Uma viagem às proibições do antigo regime. Os leitores nascidos em democracia poderão até duvidar de algumas mais absurdas.
Num Portugal não muito distante, os namorados que fossem apanhados com a ‘mão na mão’ (um do outro, entenda-se) pagavam dois escudos e cinquenta centavos, multa que aumentava consoante a audácia dos pombinhos. Rezava a portaria 69 035 da Câmara Municipal de Lisboa, datada de 1953, que com a "mão naquilo" a coima era de 15 escudos (7,5 cêntimos de euro); com "aquilo na mão" de 30 escudos (15 cêntimos); com "aquilo naquilo" o valor a pagar era 50 escudos (25 cêntimos); com "aquilo atrás daquilo" tinham de desembolsar 100 escudos (50 cêntimos) e "com a língua naquilo" não só tinham de pagar 150 escudos (75 cêntimos) como eram presos e fotografados.
Há coisas que nunca mudam, seja qual for o regime político e uma delas é que os apaixonados perdem facilmente o amor ao dinheiro em prol da pessoa amada. Para se ter uma ideia do desaire financeiro – e do quanto representavam na altura estes flagrante para a carteira, em 1955, um funcionário do comércio ganhava por dia, em média, 84 escudos (42 cêntimos) e um aprendiz 17 escudos (8,5 cêntimos) .
Naquele tempo, o mesmo Salazar que proibia os avanços apaixonados em público também impediu a entrada da Coca-Cola em Portugal – temia a invasão do ‘american way of life’ -, de forma que o contrabando da bebida era punido pela polícia das alfândegas, o que fazia com que uma carica no mercado dos colecionadores fosse uma espécie de tesouro.
"Esta é a proibição que surpreende mais os jovens com quem falo nas escolas sobre o período da ditadura. Eles sabem, ou esperamos que saibam, que as coisas corriam mal, que havia guerra, que havia fome e analfabetos, mas não sabem em que consistia o dia a dia de um jovem naquele tempo e de que forma o regime interferia no quotidiano", partilha António Costa Santos.
O jornalista fez uma viagem às proibições do tempo da outra senhora, capaz de surpreender aqueles que nasceram em democracia como de recordar aos que conheceram a ditadura de como era ter de possuir uma licença para usar isqueiro, não poder dormir nos bancos de jardim nem jogar às cartas no comboio.
Mulheres (mais) penalizadas
O próprio autor, nascido em 1957, deu por si surpreendido durante a pesquisa para o livro ‘Era proibido’ (Ed. Guerra & Paz/Livros CM).
"Conhecia as proibições de uma forma geral, mas surpreendeu-me o requinte de malvadez de algumas, designadamente as que dizem respeito à mulher: as professoras precisarem de autorização do Ministério da Educação para poderem casar ou os maridos terem o poder de ir ter com o patrão da mulher e dizer para a despedir", enumera. Já as enfermeiras estavam proibidas de casar e nenhuma mulher, fosse qual fosse a profissão, podia viajar para o estrangeiro se fosse casada ("os ditadores são como os pais coruja das donzelas de antanho", diz o autor na página 71), proibição só revogada após a morte de Salazar pelo decreto-lei nº 49 317, do tempo de Marcelo Caetano.
Também era proibido usar biquíni e, a propósito, António Costa Santos conta a história de uma inglesa que, interpelada por um agente da Polícia Marítima aos gritos de "just one piece", no sentido de cobrir a barriga, referindo-se ao fato de banho de uma só peça - nada cá de sutiã e cuecas -, terá entendido menos bem o inglês da autoridade e tirou a parte de cima do biquíni. "Se é só uma peça fico com a de baixo, ok?"
Era ainda proibido uma mulher andar na rua sozinha à noite e as raparigas não podiam ir de minissaia para a escola. "Em muitos liceus femininos havia mesmo uma contínua, na portaria, a zelar pelo bom trajar das adolescentes", escreve o autor. As jovens, mesmo no verão, estavam impedidas de assistir às aulas com os braços à mostra – só podiam arregaçar as mangas até ao cotovelo nas aulas de laboratório de Química. No liceu Maria Amália, em Lisboa, as adolescentes não podiam usar cores como vermelho e preto ou laranja, e preto porque uma certa vice-reitora entendia que tais combinações de cores excitavam os homens.
Nesse Portugal não muito distante era proibido andar de bicicleta sem licença e sacudir o pó à janela. Mas do que o autor se lembra bem é de aos 15 anos ter ido parar ao posto da guarda oito vezes no mesmo mês por atentado à moral pública, que é como quem diz, por causa de uns beijos no jardim. Felizmente, não teve de esperar muito para poder beijar em liberdade: tinha 16 anos na revolução de abril.
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