhos, deixa que o universo sonhe por ti, ele sabe perfeitamente o que tu precisas. Que a vida não te dê as coisas que tu queres, que te dê as que necessitas.
Por causa dessa consciência viveu este êxito de forma mais tranquila?
Sim, porque já não queria nada. Recebo com gratidão e um sorriso mas não me projeto neste êxito. Não mudou nada a forma como me vejo hoje em dia. Não tenho nada a ver com o Arturo da ‘Casa de Papel’, ele ocupa uma parte muito pequenina da minha vida.
Quando estavam a gravar a ‘Casa de Papel’ imaginaram o sucesso?
Nenhum de nós podia imaginar. Nem o diretor da Netflix [serviço de streaming] que adquiriu a ‘Casa de Papel’ e que é muito meu amigo fazia ideia do fenómeno que ia ser. Talvez tenha sido o facto de ser um golpe contra o sistema, rebeldia
de personagens que não têm nada
a perder, é muito fácil reconhecer-se nelas. E depois um contágio, efeito dominó.
Alguma peripécia das gravações?
Quando eu levo um tiro há um cirurgião que tem de coser. A forma de gravar foi esta: há um ator que diz "passa-me isto, passa-me aquilo", mas quem me cose é um cirurgião de verdade, embora a câmara só lhe filme as mãos. Este cirurgião começa a coser e depois eu vou à maquilhagem e o tipo dos efeitos especiais diz: "Fuck, oh my God, ele enganou-se, coseu a pele de verdade em vez do pedaço de silicone." Ele coseu-me a pele e eu não senti nada, sentia tanta adrenalina... E tenho outra coisa engraçada: estava aflito para urinar, entrei numa casa de banho e só depois ouvi um dos diretores de arte a dizer "cuidado aí que temos de levar o cenário". Era um urinol de mentira. Mas já estava (risos).
Já gravou a terceira temporada?
Já tivemos um dia de gravações.
O Arturito promete?
Promete muito. É uma personagem que cresceu muito. E tem muito que ver com esta minha faceta de escritor. Não posso dizer mais nada mas também escreve livros…
Plataformas como a Netflix abriram a ficção espanhola ao Mundo?
Sim, tanto que investiram cinco mil milhões de euros nuns estúdios muito grandes em Madrid, estamos a filmar num deles a terceira temporada da ‘Casa de Papel’. Tem sido uma bênção para os atores: muito mais trabalho, mais produção, mais equipas empregadas, uma coisa necessária depois de tanta crise.
Os atores espanhóis são agora reconhecidos no Mundo inteiro...
Desde a ‘Casa de Papel’ não é possível andar na rua na maior parte do Mundo. Na Argentina, Venezuela, Brasil, Colômbia, Turquia, Dubai, Marrocos, Polónia, todos os lugares onde estive, menos no Sudeste Asiático. Na Indonésia e na Tailândia é mais tranquilo.
Chamam-lhe Arturito na rua ?
Toda a gente. Até a minha mãe me chama Arturito (risos).
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