Em Angola éramos como nómadas, sempre de terra em terra. As primeiras dezoito baixas em 28 meses foram na operação ‘Pedra Verde’
No dia 12 de Agosto de 1961 parti para Angola no paquete ‘Vera Cruz’, integrado como cabo radiotelegrafista no Batalhão de Caçadores Especiais 261. Oito dias depois da chegada a Luanda fomos para o Grafanil, de onde partimos para o Norte. Sempre como nómadas, uma vez que nosso Batalhão era operacional. Um dos piores momentos que vivemos foi a operação ‘Pedra Verde’, onde sofremos as primeiras das dezoito baixas ao longo dos 28 meses da nossa permanência em África. Mesmo depois de tomarmos conta daquilo, os terroristas, infiltrados em túneis, parecia que renasciam.
Os meus camaradas de Transmissões alcunharam-me de ‘faquir’: não por dormir sobre pregos, mas por fazer serviços de telegrafia. Até no cimo de depósitos de água para tirar melhor aproveitamento das ondas hertzianas, uma vez que as condições de escuta eram muito deficientes, devido à densidade do mato. Após a grande operação da ‘Pedra Verde’ apoderou-se de mim um sentimento patriótico; não posso deixar de o expressar: Sou Português, que interessa a cor! Branco ou negro, moreno ou mestiço, se no meu coração vibra a mesma fé, amor e lealdade. Portugueses, um povo espalhado pelos quatro cantos do mundo ao longo de oito séculos de história.
DE TERRA EM TERRA
Poucos dias depois da operação ‘Pedra Verde’ apareceu-nos o grande e saudoso Artur Agostinho para que enviássemos mensagens para os nossos familiares através da televisão. Pena é que por vezes os parentes vissem essas mensagens quando já haviam sido notificados do falecimento do seu familiar.
A primeira vez que tivemos instalações fixas foi em Carmona, onde dormimos no chão de uma escola. Até aí, dormíamos em barracas de campanha, uma vez que andávamos sempre de um lado para o outro. Lembro--me que, em Fevereiro de 1962, recebemos as encomendas do Movimento Nacional Feminino que foram embaladas para serem entregues no Natal e chegaram dois meses depois. Ainda assim, soube bem ler o jornal; as conservas escaparam porque já estávamos acostumados às rações de reserva que diariamente nos eram atribuídas e as bolachas já estavam moles, mas quem dá o que tem, a mais não é obrigado. De operação em operação, fomos andando por Ambriz, Ambrizete, Quitexe, Bessa Monteiro, Quibaxe, Negaje e muitas outras. Lembro-me que chegámos a uma localidade perto de Bessa Monteiro e havia brancos enterrados só com as mãos de fora, com laranjas espetadas nos dedos.
No Natal de 1962, cometi uma infracção. Entrei em contacto através de código morse com um irmão também radiotelegrafista. Tive um outro irmão em Moçambique, mas sossegávamos a nossa mãe através dos aerogramas.
Mais tarde fomos para a zona de Intervenção Leste, Teixeira de Sousa, atravessando toda a província angolana desde Lobito onde chegámos de barco e por via férrea, para amenizar as causas da guerra no Congo Belga, acolhendo os mercenários em fuga. Regressámos a Luanda, onde apanhámos de novo o ‘Vera Cruz’ que nos trouxe a Lisboa no 1º de Dezembro de 1963. Tinha a família à espera, mas só pudemos estar juntos depois de regressar de Chaves, da Companhia Mobilizadora dos Caçadores Especiais.
PERFIL
Nome: João Óscar Figueiredo
Comissão: Angola (1961-1963)
Força: Batalhão de Caçadores Especiais 261
Actualidade: 72 anos, casado, dois filhos. Está reformado e vive em Rio Maior
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