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Epicentro do horror

Depois dos atentados do 11 de Setembro o mundo nunca mais foi o mesmo. Passados cinco anos, o terrorismo islâmico constitui uma ameaça permanente para o Ocidente.

10 de setembro de 2006 às 00:00

Na segunda-feira véspera do 11 de Setembro de 2001, desembarca-se em Nova Iorque com a maior das tranquilidades desde que, junto aos postos de verificação dos passaportes, se tivesse atenção em não pisar a ‘yellow line’, percalço que sempre irrita os corpulentos polícias negros que falam como quem troveja. No sábado seguinte, quando voltou a haver aviões a levantar voo do Aeroporto J.F. Kennedy, as filas de passageiros começavam à porta dos terminais, onde só se entrava depois de cuidadosa revista, e estendiam-se pelas vias de acesso até perder de vista. Esperava-se mais de duas horas para entrar e o ‘check in’ não era logo a seguir. Havia que arrastar a mala por filas serpenteadas nos átrios até chegar à balança da separação. E, despachada a bagagem, tinha de se aguardar pela chamada para o acesso à manga de embarque mais do que o tempo normal entre duas refeições. Não se podia dizer que o mundo não tinha já mudado.

Por mais que se diga que continua a haver pobres e ricos e que todos os males acontecem por o presidente George W. Bush, dos Estados Unidos, ser pouco inteligente e querer mandar no mundo, cinco anos depois dos atentados do 11 de Setembro contra as Torres Gémeas, de Nova Iorque, e os comandos militares do Pentágono, em Washington, vivem-se de facto outros tempos de insegurança e desconfiança política, para além dos efeitos da alta do preço do petróleo na economia, crise nos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, imposição de poderes judiciais, distorções no funcionamento da justiça e subjugação da democracia à ditadura dos serviços secretos, por onde perpassam interesses indesvendáveis. Tudo porque naquele dia, metidos em quatro aviões comerciais, 19 terroristas da al-Qaeda provocaram a morte de quase três mil pessoas apanhadas numa sanha de ódio suicida que se reclama com base política e religiosa.

MANHÃ DE TERROR

Daquela manhã de sol sem nuvens na costa Este dos EUA ficou sem se saber qual era o destino a destruir pelo Boeing 757 do ‘Voo 93’ da United Airlines, entre Newark e Los Angeles, que acabou por se despenhar nos campos agrícolas da Pennsylvânia. Sobre o outro 757 do voo 77 da American Airlines, de Washington DC para Los Angeles que se precipitou sobre a fachada central do Pentágono às 9h37 ainda há quem cultive mistérios. O que todo o mundo viu com horror, às 9h03m11s da manhã de Nova Iorque, foi já com a parte superior da torre norte do World Trade Center a soltar fogo e fumo, um Boeing 767 do voo 175 da United Airlines entre Boston e Los Angeles embater também contra andares muito altos da gémea torre sul. O voo que às 8h46 terminara tragicamente com o choque na primeira torre atingida era o 11 da American Airlines, igualmente entre Boston e Los Angeles, num Boeing 767.

Os gigantes archotes de fumo em que rapidamente se transformaram as Torres Gémeas tornaram-se, menos de duas horas depois, num vulcão apocalíptico. Mais de 2750 pessoas ficaram lá enterradas. A primeira reacção foi o mundo gritar não ao terrorismo da al-Qaeda de Osama bin Laden. Apesar de dias antes ter aparecido a notícia de um estudo que se verificou ser falso, sobre o fraco quociente de inteligência do presidente George W. Bush, os índices de apoio disparam imediatamente para valores de unanimidade. No próprio dia, uma sondagem telefónica deu que 94% dos americanos apoiavam uma acção militar contra os responsáveis dos atentados e só 3% estavam contra. Ainda que tal arrastasse os EUA para uma guerra, 92% mantinham-se a favor e os contra subiam só para 4%. Apavorados com uma manhã de colapso, 64% declaravam-se dispostos a abdicar de liberdades e direitos de cidadania de que beneficiavam para ajudar o governo a derrotar o terrorismo.

Ao mesmo tempo, nos quatro cantos do planeta, manifestava-se uma solidariedade de medo com a América e parece, pelo que nesses dias se via na televisão, que só nos territórios atribuídos à Autoridade Palestiniana de Yasser Arafat, umas criancinhas em rodagem para o terrorismo no Hamas e do Hezbollah festejavam a tragédia infligida aos americanos. As imagens punham os patriotas das ‘stars and stripes’ em fúria. Os incontidos desatavam à punhada nas mesas e só paravam quando, pouco depois, o noticiário mostrava a explosão luminosa de um míssil disparado sobre território do Afeganistão, sob controlo dos taliban e parceiros da al-Qaeda.

