Insectos, lagartixas, crocodilos também merecem a atenção dos cientistas. Não são fofinhos como as crias de mamíferos mas dão-nos uma espantosa lição de sobrevivência.
Se aranha em casa fosse sinal de dinheiro Ricardo Silva estaria milionário. Mas, aos 32 anos, obiólogo de formação já perdeu a esperança, tal a quantidade de aracnídeos que lhe tem passado, literalmente, pelas mãos, sem afluência proporcional de metal aos bolsos. Nada que torne as aranhas menos apetecíveis ao intelecto deste investigador, ultimamente mais dedicado à criação de sites na internet . Afinal, aranhas, lagartixas, crocodilos e outros répteis também são filhos de Deus e, assegura quem os conhece por dentro e por fora, criaturas muito interessantes, que já cá estavam antes e são capazes de por cá continuar quando os seres humanos tiverem desaparecido.
O sentimento de repugnância não é, contudo, estranho a Ricardo. 'Eu sentia repulsa não só em relação a aranhas, como a diversos insectos, mas sempre tive curiosidade.' Odesejo de conhecer é meio caminho andado para vencer os receios. Obiólogo pôde dar asas à curiosidade quando, no 10.º ano, entrou na Escola Agrícola da Paiã, em Odivelas, disposto a tornar-se técnico de agro-pecuária. 'Na escola da Paiã tive contacto directo com o campo e, com um grupo de amigos, passava muitas tardes em busca de animais que tentávamos criar e observar.' Foi-se interessando pelas aranhas. Descobriu que eram um grupo 'mais diverso e fascinante' do que suspeitava. Fora apanhado na ‘teia’ e lá permaneceu envolto quando frequentou, já na Universidade de Évora, o curso de Engenharia Agrícola e depois concluiu o de Biologia, área na qual trabalhou.
O que é que as aranhas têm de tão especial? 'Só em Portugal há cerca de 900 espécies conhecidas, pelo que é difícil escolher uma característica ou espécie.' Ainda assim, se o criador do site aranhas.info tivesse de destacá-las por alguma razão genérica, diria:'São um grupo de predadores, um dos primeiros a colonizar o meio terrestre, que conseguiu, ao longo da evolução, encontrar surpreendentes soluções de sobrevivência.' As aranhas assistiram na primeira fila ao ‘filme’ do surgimento e declínio de vários grupos de animais e continuam cá. Com enorme sucesso. No caminho dos portugueses cruzam-se com frequência, até dentro de casa, a Steatoda nobilis – não existem nomes comuns para as aranhas –, que também anda nesta página, e os Pholcus, a que, dependendo da zona do País, se chamam, por causa das longas pernas, aranhuços, cavalinhos ou aranhóis.
Sobre espécies raras, Ricardo Silva prefere não entrar em detalhes, prevenindo excursões que possam resultar em dano, mas adianta que Portugal tem 'muitas espécies endémicas que não ocorrem em outro sítio do Mundo'. O que falta é financiamento para promover estudos e assim, eventualmente, encontrar até novas espécies, o que é importante quanto mais não seja por motivos egoístas. 'Do conhecimento dos seres vivos que habitam a Terra temos retirado inúmeras informações e produtos úteis para nós', sublinha o estudioso de aranhas, inclinação que, uma vez revelada, gera 'todo o tipo de reacções, desde interesse a arrepio.'
Capturava lagartixas à mão, atava-lhes um fio em volta do corpo e passeava-as. Esta imagem dominava o imaginário do rapaz nascido em Pedras Salgadas, em Trás-os-Montes, que crescia no Alto Alentejo. Hoje, esse menino – incumbido de retirar da vista das irmãs e das empregadas domésticas alguma cobra vinda do campo que se tivesse esgueirado para dentro da casa, no lugar dos Senhores dos Aflitos, a seis km de Évora – é professor de Herpetologia, ciência que estuda os répteis, na universidade local. Tem 43 anos.
Não é que as tivesse alguma vez perdido, mas Paulo Sousa reencontrou, em sentido científico, as lagartixas quando estudava Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e visitou uma exposição fotográfica temporáriana Fundação Calouste Gulbenkian. Diante da fotografia de uma bela paisagem da ilha da Córsega, no Mediterrâneo, comentou ‘aqui é que eu gostava de estudar’. Precisamente ali, disse-lhe um colega, era possívelfazer um estágio em Ecologia. E pronto. Paulo foi ao encontro de Marc Cheylan, biólogo francês que estudava as lagartixas da Córsega. 'Fiquei para sempre interessado em lagartixas.' Neste gosto participou também, diz, a vontade de contrariar 'as modas ecologistas que favorecem o aspecto fofinho das crias de mamíferos e a plumagem atractiva das aves'.
Paulo Sousa sabe o suficiente sobre répteis para poder admirá-los:'São super-económicos, vivemcom poucoalimentoerecolhem a energia de que necessitam apenas expondo-se ao Sol.' Têm escamas capazes de acumular mais calor do que as células fotovoltaicas dos painéis solares. 'Se a engenharia humana conseguisse imitar o balanço energético reptiliano, teríamos decerto um modo de vida energeticamente mais rentável e ecologicamente mais eficiente.'E, claro, a dependência do petróleo passava à História.
O ponto de partida da investigação de José Carlos Brito, biólogo da Universidade doPorto em missão na Mauritânia, é o tempo muito antes da História, quando havia água no Sahara. O que resta agora são lagoas no cimo das montanhas de Tagant, onde nadam crocodilos. No princípio do ano, a National Geographic Society atribuiu, pela segunda vez, ao investigador português uma bolsa de 20 mil euros para que pudesse estudar as solitárias populações de crocodilos do deserto. José Carlos Brito explica o interesse pelos répteis em geral:'Tendem a manter processos evolutivos mais claros' e 'respondem directamente às alterações do clima'.
Os investigadores concordam que o medo humano de répteis e também de alguns insectos há-de ter alguma componente genética, mas não descuram o aspecto social que a potencia e resulta em discriminação injusta entre animais ‘bons’ e ‘maus’. 'Em Portugal não existem casos documentados de picadas perigosas provocadas por aranhas. Existem, contudo, inúmeros relatos relativos a picadas de abelhas', nota Ricardo Silva, questionando:'Então, por que é que a abelha é considerada simpática e a aranha um monstro?' Omelhor mesmo é deixar umas e outras fazer o seu caminho em paz ou mostrar-lhes o caminho da rua.
PRECONCEITO DE ORIGEM JUDAICO-CRISTÃ VITIMA RÉPTEIS
“A esconjura que recai sobre anfíbios e répteis têm raízes profundas na nossa matriz cultural judaico-cristã”, sustenta Paulo Sousa, professor de Herpetologia na Universidade de Évora. Tendo vivido sempre no campo, conhece uma longa lista de crendices populares:_“a peçonha da osga que faz cobranto na pele, a urina do sapo que pode cegar-nos quando o animal aponta intencionalmente (!!!) o jacto aos nossos olhos, o licranço (falsa cobra-minhoca) que mata um homem se lhe tocar com a ponta da cauda e da cabeça, as serpentes que bebem o leite materno dos animais e até das mulheres.”_O episódio bíblico da expulsão do Paraíso após a intromissão de uma serpente é levado à letra e “poucos sabem que a serpente simboliza o Conhecimento oculto que devia ser vedado às mentes não iniciadas.” Se na base do ódio a répteis e anfíbios estiveram Adão e Eva, depois ‘Indiana Jones’, com o seu medo de cobras, não ajudou à desmistificação.
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