‘O Pátio das Cantigas’, que estreia quinta-feira, recria na Lisboa de 2015 personagens e situações do filme de 1942
Miguel Guilherme tem os mesmos 56 anos que António Silva tinha em 1942, quando criou o irascível droguista Evaristo, no filme ‘O Pátio das Cantigas’, mas o ator que retoma a personagem na nova versão, que vai estrear nesta quinta-feira, afasta as comparações: "Ainda no princípio dos anos 70, um homem com 65 anos estava à beira da morte. Hoje é um tipo novo."
Está longe de ser essa a única diferença no filme que o realizador e produtor Leonel Vieira fez, arrancando a trilogia ‘Os Novos Clássicos’, revisitação de comédias portuguesas que inclui ‘O Leão da Estrela’, no fim deste ano, e ‘A Canção de Lisboa’, no início de 2016. Continua a existir um pátio, num bairro popular lisboeta, mas a drogaria dá lugar à mercearia gourmet, alugam-se quartos a gays espanhóis, as zaragatas são gravadas em smartphones e um tuk tuk percorre as ruas.
Ao volante vai Narciso, interpretado por César Mourão, de 37 anos, que ficou aliviado quando Leonel Vieira não lhe exigiu uma transformação idêntica à que Martin Scorsese encomendou a Robert De Niro em ‘O Touro Enraivecido’. "Pediu-me para engordar um bocadinho, mas nada disso... Até porque estou muito longe do que Vasco Santana era na altura, mesmo se engordasse 20 quilos", diz à ‘Domingo’
Os protagonistas de ‘O Pátio das Cantigas’ dificilmente fugirão a serem comparados a António Silva e Vasco Santana, figuras icónicas do século XX, mas querem distanciar-se dos primeiros intérpretes de Evaristo e Narciso. "Em conversa com o Miguel, e com o Leonel Vieira, chegámos à conclusão de que quase poderíamos fazer de netos, ou bisnetos, do Vasco Santana e do António Silva. E foi isso o que fizemos", acrescenta César Mourão.
Apesar de o Evaristo de Miguel Guilherme manter o hábito de dizer "ó seu camelo" a quem o aborrece, de conjugar o verbo ‘dessincronizar’ mais vezes do que o normal, falando de uma forma descrita por outra personagem como "num filme antigo", o ator garante que não fez uma colagem. "Sou um péssimo imitador. Pensei: mesmo que imite, vou imitar mal", diz.
AUTORIZAÇÃO FAMILIAR
Também assim pensou Leonel Vieira, de 46 anos, quando o advogado José Francisco Gandarez lhe disse: "E que tal fazer um ‘remake’ de ‘O Pátio das Cantigas’?" A pergunta estava longe de ser retórica, pois tinha em curso negociações com familiares dos autores deste – Vasco Santana e os irmãos Francisco ‘Ribeirinho’ Ribeiro e António Lopes Ribeiro – e de outros filmes, mas o realizador e produtor entendeu que seria "heresia" limitar-se a filmar com atores diferentes: "Preferi, apesar de termos os direitos, que o guião original fosse uma inspiração."
De ‘O Pátio das Cantigas’, o transmontano Leonel Vieira, natural de Miranda do Douro, tinha as memórias partilhadas pelos portugueses que cresceram quando a televisão tinha um ou dois canais – no seu caso, como em todas as regiões fronteiriças, a ausência da RTP 2 era compensada pela espanhola TVE – e os filmes nacionais dos anos 30, 40 e 50 faziam rir à tarde e à noite. "Só pelo facto de serem comédias deste período, existe uma unidade de posicionamento como raras vezes tivemos. Com o passar dos anos, estes filmes criaram uma união nacional em torno deles", conclui.
Admitindo que deter ‘marcas’ tão fortes quanto ‘O Pátio das Cantigas’, ‘O Leão da Estrela’ e ‘A Canção de Lisboa’ facilitou a obtenção de financiamento, teve de repensar argumentos escritos há sete ou oito décadas. "Começámos a pensar... se houvesse um Vasco Santana na Graça, o que seria? Teria um tuk tuk, claro. Não tinha miúdos a pedir, mas sim a distribuir panfletos a turistas", exemplifica o cineasta.
Além das mudanças subtis nas personagens principais, a Rosa disputada por Evaristo e Narciso passou da viúva interpretada por Maria das Neves a uma lojista, recatada mas vistosa, a que Dânia Neto dá corpo. E a célebre Maria da Graça que vem do Brasil deixou de ser a cançonetista homónima e é uma atriz de telenovelas – com Oceana Basílio a fazer sotaque tropical –, que é irmã e não filha da dita Rosa. No que toca aos figurinos, os fatos e chapéus de 1942 foram substituídos por calções e camisolas de alças.
A experiência de viver num bairro popular de Lisboa permitiu a Miguel Guilherme constatar que o retrato traçado no novo ‘O Pátio das Cantigas’ é fiel. "Estive nos Santos Populares aqui na Bica e vi que ficou tudo muito bem feito. As pessoas mais velhas estavam vestidas como eu, mas havia gente nova bem mais ‘para a frente’. Está lá o bairrismo todo, mas não tem nada a ver com aquela paz portuguesa do Salazar."
PROPAGANDA A RIR
Tal como as outras comédias das primeiras décadas do Estado Novo, ‘O Pátio das Cantigas’ original tinha propaganda mais ou menos encapotada à ditadura. Numa das cenas, depois da rixa em que participa quase todo o elenco e figurantes, o arremesso de estalinhos, bombas e fogo de artifício foi filmado por Ribeirinho como versão cómica dos bombardeamentos trágicos que em 1942 arrasavam outras cidades europeias. E, no fim da sequência, o Narciso de Vasco Santana encaminhava crianças para um esconderijo, onde "podem estar sossegados, que aqui não lhes acontece mal nenhum", com um movimento de câmara a revelar o nome de Salazar escrito na parede.