Havia uma vontade geral de acabar com o fundamentalismo do Islão e quando quatro semanas depois Bush anunciou a ofensiva militar contra o poder afegão, a ideia dominante é que o terrorismo seria aniquilado na fonte e Bin Laden apanhado à unha, numa caverna das montanhas da fronteira com o Paquistão. Não se imaginava que o líder da al-Qaeda até pudesse fugir de mota às forças americanas, nem que o cego chefe espiritual mulah Omar lograsse escapar por entre o cerco feito a Kandahar. É verdade que Cabul caiu em poder das forças pró-americanas ao cabo de 37 dias, mas ainda hoje militares da NATO morrem vítimas de guerra e de terrorismo no Afeganistão.

Cinco anos depois do 11 de Setembro de 2001 constata-se que o mundo não só está diferente, como com o patinar das intervenções militares, no Afeganistão e, a partir de Março de 2003, no Iraque se gerou a consciência das dificuldades e perigos da guerra para derrotar o terrorismo islâmico.

OPINIÃO PÚBLICA

Há um sintomático termómetro da evolução da mudança. Trata-se da avaliação das opiniões favoráveis aos EUA nos outros principais países do mundo. Desde as semanas seguintes ao 11 de Setembro de 2001 está em queda em todos. Mesmo nos aliados tradicionais como a Grã-Bretanha, Alemanha e França, onde os índices apresentados há uma semana na revista ‘The Economist’ ainda se situam acima dos 60%. Mas a complexidade da situação não cessa de suscitar dúvidas.

Nem as significativas vitórias eleitorais de Bush, nas Presidenciais de Novembro de 2004, com mais 3,5 milhões de votos do que o candidato democrata John Kerry, nem o inédito terceiro mandato arrebatado pelos Trabalhistas de Tony Blair, nas Legislativas britânicas de Maio de 2005, os põem a coberto de críticas permanentes. E a sua imagem junto da opinião pública não é boa, nem convincente. Só nos novos dias de juízo nos aeroportos depois de, a 10 do passado mês de Agosto, a polícia britânica ter desarmado um plano para fazer explodir uma dezena de aviões de passageiros em voos sobre o Atlântico, é que Bush recuperou a popularidade – com 42% de opiniões favoráveis, quando tinha 37% no início de Agosto. E Tony Blair, de férias nas Caraíbas, não tirou vantagem: 72% dos britânicos inquiridos recentemente sobre a política estrangeira do Governo consideraram que ele fez crescer a ameaça terrorista sobre a Grã-Bretanha e só 1% respondeu que o país estava mais seguro.

Os ataques políticos a Bush e Blair centraram-se no Inverno de 2004, quando José Maria Aznar implicou o PP, já sob liderança de Mariano Rajoy, numa surpreendente derrota eleitoral contra o PSOE, de José Luis Zapatero, quatro dias depois dos mortíferos atentados dos comboios regionais de Atocha, na condenação histórica e política dos quatro da fotografia da Cimeira de Fevereiro de 2003 nos Açores, em que também figurava, como anfitrião, o primeiro-ministro português Durão Barroso.

A nível interno, o então líder do PSD sofreu uma derrota notória nas Europeias de Junho de 2004, mas em termos pessoais esconjurou os fatalismos ao ser convidado no mês seguinte para assumir a presidência da Comissão Europeia. Afinal, três anos e meio depois da fotografia dos quatro na declaração de guerra ao Iraque, assinada nos Açores, só Aznar está fora do poder.

Mais arrasador para as imagens políticas de Bush e Blair foi o argumento da ameaça das armas de destruição maciça alegadamente possuídas por Saddam Hussein e apresentadas em fotografias pelo secretário de Estado norte-americano Collin Powell no Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas que ninguém encontrou quando em três semanas forças americanas e inglesas invadiram o Iraque. A vitória militar, o derrubar das estátuas de Saddam e até a sua prisão no fundo de um toca não impediram que há mais de três anos os exércitos ocupantes, mesmo depois da eliminação de Al Zarqawi, n.º 1 da al--Qaeda local, continuem a somar mortos no meio de um confronto terrorista.

