Na primeira missão de combate, viu um guerrilheiro, gravemente ferido, ser abatido a sangue frio com um tiro na nuca. Foi a sua pior recordação da comissão na Guiné
Quando assentei praça tirei a especialidade de radiotelegrafista. Nessa altura havia a ideia de se unir esta especialidade com a de condutor. Resultou em Angola e em Moçambique, mas não na Guiné, por causa de ser um território com muitas zonas de água. Por isso, muitos poucos desta especialidade foram para lá mas eu fui um deles, integrado na Companhia de Caçadores 557/63.
Cheguei à Guiné a bordo do ‘Ana Mafalda’ e ficámos alguns dias em Bissau. Pensava que vivia com muitas dificuldades, mas foi preciso chegar à Guiné para ver miséria maior que a minha.
O pessoal estava num grande barracão, em que uma parte eram as camaratas e outra a cozinha e o refeitório. Do lado de fora da porta reparei que havia muitas crianças negras. Na hora da comida tínhamos um guisado com caldo. Comi e ainda sobrou um pouco de caldo. De sobremesa comi uma banana e deitei a casca para a malga. Quando saí para ir deitar os restos no lixo fui assolado pelas crianças que me pediam comida. Disse-lhes que o caldo já estava com a casca da banana. Um bocadinho de pão que levava, desapareceu logo. Despejei a ‘lata’ no latão do lixo e aquelas crianças tomaram de assalto o latão, à procura de um pouco do caldo. Aquilo impressionou-me muito. No mês seguinte à nossa chegada estivemos em Quinhabel, junto ao aeroporto, e depois voltámos a Bissau.
Uma noite, foi ordenado ao 2.º Pelotão da Companhia 557 para se apetrechar dos requisitos mínimos e individuais para combater. Só sabíamos que nessa noite íamos embarcar no navio ‘Nuno Tristão’, rumo ao desconhecido. Era o nosso primeiro encontro com a guerra propriamente dita.
Navegámos toda a noite e de manhã, desembarcamos, por meio de uma lancha de desembarque LDP da Marinha, numa praia enorme, assim como toda a Costa de Caparica, e linda. Era a ilha de Caiar; tinha começado a ‘Operação Tridente’ e estávamos a estabelecer a base logística, de onde partiam as acções de limpeza na ilha do Como.
Desde a madrugada que já estava muito calor e enquanto o sol subia mais apertava o calor. Já tínhamos esgotado a água dos cantis e todos sofríamos de sede. Escavámos na areia da praia até achar água, mas era salgada. E crescia o clima de ansiedade entre o pessoal. Estávamos todos desmoralizados e desidratados.
Foi então que um alferes-comando, que já tinha combatido em Angola, chamou um radiotelegrafista. Apresentei--me. Escolheu mais alguns homens e entrámos mata adentro à procura do precioso líquido.
Andámos umas centenas de metros e o olhar experiente do alferes viu uma cabana de folhas encostada numa árvore. Nós nem tínhamos reparado naquilo. Mandou-nos formar em posição de ataque, num U à volta da choça e disse que ele e o homem do rádio (eu) é que íamos avançar e que ele daria ordem de fogo se fosse o caso.
Quando nos aproximámos mais da cabana, do outro lado saiu a fugir um guerrilheiro que estava lá a espiar-nos. O alferes disparou a arma e armou-se o caos com todos os outros a abrirem fogo também. Não nos atingimos uns aos outros por milagre. O nosso comandante gritava para pararmos de fazer fogo e só quando ergueu os braços é que a situação se acalmou.
Então o alferes chamou-me novamente e seguimos apenas os dois. Uns metros mais à frente fomos dar com o guerrilheiro caído no chão de bruços, vivo ainda, mas com uma perna cortada pela canela. O alferes ergueu a sua G-3 e disparou-lhe um tiro na nuca e saltou a calota da cabeça do guerrilheiro.