Leonel Vieira, cuja primeira longa-metragem, ‘A Sombra dos Abutres’ (1998), tinha os protagonistas a serem perseguidos pela PIDE, sabe que comédias como aquelas que está a reinventar "eram para manter mentes dormentes e adocicar o regime e a vida quotidiana". Mas não deixa que isso as marque. "Na minha geração, quando demos conta de que estes filmes eram propaganda já era demasiado tarde para os crucificarmos, pois estavam alojados na nossa memória afetiva", diz.
NOVAS GERAÇÕES
Já Miguel Guilherme e César Mourão têm consciência de que alguns membros mais novos do elenco nunca viram o original, tal como grande parte dos potenciais espectadores. "Isso para mim é o mais interessante", explica o intérprete de Evaristo – que em 2015 continua a arremessar o que tem à mão a quem diga "Evaristo, tens cá disto?", embora haja variações mais modernas da pergunta –, enquanto César Mourão tem duas leituras possíveis: "Quem for ver agora, e nunca tenha visto esses clássicos, pode a dada altura dizer que ‘soa muito a antigo’. Mas, se calhar, quem os viu irá dizer que está moderno demais."
"Aqueles filmes eram muito engraçados. O primeiro que vi, com oito ou nove anos, foi ‘O Pai Tirano’, e descobri que havia atores portugueses. Fiquei fascinado", recorda Miguel Guilherme, que viu esse filme "umas 50 vezes". Já ‘O Pátio das Cantigas’ não foi revisto tantas vezes assim. "A minha dificuldade em algumas cenas, como a do candeeiro público, foi não dizer o texto original. Já vi muitas vezes, já imitei em brincadeiras, até já fiz em programas de televisão", diz o novo Narciso, que teve cuidado com as imitações: "O próprio andar do Vasco Santana, com o peso que ele tinha, não é o meu. Caso fizesse uma colagem, poderia resultar patético."
TEXTOS E ELENCO
Para Leonel Vieira, que teve a primeira conversa com José Francisco Gandarez em dezembro de 2013 e no mês seguinte já estava a elaborar o dossiê para encontrar financiadores, a primeira prioridade foi trabalhar os guiões. Pedro Varela escreveu o de ‘O Pátio das Cantigas’ e o de ‘A Canção de Lisboa’, também por si realizado, enquanto ‘O Leão da Estrela’ foi remodelado por Tiago Santos, com a preocupação de não afugentar espectadores desta ou daquela fé clubística.
"Com toda a imodéstia do Mundo, penso que os nossos guiões são melhores do que os originais, pois resolvem muitos problemas que os outros tinham", afirma o realizador, argumentando que os textos daqueles tempos eram transposições do teatro de revista para o cinema.
No entanto, ainda mais do que os guiões, o maior desafio foi a escolha do elenco. O realizador conseguiu convencer "90 por cento das primeiras escolhas", incluindo César Mourão e Miguel Guilherme, mas admite que não tinha nenhuma alternativa em caso de recusa do seu Evaristo. Este aceitou ao conhecer os restantes atores e os argumentos, "que eram francamente interessantes e cómicos", enquanto o Narciso de 2015 pensou duas vezes, pois "mexer nestes clássicos é quase como uma cirurgia", antes de aceitar.
Convencido de que a comédia "resulta mais quando se acerta no ator do que quando se acerta no texto", devido à experiência de ‘Filme da Treta’ (2006), por si produzido, e que crê ter funcionado sobretudo graças a António Feio e José Pedro Gomes, Leonel Vieira espera que a dupla atraia muito público, mas evita revelar as suas expectativas quanto aos resultados de bilheteira. Além de Dânia Neto e Oceana Basílio, o elenco tem ainda Sara Matos, como a nova Amália, e Anabela Moreira, a sua irmã Susana, "que foi transformada em feia". "Dizem-me que tenho a mania de ter atrizes bonitas nos filmes. Mas tenho eu e os cineastas de quem gosto", diz, sublinhando que todas passaram o teste da comédia. Nos homens, destacam-se Rui Unas (Carlos Bonito), José Pedro Vasconcelos (Joca), Manuel Marques (Rufino, que agora é irmão e não filho de Narciso) e Aldo Lima (João Magrinho), sendo o russo interpretado em 1942 por Elieser Kamenesky – quando havia menos russos em Lisboa do que hoje – substituído por uma família indiana.
Dentro de dias começará a perceber-se se reinventar ‘O Pátio das Cantigas’ foi corajoso ou louco. "Também é claro que ter muita coragem comporta uma dose de loucura", admite Leonel Vieira.
CAIXA: TRÊS MILHÕES PARA FAZER UMA TRILOGIA SEM SUBSÍDIOS
O orçamento inicial de cada um dos três filmes da trilogia ‘Os Novos Clássicos’ ficava nos 800 mil euros, mas Leonel Vieira acabou por gastar três milhões de euros em ‘O Pátio das Cantigas’, ‘O Leão da Estrela’ e ‘A Canção de Lisboa’, filmados consecutivamente e com os mesmos atores a entrarem em dois ou três filmes – César Mourão ficou de fora da reinvenção de ‘O Leão da Estrela’ porque Vasco Santana não entrou no original. O orçamento foi obtido com recurso a fundos de investimento e sem quaisquer subsídios do Instituto do Cinema e Audiovisual. "Como não gosto muito de ser profeta no deserto sem megafone, faço e vou provando o que defendo", comenta o realizador e produtor.
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