DESCONFIANÇA POLÍTICA

A não confirmação da existência de armas de destruição maciça no Iraque pesa ainda como desvantagem na mais recente situação provocada pela decisão do Irão do presidente Ahmadinejad levar por diante um processo de enriquecimento de urânio. A ameaça é terrível, com a hipótese de radicais islâmicos poderem deter no seu arsenal a bomba atómica que desde Hiroshima e Nagasaki, no final da Segunda Guerra Mundial 1939-45, constituía a arma dissuasora máxima. Os cidadãos ocidentais estão desconfiados das verdadeiras intenções dos seus líderes políticos, como apontou uma sondagem feita na Grã-Bretanha logo após as prisões relacionadas com a iminência de mais um grande atentado islâmico, com 21% a considerarem que se exagerara na ameaça e 51% a afirmarem que o governo não dissera toda a verdade.

A desconfiança política, a par de uma relativização dos perigos consequentes e o desgaste provocado pela sucessão de horrores, o último dos quais foi aos olhos dos cidadãos a destruição em grande escala do sul do Líbano, na guerra de Israel contra o Hezbollah, acaba por criar tolerância ao terrorismo. A vitória do Hamas nas eleições na Palestina e a forma como o Irão dos ayatollahs e Ahmadinejad joga com ideias enraizadas no Ocidente e o anti-americanismo subconsciente são factores de inquietação e de alerta para o perigo de derrota às mãos dos algozes do 11 de Setembro de 2001. E também do que veio a seguir.

Só atentados mais sanguinários, com mortes às dezenas e centenas, há que referir Bali, na Indonésia, em Outubro de 2002 e Outubro de 2005, o 11 de Março de 2004 em Madrid, o 7 de Julho de 2005 em Londres, a devastação dos hotéis de Charm-el-Cheikh, no Egipto, em 25 de Julho também do ano passado. Um terrorismo islâmico que constitui uma ameaça permanente para o Ocidente, mesmo quando, como aconteceu a 10 de Agosto, a segurança britânica conseguiu desarmar nova barbárie em preparação para 11 de Setembro. Cinco anos depois, o horror está vivo. Mas já um pouco entranhado.

- Objectivo a destruir pelo Boeing 757 do Voo 93 da United Airlines que acabou por se despenhar no campo perto da localidade de Shanksville, na Pennsylvânea, com restos de avião espalhados por uma distância de 13 km.

- Inteligência política de Bush destroçado no filme ‘Fahrenheit 9/11’ de Michael Moore que o apresenta ao serviço das empresas petrolíferas e de armamento, e por constantes críticas vindas até de aliados, além das ‘gaffes’ consecutivas do próprio.

- Iraque como alvo da guerra contra o terrorismo, quando apesar de dar guarida a alguns terroristas famosos como Abu Nidal, o regime ditatorial de Saddam Hussein sempre se distanciou de poderes religiosos e da al-Qaeda.

- Hamas e Hezbollah igual a al-Qaeda em termos de acção terrorista por proclamarem os mesmos objectivos políticos de destruição de Israel, ligarem a acção social e religião, para além de desprezarem a vida própria e a dos outros.

- Desenvolvimento nuclear do Irão entre a arma política de afirmação de potência regional e liderança do mundo árabe e a real possibilidade técnica do poder dos ayatollah conseguir a bomba atómica, arma de terror e dissuasão máxima.

AS GRANDES MENTIRAS

- Atentados por correio com Antrax mobilizaram nas semanas seguintes ao 11 Setembro grandes meios de segurança nos EUA e em todo o Ocidente, inculcando insegurança e pânico para facilitar restrições à liberdade individual.

- Armas de destruição maciça no Iraque que constituíram o grande argumento da invasão daquele país pelas forças militares lideradas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha e sobre as quais não se encontraram quaisquer provas.

- Perus do Dia de Acção de Graças de Bush no Iraque que eram de plástico e só para a fotografia e ridicularizaram a visita secreta do presidente dos EUA às tropas americanas no final de Novembro de 2003, em dia de grandes tradições familiares.

- 11 de Março de 2004 em Madrid atribuído à ETA nas primeiras notícias dadas pelo governo espanhol acabou com a carreira política de José Maria Aznar e custou três dias depois uma derrota do seu PP frente aos socialistas de Zapatero.

- Maldição política da Cimeira dos Açores que reuniu em inícios de Fevereiro de 2003, nas Lajes, George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e José Manuel Durão Barroso. A propaganda da Esquerda sobre a penalização democrática não se concretizou ou foi mesmo desmentida em eleições.

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