Foi aí que senti o que era a guerra: o sangue esguichava da cabeça do indígena em várias direcções, fazendo arcos com uns dois metros. Foi horrível o que vi e a pior recordação com que fiquei da guerra.
Voltámos para trás sem água. Afortunadamente, uns metros mais acima no areal, um dos nossos militares cavou um novo buraco e encontrou água doce com abundância, que deu para matarmos a sede e até nos lavarmos.
Ficámos nesta ilha um mês, enquanto durou a ‘Operação Tridente’. Como base de logística, era daqui que partiam os aviões bombardeiros e que chegavam os helicópteros com a rendição dos soldados, os feridos e mesmo os mortos. Ao largo, o ‘Nuno Tristão’ dava-nos apoio.
Quando A ilha de Como foi dada como limpa, fomos para lá e ficámos 11 meses. Durante este tempo construímos um fortim com troncos de palmeira e dos bidões abertos fizemos a cobertura das instalações.
Todo esse tempo não víamos vivalma, apenas, às vezes, e ao longe, alguns indígenas. Todavia, felizmente já com o forte construído, dois meses depois começámos a sofrer ataques dos guerrilheiros, durante a noite e cada vez mais violentos, a que respondíamos com tiros de morteiro 81. Na manhã seguinte percorríamos a mata em operação de limpeza e encontrávamos guerrilheiros mortos, armas, munições e granadas, na sua maioria checoslovacas, e rastos de muito sangue. Os guerrilheiros do PAIGC, quando retiravam, levavam com eles os feridos. Acalmavam durante dois ou três dias, às vezes uma semana, e depois voltavam a atacar-nos.
O isolamento em Como era muito pesado. Os mantimentos, rações de combate, eram lançados de avião e só mais tarde é que começámos a ser abastecidos por uma lancha, pelo rio, mas era só de quando em quando e com frequência acabavam-se os víveres e apenas tínhamos arroz e salsichas. Ainda assim, a nossa sorte foi termos construído um forno, onde cozíamos o pão, porque tínhamos farinha suficiente.
Na zona não havia água potável e de cada vez ia uma secção, numa lancha, buscar água a Catió, pelo rio. No início ainda tínhamos uma LDP, mas depois passámos a ter apenas uma lancha mais pequena e mal armada. O correio só recebíamos de mês a mês.
Uma vez, a lancha foi buscar mantimentos e quando estava a chegar foi avistada por um avião nosso. Apesar da lancha ter a bandeira portuguesa, o piloto julgou que eram os guerrilheiros a tentarem enganar-nos e abriu fogo. Do aquartelamento apercebemo--nos do que passava e agitámos uma bandeira portuguesa. Finalmente o avião avistou-nos e afastou-se. Corremos até ao porto, a uns 500 metros das instalações. Vimos no chão e nos caixotes os buracos dos tiros, mas nada da lancha, nem manchas de óleo na água. Durante várias horas ficámos angustiados sem saber nada dos nossos camaradas. Depois, recebemos uma mensagem de Catió a dizer que os nossos tinham fugido, regressando na lancha àquela localidade. Foi um alívio para todos. E saber que o piloto era ainda ‘maçarico’ e não conseguira acertar na embarcação...
Naqueles meses, o comandante da Companhia, capitão Ares, bem como o médico Leitão e o alferes Leal, mais do que oficiais foram verdadeiros amigos nossos. Então o capitão era quase como um padre: aconselhava o pessoal, acudia-nos quando tínhamos conflitos em Bissau. Hoje, é presença assídua nos almoços anuais da Companhia, que este ano vai realizar-se em Ponte de Sor.
Em Como, muitas vezes ia em operações como radiotelegrafista e comunicávamos com os aviões que iam bombardear a mata à nossa frente. O sinal era que quando eles passassem por cima de nós, nós transmitirmos a frase ‘é agora’. Assim eles sabiam onde estávamos. Mas mesmo assim, muitas vezes, caíam sobre nós as ramagens cortadas pelas balas dos aviões e estávamos a ver quando éramos nós os bombardeados...
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